Foi enterrado na manhã dessa segunda-feira, em Arthur Nogueira, região de Campinas, no interior de São Paulo, o corpo de Grazielly Almeida Lames, de 3 anos. Ela morreu ao ser atingida na cabeça por um jet ski desgovernado, no início da noite de sábado, na Praia de Guaratuba, em Bertioga, no litoral paulista. Grazielly, que conhecia o mar pela primeira vez, brincava na beira da praia, na companhia da mãe, quando foi atropelada pelo aparelho. A menina foi levada pelo helicóptero Águia da PM ao hospital municipal, onde morreu.
Segundo testemunhas, um adolescente, de 14 anos, estaria pilotando a embarcação e teria perdido controle do jet ski, que seguiu desgovernado para a praia, atingindo a criança. De acordo com a polícia, o adolescente que conduzia o jet ski abandonou o veículo e não foi detido. A família do garoto, hospedada em uma casa no mesmo condomínio em que estavam os parentes de Grazielly, teria saído do local de helicóptero. A polícia disse que procurou a família do adolescente, mas a casa estava vazia.
A auxiliar de panificação Cirleide Rodrigues de Lames, de 24 anos, e o caminhoneiro Gilson Almeida da Silva, de 33 anos, pais da menina, foram para a casa de parentes após o enterro, pedindo justiça. “Acabei de enterrar minha menininha, quem sabe o que é isso? Espero que seja feita justiça e minha filha seja um anjo que impeça de acontecer isso com outras crianças”, disse a mãe, desolada. Cirleide disse que não dorme nem come direito desde o momento do acidente. “Não consigo fechar os olhos. Nada passa na garganta. É uma dor que não desejo para ninguém.”
A mãe afirmou não ter escutado barulho, nem ter visto o jet ski se aproximar. “Não vi nada, de repente apareceu o jet ski na minha frente, só consegui sentir aquele vento e ver minha filha jogada longe. O menino pulou do jet ski, eu só pensei em socorrer minha menininha”, disse. “Se eu pudesse dizer algo à mãe desse garoto, eu diria para ela se colocar no meu lugar. Eu nunca mais vou poder estar com a minha filhinha. Não quero isso para ela. Só gostaria que ela tentasse imaginar o filho dela no lugar da minha menininha, acontecer o que aconteceu por causa de uma irresponsabilidade”, afirmou. “Como pais deixam um instrumento como um jet ski na mão de uma outra criança?”
A menina era a única neta e a única sobrinha. “Minha família é muito simples, sabe, e a gente foi para a praia porque meu irmão deu isso de presente a ela.”
Sem piloto
Além da criança, uma jovem foi atingida pela embarcação. Ela sofreu apenas escoriações sem gravidade. Testemunhas afirmam que ninguém pilotava o jet ski. A versão comentada por populares é de que o garoto ligou o veículo sem o dispositivo de segurança, que desliga o equipamento em caso de queda do condutor.
Como o acelerador estava travado, o equipamento deslizou cerca de 200 metros pelo mar. O adolescente estava ao lado do veículo e não conseguiu desligar o jet ski, que parou apenas em um banco de areia.
A morte de Grazielly foi registrada como homicídio culposo – quando não há intenção de matar. Segundo uma testemunha, o grupo deixou a casa cerca de uma hora após o acidente. A família, que mora em um condomínio de luxo em Mogi das Cruzes, também no interior de São Paulo, estava hospedada a convite do proprietário da residência e do jet ski, que foi apreendido para perícia. O advogado Maurimar Chiossi, contratado pela família do adolescente, disse em entrevista coletiva que o garoto vai se apresentar à polícia na quinta-feira e que ele apenas ligou o veículo, mas não o pilotava.
Sujeito à lei
Os acidentes com jet ski são mais frequentes com quem não tem habilitação ou experiência, e ainda, com quem aluga embarcações. Por ser uma embarcação, ela e seu condutor estão sujeitos à legislação que trata de inscrição, habilitação do usuário e segurança no uso. Para dirigir um jet ski, é preciso ser maior de idade e ter uma autorização especial da Capitania dos Portos. Alguns modelos chegam a atingir 150 km/h. Segundo as normas, é proibido, entre outras coisas, a navegação em áreas de segurança e locais interditados à navegação e a menos de 200m da praia. Devido a acidentes, a locação dos aparelhos já foi proibida em cidades litorâneas paulistas.
Rotina de acidentes
15/01/11
» Wagner Miguel de Araújo Galvão pilotava um jet ski na Lagoa da Cutia, município de Rio do Fogo, litoral do Rio Grande do Norte, quando atropelou e matou a turista goiana Maria Marques Cordeiro, de 47 anos. Três pessoas ficaram feridas sem gravidade. Galvão admitiu sua responsabilidade e afirmou que prestou socorro a duas das três vítimas do acidente. Banhistas denunciaram a falta de fiscalização nas praias durante o período de alta estação. A polícia havia recebido informações de que o dono do balneário localizado próximo ao acontecimento já havia alertado ao condutor para os riscos de trafegar pelo local.
22/11/11
» Um comerciante morreu depois de ser atropelado por um jet ski em uma represa em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. O suspeito de pilotar o veículo era um adolescente de 16 anos. O equipamento foi apreendido para passar por perícia. Segundo o dono do jet ski, o menor usou o veículo sem pedir autorização. Familiares do comerciante estavam em uma lanchonete próximo ao local quando presenciaram o acidente.
31/12/11
» Um empresário morreu ao sofrer um acidente quando pilotava um jet ski na orla de Cabedelo, na Região Metropolitana de João Pessoa. De acordo com a 7ª Delegacia Distrital, a principal suspeita é de que ele tenha colidido em uma lancha. Conforme a delegada Maria Rodrigues, responsável pelo plantão da delegacia de Cabedelo, o jet ski da vítima e uma lancha colidiram. Segundo ela, apenas uma perícia feita nos dois veículos poderia detectar quem provocou o acidente. Os dois veículos foram levados para uma marina particular, onde peritos do Instituto de Polícia Científica fizeram análises.
13/2/12
» É grave o estado de saúde de Luan Emanoel Santana Paiva, 4 anos, ferido após o choque entre o jet ski pilotado pelo pai, George Milton Paiva, 27, e uma lancha, próximo a uma marina, em Salvador. George morreu na hora. O garoto, que sofreu traumatismo craniano e, de acordo com testemunhas, estaria sendo transportado de forma irregular no jet ski, foi levado para o Hospital Geral do Subúrbio, na capital baiana, onde segue internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Após o acidente, o proprietário da lancha, que não teve o nome revelado, apresentou o veículo às autoridades. Já o jet ski foi recolhido pela Capitania dos Portos, que abriu inquérito para investigar as causas da colisão. Neste verão, entre novembro até o dia 8 deste mês, a Capitania dos Portos contabilizou já quatro ocorrências envolvendo veículos marítimos na orla de Salvador.