Quem olha para o cenário da Praça da Cinelândia e observa o imponente Teatro Municipal vê a bandeira brasileira a meio mastro, devido ao luto de três dias decretado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro. A fumaça, onipresente na quinta-feira, diminuiu ontem.Com a retirada do entulho, os bombeiros puderam chegar ao foco das chamas e conseguiram controlar o fogo, porém o oitavo corpo encontrado estava carbonizado.
Luiz César é irmão de um dos desaparecidos, Luiz Leandro de Vasconcelos, professor na Tecnologia Organizacional, empresa que ocupava seis andares do Edifício Liberdade, sendo que dois passavam por obras – principal suspeita da causa do desabamento. O irmão da vítima está na Câmara dos Vereadores desde as 22h de quarta-feira. O local, na Cinelândia, na praça ao lado da Avenida Treze de Maio, funciona como um centro de operações, com apoio para os familiares. “A última vez que ele fez contato foi às 20h de quarta-feira. Disse que tinha algumas coisas para fazer e depois iria para casa”, conta. Luiz Leandro é pai de três filhos (7, 12 e 15 anos, respectivamente), mora em Laranjeiras e, segundo o irmão, é uma pessoa maravilhosa. “É um pai fenomenal. Os garotos estão em casa chorando”, lamenta.
O tenente-coronel do Corpo de Bombeiros Luciano Sarmento diz que “jamais” perde a esperança. Foi Luciano quem salvou o operário Alexandro da Silva Fonseca de dentro do elevador, na noite de quarta-feira. “Quanto mais tempo passa, mais difícil fica”, pondera o bombeiro. Porém, ele sabe que o esforço vale a pena. “Se encontrar alguém vivo será muito gratificante”, imagina. Luciano está desde a noite de quarta-feira envolvido nos resgates. Na noite de quinta-feira foi até o Quartel Central dos bombeiros, dormiu poucas horas e, como ele mesmo diz, “jogou uma água no corpo” e voltou para o local da tragédia. Com 1,73m e 68 quilos, não tem porte de super-homem, mas reconhece que todos que estão ali “são um pouco heróis”, para logo depois dizer: “Estou apenas cumprindo meu dever”. Antes de retornar à missão, ele sempre liga para a mãe e escuta o mesmo conselho: “Tome cuidado”.
Salvo na noite de quarta pelo bombeiro e liberado do hospital na quinta-feira, Alexandro passou ontem momentos intensos. Levado por uma rede de televisão até o local da tragédia, ele se sentiu incomodado com a cena. “Não deveria ter passado aqui, pois tenho um sentimento ruim. Penso nas famílias procurando os parentes e é muita tristeza”, lamentou.
Fazia duas semanas que Alexandro trabalhava em uma obra no prédio e chegou a derrubar uma parede que dividia dois banheiros. Porém, ele afirma que era apenas uma construção de tijolos e que não comprometeu a estrutura do prédio. Ele chegou a desenhar para os repórteres a disposição da sala e depois foi prestar depoimento na delegacia que investiga os desabamentos. Além da ajuda do bombeiro Luciano Sarmento, Alexandro atribui sua salvação ao telefone celular. “Foi ele que me salvou”, diz mostrando o aparelho. Alexandro viu o reboco caindo e correu para o elevador, que despencou. Do elevador, ele ligou para um amigo do lado de fora do prédio e duas horas depois foi resgatado.
São Sebastião O coronel do Corpo de Bombeiros Ronaldo de Alcântara diz nunca ter visto um cenário parecido nos quase 30 anos que está na corporação. Muitos dos homens comandados por ele participaram dos resgates e buscas do terremoto ocorrido no Haiti, há pouco mais de dois anos. A tragédia no país da América Central teve proporções maiores, porém o coronel destaca que como lá foi um terremoto a disposição dos destroços deixou espaços, o que permitiu encontrar um grande número de sobreviventes. “Do nono andar para baixo uma laje foi caindo em cima da outra, compactando tudo”, explica o coronel como foi o desabamento no Edifício Liberdade, o primeiro a cair e o maior dos três, com 20 andares.
A busca por sobreviventes permanecerá durante o fim de semana e os profissionais que trabalham no resgate se apegam à fé. Na manhã de ontem, as equipes de resgate encontraram uma bolsa florida e vazia, sem nenhum documento. Fizeram questão de destacar o único item que havia na bolsa. Um santinho, com a imagem de São Sebastião e a oração ao santo no verso. Todos os objetos são levados para um depósito, na Zona Portuária, e depois vão para o aterro de Gramacho, na Baixada Fluminense.