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Estado de Minas

Série especial: quando a família de idosos é acusada de maus-tratos


postado em 03/04/2011 10:34 / atualizado em 03/04/2011 10:47

Palavras balbuciadas entrecortadas por gemidos, corpos arqueados em cima de cadeiras de rodas e a sensação de que o tempo não passa criam uma atmosfera triste em qualquer abrigo para idosos — do mais caro ao bem precário. A solidão é aplacada temporariamente na hora da visita, pelo menos para uma minoria que mantém contato constante com familiares. Os afagos de Maria Dulce da Silva Arruda na mãe, incapacitada por complicações de um AVC, traduzem um dilema diante do qual profissionais que lidam com a questão do abandono familiar, criminalizado no Estatuto do Idoso com prisão de até três anos, têm se deparado cada vez mais. Seriam vilões ou também vítimas de desamparo os parentes que não cuidam dos seus velhos?



Denunciada por vizinhos há dois anos, Dulce responde a um processo por negligência e maus-tratos contra a mãe, Maria Arruda, que foi retirada da casa da filha, no Recanto das Emas, para uma instituição. Durante uma das duas visitas semanais que faz à mãe, ela se disse injustiçada. “Fui intimada, expliquei que eu precisava trabalhar durante o dia, principalmente depois que minha única irmã morreu de câncer, em 2007, e não tinha com quem deixar a mamãe. Então, ela ficava no barraco onde moro, mas de banho tomado e alimentada”, defende-se a acusada de 55 anos, solteira e sem filhos.

Sem conhecer a situação específica de Dulce, a assistente social Maria Luciana Carneiro de Barros resume o que percebe em quase 30 anos de experiência profissional lidando com o tema do envelhecimento. “Grande parte das famílias é primeiramente abandonada pelo Estado e, consequentemente, larga os seus idosos. Elas não têm disponibilidade ou condição emocional de cuidar de pessoas doentes. E os serviços públicos, por sua vez, não fazem sua parte”, diz. Promotora do Rio de Janeiro na área do idoso, Cristiane Branquinho concorda com a visão da assistente social, explicando que também se depara diariamente com parentes sem qualquer suporte. Mas acredita que, mesmo diante de dificuldades, as famílias são omissas, “ainda que culposamente”.

Intervenção


Ao entender que cada caso tem suas particularidades, o promotor da área do idoso em Goiânia, Humberto Puccinelli, destaca o problema da desestruturação familiar. Segundo ele, os asilos, estigmatizados como depósito de gente e última alternativa dentro da lógica da lei, acabam sendo a melhor saída. “O simples fato de estar na comunidade não significa boas condições ao idoso. Por isso, o próprio Ministério Público pede o abrigamento em muitos casos”, destaca. Para Diná Godinho da Silva, não foi preciso a intervenção das autoridades. Ela mesma pediu à filha, Cleide, com quem morava, para ser colocada em uma instituição. “Ficar na mão de empregada é muito ruim, aqui estou melhor, tem quem olhe por mim”, afirma a carioca de 84 anos que sofre de osteoporose grave e restrição nos movimentos.

Ela passou pela casa de um filho, depois de uma sobrinha e, há dois anos e meio, estava com Cleide, a caçula. Vendedora em uma loja de decoração, a mulher conta que sofreu com a decisão de deixar a mãe na instituição. “Apesar de ter perdido as contas de quantos cuidadores passaram pela gente, de ver o nervosismo dela a cada mudança de profissional, de ser surpreendida ao descobrir que a cuidadora não a alimentava, ficava me perguntando se ela não estaria melhor lá em casa do que aqui”, conta Cleide. Ainda é cedo para avaliar, já que Diná chegou há menos de dois meses a um abrigo. Mas a filha, nas visitas constantes, certifica-se de que a mãe está satisfeita. Pelo menos é o que dona Diná diz. “Estou muito bem”, responde, mesmo depois que Cleide vai embora.

Geralda Mendes Mindury, por sua vez, não se acostuma com a idéia de viver em abrigo, mesmo depois de três anos morando numa instituição de longa permanência. “Esse lugar é horrível, não gosto dessas pessoas, não gosto de nada, quero sair daqui”, reclama a idosa de 70 anos, apesar da dificuldade de falar por conta de AVCs que teve. Ela sofre ao se lembrar do único filho, de 45 anos, dependente químico atualmente em tratamento. Quem não deixa de visitá-la, pelo menos duas vezes por mês, é a irmã Valda, além de sempre ligar no celular de Geralda. “Não gostaria de deixá-la aqui, o lugar é triste mesmo, mas não tenho opção. Chegamos naquela fase em que todos estamos velhos, eu, que sou a caçula, já estou com 62 anos”, conta Valda, casada, dois filhos e um marido de 72 anos, com quatro pontes de safena.

Depois de cuidar sozinha da mãe no fim da vida, sem a ajuda dos irmãos, Valda chegou a tentar arrumar alguém para ficar com Geralda, mas não conseguiu, em parte devido ao gênio difícil da idosa. “Em dezembro, ela passou o mês inteiro comigo, mas eu adoeci porque ela faz questão de ser muito dependente, nada agrada, nada está bom”, desabafa. Ciente das críticas que sofre por deixar a irmã no asilo, Valda não se intimida. “Sei que sou julgada, que dizem que eu a abandonei. Mas quem conhece nós duas sabe que toda vida tentei ajudar, queria que ela se interessasse em ter um emprego fixo, se estruturasse. O que ninguém vê é que está cheio de idoso jogado dentro da casa dos familiares, muito mais desprezados do que numa instituição”, analisa.

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