Jornal Estado de Minas

CHECAMOS

Matéria sobre queda no preço do litro de leite pago ao produtor é uma montagem

Não é autêntica a suposta matéria que anuncia uma 'grande queda' no valor médio pago aos produtores de leite no terceiro trimestre de 2023. A imagem, compartilhada mais de 6,7 mil vezes desde, pelo menos, 9 de junho, garante que o preço do produto pago aos produtores deve cair 'devido ao acordo entre Brasil e Argentina' para importação do leite. Mas, para além do Mercosul, o AFP Checamos não encontrou qualquer registro de um novo acordo comercial entre os países para a importação do leite. O Ministério da Agricultura e Pecuária afirmou não acreditar em uma queda dessa magnitude.

'Preço do litro do leite pago ao produtor tem grande queda para o próximo trimestre', diz o título da suposta manchete que circula no TikTok, no Facebook e no Kwai.





O conteúdo também foi enviado ao WhatsApp do AFP Checamos, para onde os usuários podem encaminhar temas vistos em redes sociais, se duvidarem de sua veracidade.

A suposta notícia continua, com o subtítulo: 'Valor médio pago ao produtor será de 0.80 centavos a 1.20 R$ Para próximo mês de julho'.

'Devido ao acordo entre Brasil e Argentina para importação do leite, o Brasil terá grande queda em seu preço pago por litro nas principais regiões do Brasil. 0 ministro da economia, Fernando Haddad, comemorou nesta quarta feira dia 07. O grande passo dado para diminuir a pobreza do Brasil', alega o primeiro parágrafo. O texto seria assinado pelo jornalista 'Astolfo da Silva'.

Uma pesquisa no TikTok pelas palavras-chave ligadas ao conteúdo trouxe como um dos resultados outro vídeo, que afirma que a suposta notícia teria sido feita no site 'geradordefakenews.com', que permite aos usuários criarem uma manchete falsa a partir de um formato já pronto.





O site explica que, devido ao mau uso por campanhas eleitorais, só é possível gerar alegações falsas na categoria 'Futebol'. 

O AFP Checamos fez o teste e conseguiu gerar a mesma manchete no site. É possível ver também que, no conteúdo viralizado, a palavra 'Futebol' foi intencionalmente coberta pela palavra 'Pecuária'.

Comparação feita em 16 de junho de 2023 entre o teste feito pelo AFP Checamos no site 'geradordefakenews.com' e o conteúdo viral

No teste feito pelo AFP Checamos, o nome do suposto jornalista que assina a matéria falsa foi diferente.

Examinando o código-fonte do site, porém, é possível ver que os nomes dos 'jornalistas' são gerados a partir de uma lista de nomes e sobrenomes pré-definidos, conforme descrito em um dos arquivos contidos no código. Essa lista inclui a possibilidade do nome 'Astolfo da Silva', que assina o conteúdo viral.





Captura de tela feita em 16 de junho de 2023 de um trecho do código-fonte do site 'geradordefakenews.com'

Além disso, uma pesquisa no Google por matérias relacionadas à suposta 'comemoração' na queda dos preços por parte do ministro da Economia, Fernando Haddad, filtrando pelas datas de 6 a 8 de junho de 2023, não trouxe resultados compatíveis.

Procurado pelo AFP Checamos, o Ministério da Fazenda afirmou que 'a alegação de suposta matéria envolvendo ministro Haddad não procede'.

Novo acordo comercial?

Uma matéria publicada em 22 de maio de 2023 no site do Globo Rural de fato detalha que, nos primeiros quatro meses de 2023, o Brasil triplicou o volume de importação de leite, creme de leite e laticínios (exceto manteiga ou queijo). 

O motivo, segundo a reportagem, está no preço mais competitivo da matéria-prima fornecida pela Argentina e pelo Uruguai frente à matéria-prima local. A reportagem não cita, em momento algum, um novo acordo comercial entre Brasil e Argentina para importação de leite.





Na página do Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex), no portal do governo federal, é possível ver os acordos comerciais vigentes ou em processo de negociação entre o Brasil e outros países.

No caso da Argentina, além do acordo do Mercosul — bloco econômico criado em 1991 —, o outro acordo comercial vigente é o ACE 14, que dispõe sobre produtos automotivos.

Uma busca em uma tabela de preferências tarifárias na importação, também disponível no site da Siscomex, por acordos com a Argentina relacionados ao leite, só trouxe como resultado o acordo do Mercosul.





O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços afirmou à AFP em 16 de junho que 'não há acordo específico sobre leite no comércio bilalteral'.

O AFP Checamos procurou também o Ministério da Agricultura e Pecuária, que, de maneira semelhante, afirmou desconhecer a existência de algum acordo recente entre Brasil e Argentina para produção do leite.

Sobre uma possível queda no preço do litro do leite pago ao produtor em julho de 2023, a pasta indicou que existem alguns indicativos de manutenção ou queda, em função das importações e baixa demanda interna por derivados. Porém, o ministério alegou não acreditar no cenário previsto na suposta matéria.

'Sobre a previsão mencionada, para que ela aconteça, os preços atuais, R$ 2,86/litro (média Brasil Cepea) teriam que cair em torno de 50%, algo que as condições de mercado não apontam', disse a coordenação-geral de imprensa do ministério à AFP em 16 de junho, acrescentando: 

'Estamos na entressafra da produção nacional, com pouca oferta interna, e mesmo uma menor demanda e as importações não justificariam uma queda dessa magnitude.'





Vale lembrar que o preço do leite pago em julho de 2023 é referente ao produto entregue em junho, como acrescentou a pasta.

Preços do leite e importação

Natália Grigol, pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP na área do leite, resumiu: 

'Essa notícia tem elementos falsos e verdadeiros — é verdade que o setor deve se deparar com quedas de preços nos próximos meses. Contudo, não se pode vincular essa queda a um recente acordo entre Brasil e Argentina.'

A pesquisadora pontuou ao AFP Checamos, em 20 de junho de 2023, que os preços do leite costumam subir nos meses de maio e junho, época de entressafra — nos quais a produção tende a cair, elevando os preços. Contudo, esse não é o cenário esperado para 2023 justamente devido à grande disponibilidade de leite gerada pela alta nas importações.

'Cerca de 93% das importações de lácteos que o Brasil faz vêm da Argentina e do Uruguai: na média dos últimos quatro anos, 58% vêm da Argentina e 35% do Uruguai. é simples: são países parceiros do Mercosul com excedente de produção lácteo e preços muito competitivos', continuou Grigol.





Ainda segundo a pesquisadora, o Brasil historicamente se mantém como importador de lácteos no comércio com países do Mercosul, o que levou à adoção, em 2009, de um sistema de cotas para limitar a importação de leite em pó da Argentina. Em 2018, porém, a Argentina pressionou o Brasil para que eliminasse as limitações, o que levou ao fim desse sistema de cotas.

'Ou seja: não existe um novo acordo entre Brasil e Argentina a não ser o acordo do Mercosul em 1994 (que estabeleceu alíquota 0% para lácteos negociados entre os países do bloco) e o fim das cotas de importações em 2019', concluiu Grigol. 'Desse modo, tentar vincular o recente aumento das importações de lácteos à recente mudança do governo ou da política internacional do Brasil é uma inverdade'.

Referências