Publicações que afirmam que o Chile registrou um aumento de 30,6% de casos de covid-19 e um crescimento de 17,2% de mortes ligadas à doença, apesar da vacinação com o uso da CoronaVac, foram compartilhadas centenas de vezes em redes sociais desde o último dia 7 de junho de 2021.
“Chile vai de exemplo a preocupação mundial com alta de casos e mortes. Com quase metade da população imunizada, sendo 90% com CoronaVac, casos subiram 30,6% e mortes 17,2% nos últimos 30 dias”, diz a notícia publicada em 7 de junho de 2021. O conteúdo circulou no Twitter (1, 2, 3), no Facebook (1, 2, 3) e no Instagram (1, 2).
“Até meados de abril, o Chile havia aplicado basicamente apenas CoronaVac, 90% do total, segundo a imprensa local, e a norte-americana Pfizer. O Worldometer aponta 213 mortes em um só dia, quinta-feira passada; o segundo maior número registrado no Chile desde 27 de junho de 2020”, acrescenta o texto.
Apesar de o número de óbitos ser verdadeiro - conforme checado no boletim epidemiológico oficial do dia 3 de junho - os números oficiais da covid-19 divulgados pelo governo chileno mostram uma média de casos de, aproximadamente, 100 a 120 óbitos por dia desde março de 2021, como destacado pelo ministro da Saúde, Enrique Paris, em 3 de junho de 2021.
Alta de casos e alta de mortes
Segundo os dados do governo, é verdadeiro que o país enfrenta atualmente um número de casos maior do que o registrado em 2020. De acordo com os registros oficiais, em 14 junho de 2020, o Chile contabilizou 6.938 casos confirmados em um dia. Já em 9 de abril de 2021, o país registrou 9.171 casos. A média móvel semanal de casos, conforme indicada no gráfico abaixo, também cresce no país desde o final de dezembro de 2020.

No entanto, o aumento de mortes por covid-19 não foi proporcional ao dos casos, como explica Vivian Luchsinger Farias, professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Chile. “O número de falecidos aumenta à medida que aumentam os casos, mas não aumentaram tanto. Os doentes e mortos são, principalmente, os não vacinados”, diz à AFP.
O cientista de dados Isaac Schrarstzhaupt também observa estabilidade na curva de óbitos no Chile, ainda que em um patamar elevado. Schrarstzhaupt é coordenador da Rede Análise Covid-19, um grupo nacional de pesquisadores voluntários que se dedica à coleta de dados sobre a pandemia do novo coronavírus. “O número de óbitos no Chile tem oscilado desde o aumento [de casos] de janeiro, em um nível estável, alto, mas estável”, afirmou à AFP.

Alta de casos e aumento na mobilidade
De acordo com Luchsinger, da Universidade do Chile, o aumento no número de casos no país pode ser explicado por uma série de fatores, “incluindo a conduta das pessoas que não usam máscara e reúnem-se com outros indivíduos. A isso, também contribui o uso de uma vacina que não é tão eficaz em evitar a infecção entre os vacinados”, diz à AFP em referência ao imunizante Sinovac. “A mobilidade das pessoas está alta, apesar das restrições impostas pelas autoridades, principalmente devido a razões econômicas”, explicou.
Segundo Schrarstzhaupt, da Rede Análise Covid-19, há correlação entre o aumento no número de casos e mortes por covid-19 no Chile e a maior mobilidade da população relatada por Luchsinger. “Vemos um aumento enorme [da mobilidade] de outubro de 2020 até janeiro de 2021, o que se correlaciona com o aumento forte de casos de janeiro, quando ainda praticamente não existia vacinação [no país]”, escreveu o cientista em sua conta no Twitter, na qual incluiu gráfico de mobilidade da população chilena gerado pelo Google.
“Mesmo agora, em 15/06, o Chile tem 47% da população totalmente imunizada com as duas doses, o que ainda é distante dos 75% de Serrana (por exemplo). Além disso, o aumento de mobilidade mais forte no Chile veio ANTES da vacina (de outubro/20 a janeiro/21), deixando o vírus proliferar”, continuou Schrarstzhaupt na publicação, na qual constam gráficos.
“Isso mostra o que viemos falando desde sempre: enquanto não tivermos a cobertura vacinal acima de 75% (no mínimo), precisamos restringir a mobilidade. E, se tivermos um surto de uma variante mais transmissível, como a Delta, essa porcentagem aumenta ainda mais. Por isso temos de vacinar TODO mundo”, assinalou o coordenador da Rede Análise Covid-19 à AFP.

CoronaVac ineficaz?
O Instituto Butantan publicou um pronunciamento classificando como falsa a associação entre o uso do imunizante e o aumento no número de casos de covid-19 no Chile.
“É falso associar um aumento de casos de Covid-19 no Chile ao uso da CoronaVac. A vacina é segura e eficaz. Está salvando vidas no Brasil, no Chile e em outros países do mundo. Os casos recentes de Covid-19, de acordo com as autoridades chilenas, estão ocorrendo em quem ainda não foi vacinado”, escreveu o Instituto.
A neurocientista e biomédica Mellanie Fontes-Dutra também afirmou à AFP que o surto de novos casos no Chile não significa que a CoronaVac seja ineficaz no controle da pandemia.
“É importante ressaltar que no Chile existem variantes de escape imunológico circulando, como a P1 [agora chamada Gamma]. E estamos vendo que, para algumas variantes como essa, duas doses [da CoronaVac] são necessárias. Apenas uma dose não traria uma proteção completa. Então o Chile ainda está fazendo seu caminho rumo à cobertura vacinal e à vacinação com as duas doses”, disse a cientista. Até o dia 24 de junho, o Chile registrou 66,58% da população vacinada com as duas doses, segundo os dados oficiais.
“Portanto, não significa que a CoronaVac não é eficaz. Significa que nós precisamos, muito provavelmente, das duas doses para ter um controle maior. E significa também que, enquanto a população ainda estiver se vacinando, se a mobilidade estiver alta e não houver uso de máscaras, distanciamento e tivermos flexibilizações como no Chile, poderemos ter surtos da doença”, apontou Fontes-Dutra à AFP.

Segundo uma pesquisa da Universidade do Chile publicada no último dia 6 de abril, “a efetividade da vacina Sinovac não foi afetada por uma eventual circulação de novas variantes do vírus no país, seja porque a dita circulação ainda não é massiva ou seja porque a vacina não perde efetividade”.
Sobre um suposto menor impacto da CoronaVac na transmissão em relação a outras vacinas, Fontes-Dutra indicou que ainda não existem dados a respeito do potencial de redução de transmissão da covid-19 para este imunizante.
“Temos apenas o dado da Pfizer, que é um indicativo inicial. Então, no momento, nós não podemos realizar essa comparação [entre a CoronaVac e outras vacinas] porque não temos um dado ainda contundente mostrando o impacto da CoronaVac na transmissão”, indicou.
Segundo o estudo divulgado pelo Ministério da Saúde do Chile em 16 de abril de 2021, que analisou a eficácia da CoronaVac no país 14 dias após a aplicação da segunda dose, a vacina teve 67% de eficácia para prevenir casos sintomáticos de covid-19, 80% de efetividade na prevenção de mortes e 89% de efetividade na prevenção de internações em UTIs.
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O que é a COVID-19?
A COVID-19 é uma doença provocada pelo vírus Sars-CoV2, com os primeiros casos registrados na China no fim de 2019, mas identificada como um novo tipo de coronavírus pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em janeiro de 2020. Em 11 de março de 2020, a OMS declarou a COVID-19 como pandemia.
