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Estado de Minas

Coronavírus: inércia política aumenta número de mortes, indica estudo

Intervenções drásticas (como a imposição de isolamento rigoroso) até 25 dias depois da primeira morte confirmada é capaz de impedir até 80% de novas mortes por coronavírus em um país, aponta pesquisa.


postado em 06/05/2020 17:36 / atualizado em 06/05/2020 19:06


Intervenções drásticas (como a imposição de isolamento rigoroso) até 25 dias depois da primeira morte confirmada é capaz de impedir até 80% de novas mortes por coronavírus em um país, aponta estudo(foto: Reuters)
Intervenções drásticas (como a imposição de isolamento rigoroso) até 25 dias depois da primeira morte confirmada é capaz de impedir até 80% de novas mortes por coronavírus em um país, aponta estudo (foto: Reuters)

Agir rapidamente é um fator crucial para impedir mortes na pandemia de covid-19.

A afirmação pode parecer óbvia, mas, a julgar pelos ritmos diferentes das diversas diretrizes adotadas por países impactados pelo novo coronavírus, não é.

 

A velocidade de ação das autoridades é fundamental no combate ao novo coronavírus. Foi o que constataram acadêmicos de três universidades federais brasileiras (UFPR, no Paraná; UFS, de Sergipe; e UFPE, de Pernambuco).

 

Intervenções drásticas (como a imposição de isolamento rigoroso) até 25 dias depois da primeira morte confirmada foram capazes de impedir até 80% de novas mortes em um país. Se a decisão demora 35 dias, a eficiência cai para 50%.

 

Já com intervenções brandas (como o isolamento apenas de casos suspeitos) até 35 dias, a probabilidade de prevenir novas mortes é de apenas 10%. Em outras palavras, quanto mais um governo demora para agir, maior é o número de óbitos.

 

Liderado pelo físico Giovani Vasconcelos, do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR), os estudos foram pré-publicados na nota técnica Combate ao Coronavírus, no site medRvix e na biblioteca eletrônica Scielo.

 

A partir de análise de dados estatísticos, os autores traçaram um modelo matemático para medir o impacto da omissão (falta de intervenções e políticas públicas) na escala de mortes. "Governos devem agir logo, pois a 'janela' de oportunidade para conter o avanço do vírus é muito estreita. Não dá para esperar", diz Vasconcelos.

 

Uma das publicações focou no caso "fora da curva" da Alemanha, que registrou uma taxa de mortalidade muito menor que as de vizinhos europeus como Itália e França.

 

Além de Vasconcelos, os estudos são assinados por Gerson Duarte-Filho e Francisco Almeida (UFS), Antônio Macêdo e Raydonal Ospina (UFPE), Inês Souza (3Hippos Consultoria de Dados) e, no caso alemão, Christian Holm, da Universidade de Stuttgart.

 

A pedido da BBC News Brasil, os autores aplicaram o modelo matemático para analisar casos na Ásia, na Europa e nas Américas — entre eles, China (primeiro epicentro de covid-19), Coreia do Sul, Japão, Alemanha, Reino Unido, Suécia, Suíça, Brasil e Estados Unidos (atual epicentro).

Curvas de fatalidade

Inspirada em um modelo matemático conhecido como "fórmula de Richards" (equação elaborada pelo cientista britânico F.J. Richards em 1959), a proposta para analisar as curvas de fatalidade de covid-19 considera duas variáveis principais: primeiro, a taxa de crescimento exponencial que é identificada no início do surto (a escalada acelerada de mortes ao longo do tempo); segundo, a tendência de controle do vírus, que indica a desaceleração do contágio, rumo à estabilização e ausência de novas mortes (o "platô").


(foto: BBC)
(foto: BBC)

Os autores escolheram analisar números de mortes monitorados pela Universidade Johns Hopkins por considerá-los mais confiáveis - e não o número de casos confirmados, pois há muitos casos assintomáticos e as políticas para realizar testes variam muito de país para país (alguns só pedem exames para casos graves, por exemplo).

 

Segundo dados de 4 de maio da Universidade Johns Hopkins, os dez países com mais mortes são Estados Unidos (68,2 mil), Itália (28,8 mil), Reino Unido (28,4 mil), Espanha (25,2 mil), França (24,8 mil), Bélgica (7,8 mil), Brasil (7 mil), Alemanha (6,8 mil), Irã (6,2 mil) e Holanda (5 mil). Os cientistas foram observando como o número de mortes é diferente antes e depois de intervenções feitas pelos governos.

"O que os dados mostram é que a inércia, a estratégia de 'não fazer nada' ou fazer o mínimo e esperar o vírus passar, tem um custo humano muito alto", diz Vasconcelos.


(foto: BBC)
(foto: BBC)

"Intervenções não farmacológicas contribuem para controlar a escalada de mortes, mas descobrimos que um fator é fundamental: o tempo. Isto é, a eficácia depende do momento em que as ações foram adotadas. Países que demoraram para intervir agora estão precisando correr atrás do prejuízo. Países que adotaram medidas drásticas logo no início estão tendo melhores resultados."

 

Intervenções não farmacológicas são as diretrizes possíveis sem vacina e sem medicamento cientificamente comprovado para o tratamento da covid-19.

 

Incluem realização de testes massivos, medidas de mitigação (mais brandas, pensadas para achatar a curva de contágio, como isolamento social, fechamento temporário de escolas e centros de comércio, "contact tracing", processo de identificação de quem pode ter tido contato com indivíduos infectados como fez a Coreia do Sul, e "cluster approach", que tenta rastrear focos de infecção como foi feito no Japão) e medidas de supressão (mais rigorosas, pensadas para frear drasticamente o contágio, como "lockdown", confinamento obrigatório e paralisação radical de atividades).

 

O atraso nas ações pode se dar tanto por falta de informações precisas sobre o novo coronavírus quanto por impasses políticos na tomada de decisões e escolha de estratégias para conter a pandemia.

Ásia

A epidemia ainda está em evolução, mas os autores já conseguem visualizar tendências.

 

Na China, primeiro epicentro do vírus Sars-Cov-2, a longa quarentena de mais de 70 dias permitiu controlar a escalada de óbitos. A partir de abril, a cidade de Wuhan passou a flexibilizar regras após registrar dias sem novas infecções e mortes.

 

A Coreia do Sul, que se tornou modelo mundial por realizar milhares de testes por dia, já está mais perto do "platô", que é a estabilização e o controle do número de mortes.


(foto: BBC)
(foto: BBC)

A Índia, que se destacou pela baixa taxa de mortalidade, também apostou na política de testes e no isolamento. Diante da disseminação do vírus na Ásia, alguns países decidiram não correr riscos e adotaram medidas drásticas logo no início.

 

"Por exemplo, em 24 de março, a Índia, um país com 1,3 bilhão de habitantes, impôs uma quarentena obrigatória por três semanas, embora na época houvesse menos de 500 casos confirmados e apenas 9 mortes pela covid-19", diz o estudo.

 

O Japão, por outro lado, é um dos países criticados pela ausência de testes e pela demora para tomar medidas mais duras no combate ao vírus. "A estratégia japonesa funcionou no início, mas agora a taxa de mortalidade está crescendo consideravelmente. O gráfico sinaliza uma tendência de crescimento exponencial", interpreta Vasconcelos. "Talvez pela experiência de epidemias anteriores, os países asiáticos agiram rapidamente, menos o Japão."

 

Segundo o painel de especialistas do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão, mais de 400 mil pessoas podem morrer caso não sejam tomadas medidas mais drásticas no país.

 

Em 15 de abril, Hiroshi Nishiura, professor da Universidade de Hokkaido e integrante do painel, expôs estudos indicando que a inércia vai fazer o número de pacientes em estado grave atingir o pico cerca de 60 dias após o início da expansão das infecções.

Europa

Entre os países europeus analisados, as curvas de Espanha, Itália e França seguem tendência semelhante. Os pontos "fora da curva" são Alemanha, Suíça e Suécia.

 

Segundo o estudo, países que atrasaram a implementação de testes massivos (Itália, por exemplo) ou não conseguiram implementá-los inteiramente (França e Reino Unido, entre outros) têm taxas de mortalidade mais altas que a Alemanha, que adotou uma política de testagem massiva muito cedo. Na mesma linha, países que seguiram o modelo alemão também têm se destacado positivamente, como Portugal.

"Sintonizada com o que estava acontecendo na Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan, a Alemanha agiu rápido, permitiu que o país tomasse medidas mais específicas e eficazes", analisa Vasconcelos.


(foto: BBC)
(foto: BBC)

De acordo com o autor, Suíça e Suécia exemplificam tendências opostas. "A Suíça demorou para implementar uma política de testagem massiva, mas depois mudou a rota: depois da alta de mortes, passou a investir pesado em testes, o que fez a curva mudar. A Suécia, por outro lado, não fez isolamento e preferiu apostar na tal 'imunidade de rebanho'. A estratégia não está funcionando, pois a taxa de mortalidade é elevada, principalmente se comparada aos vizinhos nórdicos, como Noruega e Dinamarca."

 

No Reino Unido, a estratégia mudou radicalmente graças ao estudo matemático de Neil Fergurson, do Imperial College de Londres, que destacou que mais de 250 mil pessoas poderiam morrer se não fossem adotadas ações diferentes: antes, o governo britânico focou nas ações de mitigação e apostou na ideia de "imunização de rebanho"; depois, passou a priorizar políticas de supressão, como foi feito na China.

Américas

Atual epicentro da pandemia, os Estados Unidos também se destacam pela demora para agir e os dados indicam um crescimento exponencial no número de mortes.


(foto: BBC)
(foto: BBC)

Entretanto, pondera o físico, é possível notar diferenças dentro do próprio país ao comparar estados como Califórnia e Nova York.

 

Ambos tinham número similar de casos confirmados no início, mas os índices de mortes mudaram bruscamente: o governo californiano determinou medidas rigorosas de distanciamento social imediatamente, em 16 de março; o governo nova-iorquino agiu quatro dias depois, em 20 de março. Hoje (5 de maio), a Califórnia contabiliza 2.172 mortes; Nova York, 18.909. "Isso mostra que a 'janela' de tempo para agir é muito estreita. Atrasar dias pode derrubar a eficiência drasticamente", diz.

 

Países latino-americanos como México e Peru também estão com índices altos de mortes (respectivamente 2.154 e 1.286, segundo dados de 3 de maio), enquanto Argentina (246 mortes) e Costa Rica (6 mortes) têm tido mais sucesso no controle do vírus.

 

O Brasil, por sua vez, está patinando. A curva de fatalidade é ascendente, mas indica um crescimento subexponencial, isto é, mais lento.

 

"Esta é a boa notícia: as mortes estão evoluindo em ritmo matematicamente mais lento se comparado aos Estados Unidos, o que quer dizer que medidas de mitigação, como o isolamento, estão funcionando. A má notícia é que não há tendência decrescente, a curva ainda aponta para o alto."

Agir agora

Embora preliminares, os estudos desenvolvidos por pesquisadores brasileiros trazem conclusões que vão ao encontro de outros modelos epidemiológicos, avalia o economista e cientista de dados Thomas V. Conti, professor do Insper, comparando, como exemplo, Brasil e Vietnã.

 

"A ação rápida seria essencial para tentar domar o contágio pelo coronavírus antes que o problema se torne grande demais para as capacidades de técnicas e humanas do país darem conta", diz.

 

"Apesar de ser um país mais pobre que o Brasil, o Vietnã agiu de forma preventiva, informaram corretamente a população, disponibilizaram testes e rastrearam contatos para a quarentena. A epidemia está contida e até agora sem nenhuma morte."


Toda crise, diz a analista Gabriela Lotta, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), demanda respostas rápidas dos governos(foto: Getty Images)
Toda crise, diz a analista Gabriela Lotta, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), demanda respostas rápidas dos governos (foto: Getty Images)

Toda crise, acrescenta a analista Gabriela Lotta, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), demanda respostas rápidas dos governos.

 

"Isso é ainda mais evidente em uma crise sanitária, para a qual a demora na resposta pode significar morte. No Brasil, o problema é que a administração pública e todo aparato institucional e jurídico não estão preparados para atuar em um contexto de emergências. Os processos são guiados por princípios que, em geral, demandam muito tempo de análise e processamento", analisa.

 

Ela cita como exemplos de lentidão a aquisição de equipamentos de proteção individual (como máscaras) para profissionais de saúde, a compra de respiradores e a distribuição do auxílio emergencial de R$ 600.

 

"Embora formuladas no 'alto escalão', políticas públicas são sempre implementadas por agentes no 'nível da rua', na ponta. Emergências temporais impostas por uma pandemia não permitem esperar que o alto escalão decida e os demais implementem. Também não permitem decisões erradas e experimentais", critica Lotta, referindo-se também ao embate entre as orientações do governo federal e dos governadores dos Estados.

 

Isso vale para casos de médicos que precisam decidir qual paciente vai para a UTI ou assistentes sociais que precisam determinar quem tem leito no centro de acolhimento ou não.

 

"Pandemia não dá espaço para decisões centralizadas e desconectadas. Isso gera dois aprendizados importantes: primeiro, é preciso envolver quem está na linha de frente em processos decisórios; segundo, profissionais que estão na ponta precisam de suporte, informações e equipamentos para conseguir trabalhar com mais segurança", pondera.

 

Independentemente da dimensão do país ou da estratégia escolhida a princípio, Vasconcelos destaca que o diferencial é a agilidade das ações.

 

"Há diferentes estratégias elegidas por país, que podem fazer sentido para cada realidade. Mas não importa a latitude ou a temperatura, o que importa é o tempo, a rapidez com que tais ações são postas em prática. O estudo mostra matematicamente que, qualquer que seja a situação, quanto mais cedo a ação, melhor. Países que perderam a primeira 'janela' de oportunidade não podem demorar mais. Antes tarde do que nunca."


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