Os setores conservadores "querem votar contra Petro, por isso votam ao meu favor. Tampouco posso impedi-los", disse Hernández nesta segunda-feira, em transmissão no Facebook. "Zero alianças. Jurei ser independente e seguimos independentes", ressaltou ontem esse engenheiro civil, 77, que foi a grande surpresa eleitoral deste domingo.
Petro venceu com 40,3% dos votos Hernández (28,2%), um empresário do ramo imobiliário que, de forma surpreendente, tirou do caminho Federico Gutiérrez (23,9%), candidato da coalizão de direita ligada ao governismo.
Após a divulgação do resultado, Gutiérrez anunciou seu apoio ao candidato independente, que na campanha o chamou de "farsante" e "dissimulado". Ao mesmo tempo, convidou seus 5 milhões de eleitores a apoiar o engenheiro, o última barreira diante do avanço inédito da esquerda, liderada por Petro, um senador e ex-guerrilheiro (62) que propõe um ambicioso plano de reformas que espanta os setores tradicionais.
Hernández disse que conversou com Gutiérrez para agradecer por seu apoio: "Tive que telefonar para ele e dizer que agradeço por esse gesto, nada mais. Isso é mera educação", disse o milionário em vídeo assistido ao vivo por cerca de 85 mil pessoas.
Representantes do Centro Democrático, partido no poder, alinharam-se atrás de Hernández, que também acena com um discurso antissistema que tem como eixo o combate à corrupção, apesar de ter sido denunciado pelo Ministério Público por um contrato irregular quando foi prefeito da cidade de Bucaramanga (2016-2019).
"O país precisa de mudanças, não o suicídio que Petro oferece, mas sim autoridade, ordem e a prosperidade que oferece um empresário como o @ingrodolfohdez", expressou no Twitter a influente senadora Mari Fernanda Cabal. "Recebo os votos, mas não mudo o discurso. Nunca irei mudar", respondeu o milionário.
- Voto dividido -
Embora o adversário de Petro também seja anti-establishment, as forças tradicionais aderiram à sua candidatura em uma frente "antiPetro", que, teoricamente, tem mais chances de crescer do que a liderada pelo esquerdista. As abstenções representam 45% do eleitorado.
Petro obteve 8,5 milhões de votos contra 5,9 milhões de Hernández. O senador buscará se aproximar da coligação de centro, que obteve 4,2% dos votos e se recusou a assumir uma posição comum no segundo turno.
Hernández estabeleceu a meta de alcançar "12 milhões de votos, para ter um mandato claro, que deixe completamente de fora essas forças políticas que nos arruinam há 50 anos". Para consegui-lo, serão decisivos os apoiadores de Gutiérrez e do "uribismo", corrente liderada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, que caiu em desgraça por seus problemas com a justiça, mas que permanece como uma figura influente
Vai ser "mais difícil para Petro. De certo modo, divide-se o voto anti-establishment e populista, e se estabelece um limite quanto à probabilidade de que Petro" seja presidente, disse à AFP Elizabeth Dickinson, analista do International Crisis Group.
Tanto Petro quanto Hernández conseguiram capitalizar o descontentamento expresso nos maciços e duramente reprimidos protestos de 2019 e 2021, e o desprestígio do governo Duque pela gestão da crise econômica que seguiu a pandemia.
Qualquer que seja o vencedor, ele terá que governar um país empobrecido (39%), com um desemprego urbano de 12,7% e onde pelo menos 43,5% dos 50 milhões de colombianos estão na informalidade.
- Estratégias em jogo -
Durante a campanha para o primeiro turno, Petro se concentrou em atacar exclusivamente Gutiérrez em debates televisionados e em praça pública. Com os resultados de domingo, deverá mudar de estratégia para contrabalançar o fenômeno Hernández. Uma fonte de sua campanha admitiu que o até ontem 'outsider' é um "adversário incômodo".
Sem um partido que o apoie, nem ideologia clara, o empresário conseguiu entrar na disputa graças à propaganda no "TikTok". Nunca foi visto no palanque e perto do fim da contenda, decidiu não participar dos debates com os outros candidatos.
Para o analista Alejo Vargas, Petro "está neste momento na corda bamba". Agora, terá que "modificar suas propostas, seu discurso" e "se aproximar dos líderes políticos" como os liberais, com os quais já flertou há meses.
Na corrida contra o tempo para conseguir cerca de dois milhões de votos, Petro dirigiu-se em tom conciliador aos empresários "temerosos" de sua vitória: "chegou a hora de escolher: eu proponho ao empresariado colombiano justiça social e estabilidade econômica".
Em 2018, Petro perdeu o segundo turno para o conservador Iván Duque por uma diferença de 2,3 milhões de votos e sem chegar a um consenso com as forças de centro.
Twitter