López Obrador negou a responsabilidade de seu governo no mesmo dia em que a Anistia Internacional denunciou que a impunidade prevalece no México nos mais de 97.000 casos de desaparecimentos registrados desde 1964.
"Todas as informações estão sendo entregues. Os arquivos foram abertos como nunca antes e absolutamente nada está sendo escondido", disse o presidente sobre as investigações do desaparecimento dos estudantes de Ayotzinapa.
Uma comissão de especialistas acusou ontem autoridades mexicanas de ocultarem informações importantes a partir do dia em que ocorreram os fatos, antes de manifestações estudantis no município de Iguala (estado de Guerrero, sul).
Segundo o GIEI, algumas instituições - que não identificou - ainda estão relutantes em entregar as informações necessárias para o avanço das investigações, inclusive dados de inteligência.
López Obrador, que deu novo impulso às investigações quando assumiu o cargo em 2018, destacou que seu governo está empenhado em "dar a conhecer o que aconteceu com o desaparecimento dos jovens de Ayotzinapa".
Mas o GIEI, criado em 2014 por um acordo entre a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e o Estado Mexicano, disse que houve um "fingimento" por parte de algumas autoridades para fazer crer que cumprem a instrução do presidente.
- Militares investigados -
Os 43 jovens, estudantes de Ayotzinapa, desapareceram entre a noite de 26 e a manhã de 27 de setembro de 2014, quando se dirigiam a Iguala para pegar ônibus que pretendiam usar em manifestações, em um dos piores casos de violação dos direitos humanos no México.
Autoridades suspeitam de que a polícia local, em conluio com o cartel de drogas Guerreros Unidos, esteja envolvida no desaparecimento. Parentes das vítimas também acusam o Exército.
"Este governo seguiu o mesmo caminho, não houve nenhuma mudança. Durante esse tempo, as Forças Armadas agiram de forma suja", declarou hoje Vidulfo Rosales, advogado dos familirares.
Em seu terceiro relatório sobre o caso, o GIEI também denunciou que membros da Marinha manipularam provas durante as primeiras investigações do caso no lixão de Cocula, onde foram encontrados restos humanos, incluindo os dos únicos três estudantes identificados até agora.
Em resposta, López Obrador acrescentou que os líderes da Marinha que participaram dessa operação serão investigados. "A instrução foi dada para investigar os chefes da Marinha que participaram da operação e todos os que participaram já prestaram depoimento perante a acusação", disse.
O advogado das famílias manifestou que essa investigação deve ser "contra toda a cadeia de comando que trabalhou nessa armação".
Segundo a chamada "verdade histórica" do governo do então presidente Enrique Peña Nieto (2012-2018), os jovens foram detidos e entregues por policiais locais a narcotraficantes do cartel Guerreros Unidos, ao serem confundidos com integrantes de uma gangue inimiga.
Após serem baleados, seus restos foram incinerados e colocados no lixão, segundo essa tese, Essa parte da narrativa é rechaçada por familiares das vítimas, o governo atual, o GIEI e o Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
- Crise de desaparecidos -
Em seu relatório anual sobre a situação dos direitos humanos no México, a Anistia Internacional denuncia que, apenas em 2021, houve 7.000 desaparecimentos no México. O país está envolvido em uma espiral de violência desde 2006, quando foi implantada uma operação militar antidrogas que deixou cerca de 340.000 mortos.
"A impunidade nesta questão prevaleceu; apenas 35 condenações foram proferidas pelo crime de desaparecimento forçado" dos 97.000 casos, apontou o relatório.
A organização detalhou que várias pessoas que procuravam seus parentes desaparecidos morreram violentamente, "mas no fim do ano, ninguém havia sido processado por essas mortes".
Apenas com relação a Ayotzinapa, 20 pessoas que poderiam ter informações sobre o caso morreram de forma violenta, segundo o GIEI.
A Anistia Internacional também indicou que existem atualmente 52.000 corpos não identificados, segundo dados oficiais, "a maioria (...) em valas comuns". O governo, que atribui a maior parte dos homicídios a confrontos entre criminosos, estima esses casos em 37 mil.