Jornal Estado de Minas

Guerra na Europa

Rússia admite uso de mísseis hipersônicos contra alvos ucranianos



Kiev, Ucrânia – A Rússia intensificou ontem sua ofensiva na Ucrânia, anunciando o uso, pela primeira vez, de mísseis hipersônicos, enquanto o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, declarou que era hora de Moscou aceitar em “conversar” seriamente sobre a paz. O ministério da Defesa russo garantiu que no dia anterior havia usado mísseis hipersônicos Kinjal para destruir um depósito de armas subterrâneo no oeste da Ucrânia, algo sem precedentes, segundo a agência estatal Ria Novosti. Esse tipo de míssil desafia todos os sistemas de defesa antiaérea, segundo Moscou.



A Rússia nunca havia informado sobre o uso desse míssil balístico em nenhum dos dois conflitos de que participa, Ucrânia e Síria. Os hipersônicos são armamentos mais precisos e eficazes. Viajam a 6.000km/h e atingem alvos a 2.000km/h de distância, velocidade até mais de cinco vezes superior à velocidade do som. Ao atingir 1.200km/h, o alvo em alta velocidade produz uma onda de som, denominada estrondo sônico.

O presidente Zelensky, por sua vez, considerou que “as negociações sobre paz e segurança na Ucrânia são a única oportunidade que a Rússia tem de minimizar os danos causados por seus próprios erros”. “É hora de nos encontrarmos. É hora de conversar. É hora de restaurar a integridade territorial e a justiça para a Ucrânia”, reiterou o chefe de Estado em vídeo filmado à noite em uma rua deserta de Kiev e postado no Facebook. “Caso contrário, as perdas para a Rússia serão tais que levará várias gerações para se recuperar”, emendou.

Desde o início da invasão russa da Ucrânia, em 24 de fevereiro, Kiev e Moscou realizaram várias rodadas de negociações, pessoalmente e por videoconferência. A quarta começou na segunda-feira.



O chefe da delegação russa falou, na noite de sexta-feira, sobre uma “conciliação” de posições sobre a questão de um status neutro para a Ucrânia – semelhante ao da Suécia e da Áustria – e avanços na desmilitarização do país. No entanto, ele também disse que há “nuances” para discutir sobre as “garantias de segurança” exigidas pela Ucrânia.

Mas um membro da delegação ucraniana, o conselheiro presidencial Mikhailo Podoliak, alertou que as “declarações do lado russo são apenas o começo de suas exigências”. “Nossa posição não mudou: cessar-fogo, retirada das tropas (russas) e fortes garantias de segurança com fórmulas concretas”, tuitou.

O Ministério da Defesa russo afirmou que destruiu centros de rádio e inteligência perto de Odessa, em Velikodolinske e Veliki Dalnik. A Ucrânia, por sua vez, admitiu nesse sábado que perdeu “temporariamente” o acesso ao Mar de Azov, apesar de a Rússia controlar de fato toda a costa desde o início de março e o cerco da cidade portuária estratégica de Mariupol. Além disso, o Exército russo afirmou que conseguiu entrar e lutar no Centro da cidade ao lado de tropas da “república” separatista de Donetsk.



Segundo o assessor do Ministério do Interior ucraniano, Vadim Denisenko, citado pela agência Interfax-Ucrânia, a situação é “catastrófica” em Mariupol. “A luta acontece pela Azovstal”, uma grande siderúrgica nos arredores da cidade. “Uma das maiores siderúrgicas da Europa está sendo arruinada de fato”, lamentou.

As autoridades ucranianas acusaram a Força Aérea russa de bombardear “deliberadamente” o teatro de Mariupol, o que a Rússia negou. Em um abrigo antiaéreo sob esse edifício havia “mais de mil” pessoas, principalmente “mulheres, crianças e idosos”, segundo a prefeitura deste porto do Mar de Azov. Zelensky disse que mais de 130 sobreviventes foram retirados dos escombros. “Infelizmente, alguns sofreram ferimentos graves. Mas, neste momento, não temos informações sobre possíveis mortes”, declarou, explicando que “as operações de resgate continuam”.

“INFERNO” As famílias que conseguiram fugir da cidade contaram que os cadáveres ficavam dias nas ruas e que à noite se refugiavam nos porões, com temperaturas abaixo de zero, fome e sede. “Não é mais Mariupol, é o inferno”, disse Tamara Kavunenko, de 58 anos. “As ruas estão cheias de cadáveres de civis”, acrescentou.



Segundo Zelensky, graças aos corredores humanitários estabelecidos no país, mais de 180 mil ucranianos conseguiram escapar dos combates, incluindo mais de 9 mil pessoas de Mariupol. “Mas os ocupantes continuam a bloquear a ajuda humanitária, especialmente em áreas sensíveis. É uma tática bem conhecida. (...) É um crime de guerra”, alertou.

De acordo com o Ministério Público Federal da Ucrânia, uma jornalista ucraniana da emissora Hromadske foi sequestrada pelas forças russas em Berdyansk, e está “desaparecida”. Desde 24 de fevereiro, mais de 3,2 milhões de ucranianos partiram para o exílio, quase dois terços deles para a Polônia, às vezes apenas uma etapa antes de continuar seu êxodo.

Segundo contagem de 18 de março do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), ao menos 816 civis morreram no país e mais de 1.333 ficaram feridos. O organismo acredita, porém, que o número real seja superior.





EMERGÊNCIA As necessidades humanitárias são “cada vez mais urgentes”, com mais de 200 mil pessoas sem água na região de Donetsk e “grave escassez” de alimentos, água e remédios, disse o porta-voz do ACNUR, Matthew Saltmarsh. O prefeito de Mikolaiv (sul) indicou no Facebook que várias cidades vizinhas já estavam ocupadas pelos russos e que sua cidade havia sido fortemente atacada. “O dia foi difícil”, lamentou Oleksandr Senkevich. Segundo a mídia ucraniana, o Exército russo fez ataque em grande escala, matando pelo menos 40 soldados em seu quartel-general. Até agora, as autoridades ucranianas não ofereceram um balanço global de mortes no país

Os bombardeios continuaram em Kiev e Kharkiv (noroeste), a segunda maior cidade do país, onde pelo menos 500 pessoas foram mortas desde o início da guerra. A capital foi esvaziada de pelo menos metade de seus 3,5 milhões de habitantes. De acordo com a prefeitura, 222 pessoas morreram, incluindo 60 civis. Quanto às baixas militares, Zelensky citou a morte de “cerca de 1.300” militares ucranianos em 12 de março, enquanto Moscou reportou quase 500 mortos em 2 de março.

Kiev pede à China para condenar “barbárie”


   Kiev, Ucrânia – As autoridades ucranianas pediram ontem que a China se junte aos países ocidentais e “condene a barbárie russa” na Ucrânia. “A China pode ser um elemento importante do sistema de segurança mundial se tomar a decisão certa de apoiar a coalizão de países civilizados e condenar a barbárie russa”, afirmou no Twitter Mikhailo Podoliak, assessor da Presidência e membro da delegação que negocia com a Rússia.

A China até agora se recusou a condenar a invasão da Ucrânia. Na sexta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, alertou seu colega chinês Xi Jinping para “consequências”, caso apoie a invasão russa de alguma forma, sem dar detalhes. Xi garantiu que “a crise ucraniana não é algo que eles gostariam”, mas pediu aos EUA e à Otan que mantenham um “diálogo” com a Rússia sobre as “preocupações de segurança” de Moscou.



O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, alertou ontem que seria um “erro” retornar às relações normais com a Rússia, mesmo que a invasão da Ucrânia cesse. “Tentar normalizar as relações com (o presidente russo Vladimir) Putin depois disso, como fizemos em 2014, seria cometer o mesmo erro novamente”, disse Johnson, referindo-se à anexação da península ucraniana da Crimeia.

Em discurso no congresso de seu partido em Blackpool (norte da Inglaterra), na presença do embaixador ucraniano em Londres Vadim Pristaiko, Boris Johnson declarou que havia chegado a hora de “escolher entre a liberdade e a opressão”. O primeiro-ministro considerou que aqueles que “acham que seria melhor se acostumar com a tirania” estão “profundamente enganados”. Horas antes, a secretária de Relações Exteriores britânica, Liz Truss, disse temer que as negociações para uma trégua entre a Rússia e a Ucrânia fossem apenas uma “cortina de fumaça” usada pelo Kremlin para intensificar sua ofensiva

Em entrevista ao jornal The Times, Truss disse estar “muito cética” sobre essas negociações e considerou que a Rússia poderia estar usando-as “para distrair”. “A invasão deles não está indo como planejado. Não vemos nenhuma grande retirada das tropas russas ou nenhuma proposta séria na mesa. Os russos mentiram e continuam mentindo”, disse.