Jornal Estado de Minas

GENEBRA

Suíços decidem limitar quase por completo publicidade de cigarro

Os suíços, que costumam defender firmemente os interesses econômicos do país, concordaram, em uma consulta realizada neste domingo (13), em proibir a publicidade de cigarro em lugares de acesso de crianças e adolescentes.



De acordo com a Chancelaria federal o resultado foi aprovado por uma maioria, em 16 dos 26 cantões, com quase 57% dos votos.

"Estamos extremamente felizes", disse à AFP Stefanie De Borba, da Liga Suíça contra o Câncer, com a publicação dos primeiros resultados.

"As pessoas entenderam que a saúde é mais importante do que os interesses econômicos", completou.

Fumar dá uma "ilusão de liberdade", destacou o Dr. Jean-Paul Humair, porta-voz do "Sim".

"Nos demos conta da importância de proteger crianças e adolescentes do tabagismo e de que a publicidade é uma ferramenta muito importante para atrair novos consumidores, disse ele à AFP.

Até então, a Suíça contava com uma legislação muito permissiva em relação à publicidade do cigarro, sobretudo, graças ao forte lobby das maiores empresas mundiais do setor. Uma em cada quatro pessoas é fumante no país.

Em nível nacional, apenas anúncios de rádio e televisão e mensagens dirigidas especificamente para menores são proibidos. E, embora alguns cantões já tivessem endurecido suas normas e uma nova lei a esse respeito vá entrar em vigor em 2023, os grupos antitabaco pediam medidas mais decisivas para proteger crianças e jovens. Daí o lançamento desta iniciativa popular.



- 'Ditadura do politicamente correto'

Assim, prevê-se a proibição total da publicidade de cigarro em lugares de acesso de crianças e adolescentes, ou seja, na imprensa, em cartazes, na internet, no cinema e durante as manifestações. Essas mesmas regras se aplicam ao cigarro eletrônico.

A publicidade dirigida apenas para adultos, por meio de e-mails, por exemplo, será permitida.

Os opositores da iniciativa, entre eles o governo federal e o Parlamento, consideram que ela vai longe demais.

"Em nome da proteção da infância, os adultos são infantilizados", reclamou Patrick Eperon, porta-voz da campanha pelo "Não" e membro da organização Centro Patronal.

Este é o mesmo argumento da Philip Morris International (PMI), gigante global do setor, que, assim como a British American Tobacco e a Japan Tobacco, tem sede na Suíça. Para a PMI, trata-se de uma medida "extrema".

"A liberdade individual está em uma ladeira escorregadia", disse um porta-voz da PMI à AFP neste domingo, pedindo às autoridades que garantam que a publicidade dirigida a adultos continue sendo permitida.



O ministro suíço da Saúde, Alain Berset, anunciou que o Parlamento vai, agora, elaborar uma lei que implementa esta iniciativa. Ela não entrará em vigor este ano.

Outros denunciaram as tendências "higienistas" que invadem a sociedade.

"Hoje estamos falando de cigarro. Depois, será o álcool, ou a carne. Me irrita viver em uma sociedade, onde se quer essa ditadura politicamente correta, na qual tudo deve ser regulado", reagiu Philippe Bauer, membro da Câmara Alta suíça pelo Partido Liberal-Radical, nos estúdios do canal público de televisão RTS.

O país paga um preço alto pelo tabagismo, com 9.500 mortes anuais vinculadas sobre uma população de 8,6 milhões de habitantes. A isso, somam-se cerca de 400.000 pessoas com doenças crônicas ligadas ao tabagismo, segundo o dr. Jean-Paul Humair, porta-voz do "Sim".

- Primatas sem direitos

Também de acordo com os primeiros resultados, com 79% dos votos, os suíços se recusaram a proibir testes de laboratório com animais e humanos. A população já rejeitou três vezes uma iniciativa sobre o tema: em 1985 (70%), 1992 (56%) e 1993 (72%).



Além disso, os eleitores registrados no cantão da cidade da Basileia, muito conhecido por seu zoológico, assim como por seus grupos farmacêuticos, rejeitaram, com 75% dos votos, uma proposta destinada a garantir direitos fundamentais aos primatas não humanos.

Nenhum partido apoiou a proposta, porque, segundo o governo, se aprovada, teria graves consequências econômicas e sanitárias na confederação, cujo setor químico-farmacêutico representa mais da metade de suas exportações.

As autoridades alegam, porém, que a legislação suíça está entre as mais rigorosas do mundo quando se trata de testes em animais.

Em nível federal, de acordo com os primeiros resultados, a população suíça também rejeitou, por mais de 53%, uma lei que prevê um apoio adicional aos veículos de comunicação, devido à queda de sua receita com publicidade.

O nível de participação deste domingo foi de 44% das pessoas habilitadas a votar.

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