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Estado de Minas BERLIM

Filha de desaparecido espera 1º veredicto no mundo por tortura na Síria


10/01/2022 14:01

Em um barulhento café em Berlim, Wafa Mustafa, uma síria de 31 anos, dispõe fotos sobre a mesa. Ela mostra seu pai, um opositor do regime de Bashar al-Assad que foi preso em 2013 e está desaparecido desde então.

À espera de que a Justiça alemã dê, nesta quinta-feira (13), seu veredicto no primeiro julgamento do mundo por violações de direitos humanos atribuídas ao poder sírio, esta ativista também quer descobrir o paradeiro de seu pai, e de todos os desaparecidos, triturados pela máquina de repressão síria desde 2011.

O julgamento em Koblenz (oeste) de um ex-coronel do serviço secreto de Assad, acusado de crimes contra a humanidade, é uma "primeira etapa importante" na busca por justiça na Síria, diz Wafa Mustafa à AFP.

"O mais importante, porém, é não considerar as prisões arbitrárias como algo que pertence ao passado". "Devemos salvar aqueles que ainda podem ser salvos" afirma a jovem ativista.

As prisões arbitrárias e a tortura nos presídios do regime estão sendo amplamente documentadas por diversas ONGs. Dezenas de milhares de fotos de corpos destruídos por agressões e tortura foram vazadas pelo ex-fotógrafo militar "César".

"Ninguém pode imaginar a magnitude do horror e da brutalidade que sofremos e continuamos vendo" conta Wafa Mustafa, que foi convidada a dar seu depoimento na ONU no ano passado.

- Desaparecidos -

Em frente ao tribunal alemão, onde acontecem as audiências do julgamento de Anwar Raslan, Wafa expôs as fotos de cerca de cem desaparecidos na Síria, confiadas por famílias no exílio que ainda estão à procura de seus parentes.

Segundo estimativas feitas por diversas ONGs, cerca 100.000 pessoas desapareceram desde o início da revolta popular em 2011, vítimas da repressão do regime ou sequestradas pelas facções que lutam contra Assad.

Wafa Mustafa não teve mais notícias de seu pai desde que homens armados o levaram de um apartamento em julho de 2013, na capital Damasco. Ele havia participado de manifestações contra Assad e sua filha está convencida de que foi detido por seu ativismo político.

"É uma das coisas mais difíceis quando desaparece um ente querido [...] O medo e o desespero passam a lhe dominar", acrescentou a jovem, que vive na Alemanha há seis anos.

- Carta ao acusado -

Em Koblenz, Wafa Mustafa enviou uma carta ao acusado através de seu advogado. Saberia Anwar Raslan alguma coisa sobre o pai da jovem, já que foi responsável por um centro secreto de detenção? Raslan respondeu afirmando que não tinha informações.

Para a jovem ativista, assistir às audiências tem sido um "enorme desafio pessoal". Cercado de advogados e intérpretes, Anwar Raslan, denunciado por ordenar atos de tortura, tem direito a um julgamento justo, enquanto muitos outros sírios apodrecem nas celas de autênticas masmorras.

Contudo, Wafa não deseja vingança, porque tem uma clara convicção. "A justiça para a Síria não passa pela revanche", frisou. "Por isso lutamos há dez anos: liberdade, justiça e Estado de Direito."

Em 19 de janeiro, outro processo terá início na Alemanha sobre crimes contra a humanidade, atribuídos a um médico em Homs em 2012.

Wafa Mustafa ressalta que seguirá sua luta. "A memória de meu pai e da Síria são as minhas armas". Nas redes sociais, publica minuciosamente o número de dias transcorridos desde que aqueles homens levaram seu pai: 3.100.


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