Jornal Estado de Minas

PARIS

Médicos franceses expõem questões éticas sobre não vacinados com covid

Dar prioridade aos vacinados contra covid-19 no acesso aos cuidados médicos "não é possível", mas um grupo de médicos na França expressa seu cansaço e a "complexidade ética" com o afluxo de pessoas não vacinadas aos serviços de saúde.



Esta é uma questão que ressoa como um grito de alerta, mas que também levanta uma questão ética que foi publicada em uma coluna na edição de quarta-feira (22) do jornal Le Monde.

Iniciada por um coletivo de cerca de 15 profissionais de saúde de Nova-Aquitânia, no sudoeste da França, médicos em sua maioria, o texto traz a pergunta de um colega, "confrontado com o cancelamento de certas operações com a implementação do plano de emergência".

Ativado em várias regiões, devido ao coronavírus, o "plano de emergência" permite à França cancelar cirurgias e realocar pessoal para serviços de terapia intensiva.

"É normal privar os pacientes de leitos hospitalares, ou de cirurgia, mesmo não urgentes, para cuidar de pessoas que escolheram o risco de ter covid-19 grave, quando podiam tê-lo evitado?", questionou um médico, referindo-se aos não vacinados.

"De forma insidiosa, coloca-se uma questão do lado dos profissionais da saúde: a vacinação deve ser levada em consideração na hora de (estabelecer) prioridades?", destacam os signatários do artigo, lembrando que "a solução de não admitir no hospital pessoas que escolheram não se vacinar não é possível".



"Não se vacinar é arriscar a vida, arriscar a de outras pessoas, em especial a de pacientes com defesa imunológica debilitada e para os quais a vacinação é ineficaz, e também impede que certas pessoas, mais frágeis, tenham acesso aos cuidados, atrasam o atendimento de outras doenças", acrescenta o texto.

- "Exaustão" -

"Toda pessoa infectada pela covid deve poder receber atendimento médico eficaz, esteja vacinada, ou não", insistiu o Sindicato de Clínica Geral (SMG, na sigla em francês) em um comunicado divulgado na quarta-feira (22).

Ontem, o ministro da Saúde, Olivier Véran, lembrou que, nos serviços médicos, há duas categorias de pacientes: "uma pequena maioria em escala nacional de pacientes não vacinados" e "pessoas que são vacinadas, mas que são muito frágeis", como pessoas idosas, ou com doenças crônica.

A França conta, hoje, com cerca de cinco milhões de pessoas não vacinadas. Os motivos da rejeição ao imunizante são ideológicos, ligados ao medo das novas vacinas de RNA mensageiro, ou à falta de informação. Alguns dizem que aguardam o lançamento de uma vacina francesa.



Desde o início da campanha de vacinação na França, 52 milhões de pessoas receberam pelo menos uma dose, o correspondente a 78% da população total. Na quarta-feira, o governo estendeu a vacinação para crianças de 5 a 11 anos.

Ao mesmo tempo, a variante ômicron se expande rapidamente pelo país e pode se tornar dominante entre o Natal e o Ano Novo, segundo o governo.

"O médico, por sua vez, é, antes de tudo, um cidadão (vacinado), mergulhado em uma exaustão do trabalho, em um sistema de saúde em colapso", acrescentam os autores do artigo.

Para Didier Sicard, ex-presidente do Comitê Consultivo Nacional de Ética, os não vacinados "se tornam uma ameaça para o conjunto da população, ao impedir que pessoas com câncer possam receber atenção".

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