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Estado de Minas MÉXICO

'Fique no México': entre tacos e mariachis, haitianos tentam reconstruir suas vidas


02/12/2021 20:09

"Tem uma comida chamada tacos que eu gosto muito, e da música dos mariachis". Gerline Boyer, uma haitiana de 25 anos, tenta reconstruir sua vida no México como centenas de compatriotas que não conseguiram realizar seu sonho de chegar aos Estados Unidos.

Sua decisão de permanecer no México é reforçada com anúncios como a reativação do "Remain in Mexico" (Fique no México), um polêmico programa do governo americano pelo qual os migrantes devem esperar indefinidamente em território mexicano pela resposta aos seus pedidos de asilo no país vizinho.

No final de novembro, por ocasião do feriado nacional no Haiti, Gerline, que não pediu asilo nos Estados Unidos, e a incipiente comunidade haitiana se reuniram em uma noite fria de outono para dançar salsa e comer pratos típicos de seu país na Cidade do México, onde chegaram há três meses exaustos e com medo.

"Sinto-me feliz, sinto-me viva, muito emocionada", afirma Gerline à AFP após semanas de incerteza.

Penteada com tranças coloridas e vestida de amarelo, ela foi a chef encarregada do poul fri (frango frito), pikliz (salada de repolho picante), diri kole (arroz com feijão e coco) e outros pratos haitianos preparados para animar seus conterrâneos, mas também para compartilhar seu tempero e cultura com os mexicanos.

"Gosto de muitas coisas daqui do México", garante, sorrindo.

Son cubano anima a festa, enquanto Gerline lembra com surpresa o quão "amargurada e triste" ela estava quando chegou à enorme capital mexicana em setembro passado.

"Eu não tinha dinheiro, não tinha como alugar um quarto e também estava muito cansada", lembra ela sobre seus primeiros dias depois de caminhar com seu companheiro e outros haitianos da América Central até o território mexicano.

Os pedidos de asilo no México por haitianos aumentaram 337% entre 2020 e 2021 (entre janeiro e setembro representaram 29% do total com 26.007 pedidos).

Os sentimentos desta comunidade vão da esperança à cautela e resignação, depois que os Estados Unidos - seu destino original - optaram por deportar milhares de seus compatriotas que entraram ilegalmente naquele país em setembro passado.

- "Haiti resiste" -

Longe de ser um final feliz, a festa, batizada por seus organizadores de "Haiti Resiste", busca lançar as bases para o que poderia ser uma nova vida no México para milhares de haitianos.

Mas subsistir no México é difícil.

Aqueles com mais recursos ficam em hotéis baratos. Outros alugam casas precárias de forma irregular, por não atenderem aos requisitos para aluguel na Cidade do México, afirma Mariana Nahón, colaboradora do La Resistencia, um "café-galeria" que hospeda a festa e é um oásis de solidariedade para os haitianos.

"Abrimos o espaço para eles descansarem, para que estivessem seguros também porque testemunhamos muitos atos de discriminação em nossas ruas", acrescenta Nahón.

Dois abrigos para migrantes na Cidade do México recebem haitianos, mas ambos estão saturados, segundo a mídia local.

As possibilidades de emprego também são incertas.

Além de cozinhar, Gerline, formada em química e informática, ganha algum dinheiro fazendo tranças e extensões de cabelo, enquanto Max Pierre Boyer, seu namorado de 24 anos, dá aulas de francês.

Seus primeiros clientes são os amigos que conheceram em La Resistencia. Outros conterrâneos sobrevivem com o equivalente a US$ 11,9 por dia que recebem por 12 horas de trabalho carregando pacotes no varejo.

- Mexicanos "muito legais" -

O encontro reúne outros haitianos que vivem no centro histórico, como Jean Compere, de 30 anos.

"Vi muitos haitianos aqui e é por isso que vim para a festa", diz Compere, que planeja ficar no México por dois anos, embora continue desempregado.

Outros se aproximam timidamente, mas graças à música, à comida e ao crémasse - coquetel haitiano - conseguem quebrar o gelo.

Muitos suprimentos para a festa foram cortesia de amigos e doadores.

Para Trixia Lara, outra organizadora da festa e que apoia os haitianos, o alívio emocional é vital.

"Que eles sintam que o México os acolhe e não que os rejeita, eles precisam de um espaço onde possam se sentir em casa", diz esta terapeuta de 51 anos.

Gerline confessa que, embora Mariana, Trixia e várias outras tenham se tornado sua nova família, o que ganha no México não é suficiente para enviar dinheiro a seus entes queridos no Haiti, o que põe em dúvida sua permanência no país.

Enquanto reflete sobre o futuro, Gerline continua a tecer laços no México. "Tem gente bonita, 'bien chidos' (muito legais)", afirma, pronunciando essa palavra tipicamente mexicana e que ela acompanha de uma longa risada.


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