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Estado de Minas BERLIM

Procuradoria alemã estava cheia de ex-nazistas no pós-guerra, diz relatório


18/11/2021 16:20

A grande maioria dos integrantes, no pós-guerra, da Procuradoria Geral da Alemanha, uma das instituições judiciais mais importantes da República Federal, eram ex-nazistas, afirma um relatório divulgado nesta quinta-feira (18).

No documento de mais de 600 páginas, intitulado "A segurança do Estado durante a Guerra Fria", o historiador Friedrich Kiessling e o jurista Christoph Safferling afirmam que, entre 1953 e 1959, cerca de 75% dos funcionários da Procuradoria Geral Federal tinham sido membros do partido nazista (NSDAP, na sigla em alemão) sob o regime de Adolf Hitler.

Em 1966, dez dos 11 procuradores federais responsáveis pelos processos penais tinham sido integrantes do NSDAP, detalham os autores do relatório, que foi encomendado no fim de 2017 pelo procurador-geral Peter Frank.

Foi preciso esperar até 1992 para que a Procuradoria Geral rompesse com seu passado, após a saída do último procurador implicado no regime nazista.

A secretária de Estado do Ministério de Justiça, Margaretha Sudhof, sublinhou que o relatório evidencia as "inquietantes contradições para as quais nosso país fechou os olhos durante muito tempo".

- 'Não houve ruptura' -

De acordo com os especialistas, "não houve uma ruptura [...] com o passado nazista" dentro da Procuradoria Geral.

"O passado nazista foi reprimido, colocado em silêncio", acrescentou Sudhof durante a apresentação do relatório. "Para o Poder Judiciário e a administração também têm sido difícil assumir sua história", acrescentou.

A Procuradoria Geral, que tem competência sobre casos de terrorismo e espionagem, é uma das autoridades judiciais mais prestigiadas da Alemanha.

Com mais de uma centena de procuradores, é "a figura central na luta contra o terrorismo" no país, lembraram os autores do documento. Seu papel se tornou ainda mais predominante a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001, e do aumento da ameaça terrorista do islamismo radical, apontaram.

Para a elaboração do documento, os investigadores tiveram acesso a arquivos classificados do fim da Segunda Guerra Mundial.

A utilização de antigos colaboradores do regime nazista na administração do pós-guerra na Alemanha Ocidental, no entanto, não é um fato novo.

"Não houve um 'marco-zero'. A tirania nazista foi esmagada, sim, mas grande parte de suas elites não", resumiu Sudhof. "A República Federal foi construída por funcionários do regime nazista", frisou.

Hans Globke, por exemplo, um dos assessores mais próximos do chanceler conservador Konrad Adenauer, entre 1953 e 1963, também foi um alto funcionário do regime nazista.

- 'Reciclagem' -

Nos últimos anos, porém, uma série de pesquisas históricas evidenciaram o alcance desta "reciclagem". em 2016, por exemplo, um relatório do governo revelou a realidade do funcionamento do Ministério da Justiça no pós-guerra.

As investigações comprovaram que o número de ex-nazistas no ministério não diminuiu depois da guerra, mas aumentou na década de 1950.

Uma das razões foi a necessidade de poder contar com profissionais experientes para reorganizar o sistema judicial da Alemanha Ocidental.

Além disso, as prioridades dos Aliados, os vencedores da guerra, sofreram um giro diante da ascensão comunista. Após buscar a desnazificação no momento imediato ao fim da guerra, eles viram a necessidade de reconstruir um país em ruínas.

Contudo, o fato de a Alemanha Ocidental ter recorrido maciçamente a antigos nazistas teve como consequência a desaceleração considerável dos procedimentos para julgar os crimes nazistas. Alguns deles foram inclusive arquivados.

Como ficou claro nos últimos anos, a Alemanha começou a julgar muito tardiamente os responsáveis pelas atrocidades nazistas, com uma série de julgamentos contra nonagenários que trabalharam em campos de extermínio e de concentração.


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