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Estado de Minas CARTUM

Protestos no Sudão após golpe de Estado que suspendeu a transição


25/10/2021 20:38 - atualizado 25/10/2021 20:43

O general sudanês Abdel Fattah al Burhan dissolveu, nesta segunda-feira (25), o governo de transição do país, cujos membros civis foram quase todos detidos, e decretou estado de emergência, enquanto nas ruas já há registro de três mortos e dezenas de feridos entre os manifestantes pró-democracia.

Seis países ocidentais (Grã-Bretanha, Estônia, França, Irlanda, Noruega e Estados Unidos) pediram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que deverá ser celebrada na tarde de terça-feira, informaram diplomatas.

Desde esta manhã, o primeiro-ministro Abdallah Hamdok, sua esposa, e ao menos sete autoridades civis (ministros e membros civis do Conselho Soberano - maior autoridade da transição) foram detidos pelos militares, segundo a Anistia Internacional.

Em uma declaração televisionada no meio do dia, o general Abdel Fattah al Burhan assegurou que quer "uma transição civil e eleições livres em 2023", após 30 anos de ditadura de Omar al Bashir, mas anunciou a demissão de todos os dirigentes.

O governo está dissolvido, inclusive o Conselho Soberano, afirmou. Prefeitos e ministros foram destituídos e o estado de emergência vigora em todo o país, acrescentou.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu a libertação "imediata" do primeiro-ministro e os Estados Unidos suspenderam suas ajudas e exigiu a restauração de um governo civil. A Rússia se afastou e julgou o golpe como "o resultado lógico de uma política equivocada", acompanhada "de uma ingerência estrangeira de magnitude".

- Barricadas e disparos -

Na noite de segunda-feira, as redes sociais estavam repletas de imagens de manifestantes determinados a defender a transição democrática que começou após o afastamento do ditador Omar al Bashir em 2019.

Depois do discurso do general Burhan, houve confrontos na capital, Cartum. O ministério da Informação declarou que os soldados "atiraram com balas reais em manifestantes contrários ao golpe de Estado militar em frente ao quartel-geral do exército".

Três manifestantes morreram e pelo menos 80 ficaram feridos, informaram fontes médicas.

"O povo elegeu um Estado civil" e "não um poder militar", declararam durante o dia alguns manifestantes em Cartum, onde barricadas com pneus incendiados e pedras interrompiam as ruas, constataram jornalistas da AFP.

"Não vamos aceitar um regime militar. Estamos dispostos a dar nossas vidas pela transição democrática", assegurou Haitham Mohamed à AFP.

Depois dos anúncios do comandante militar, sindicatos e ativistas pró-democracia convocaram uma "desobediência civil" e de "greve geral", na linha do chamado a "se manifestar" contra o "golpe de Estado", lançado pelo gabinete de Hamdok.

Segundo Jonas Horner, pesquisador do International Crisis Group, "este é um momento existencial para os dois lados", civil e militar.

"Este tipo de intervenção [...] reintroduz a ditadura como opção", acrescentou, em declarações à AFP.

Em seus 65 anos de independência, este país pobre do leste da África esteve quase sempre nas mãos de militares ou islamitas.

Sob a pressão de uma mobilização maciça, em abril de 2019, pôs fim a 30 anos de Omar al Bashir, embora a transição iniciada depois não tivesse avançado em um bom ritmo há tempos.

- EUA suspende ajuda financeira -

Os Estados Unidos anunciaram a suspensão de uma ajuda financeira de 700 milhões de dólares ao Sudão e exortaram os "oficiais militares a libertarem imediatamente todos os atores políticos, para protegê-los" e a deixarem de recorrer à "violência".

Temendo pela vida de Hamdok, detido em um local não identificado, seu gabinete advertiu que as autoridades militares têm "toda responsabilidade sobre sua vida, ou morte", em um país que registrou uma tentativa de golpe no mês passado.

Michelle Bachelet, a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, disse temer que um "desastre" ocorresse se "o Sudão regredir [...] após décadas de ditadura".

Guterres também condenou o "golpe de Estado militar" e exigiu que a "carta constitucional" seja respeitada.

Esse texto, assinado por todos os responsáveis anti-Bashir em 2019, prevê eleições no final de 2023 e uma transição civil, com a qual o general Burhan afirmou seguir comprometido enquanto decide um novo governo e um novo Conselho Soberano.

A União Europeia instou a comunidade internacional a "voltar a pôr nos trilhos a transição sudanesa" e a Liga Árabe manifestou "profunda preocupação" e pediu a todas as partes que respeitem o acordo de divisão do poder.

Diante dos apelos, o general Burhan disse que o país respeitará os acordos internacionais assinados. O Sudão é um dos quatro países árabes que normalizaram, recentemente, as relações com Israel.

O Sudão enfrenta uma transição política precária, marcada por divisões e por lutas de poder. Recentemente as tensões aumentaram entre os dois lados.

Em 16 de outubro, os favoráveis ao exército instalaram barracas em frente ao palácio presidencial. Em resposta, dezenas de milhares foram às ruas cinco dias depois em várias cidades em apoio à plena transição de poder aos civis.


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