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Estado de Minas BOGOTÁ

Líder da ex-guerrilha Farc retorna à Colômbia após breve detenção no México


20/10/2021 20:15 - atualizado 20/10/2021 20:19

O ex-líder e negociador de paz da antiga guerrilha Farc Rodrigo Granda retornou à Colômbia nesta quarta-feira (20), após ser mantido detido pela Interpol por cerca de oito horas, no México, devido a um pedido do Paraguai por sequestro e assassinato.

O confuso caso, com versões diferentes entre as partes, provocou uma polêmica diplomática entre o México e o Paraguai.

O partido Comuns, que surgiu do desarmamento dos rebeldes, anunciou na terça-feira a captura de Granda mediante uma "circular vermelha" da Interpol, ativada quando o ex-guerrilheiro viajava para o México para participar de um fórum político.

O Paraguai informou ter apresentado o pedido de captura ao México, mas o governo de Andrés Manuel López Obrador destacou em um boletim que Granda voltou para a Colômbia antes que o pedido pudesse ser analisado.

"Quero conhecer a explicação que o embaixador do México pode nos dar", disse nesta quarta-feira o chanceler paraguaio, Euclides Acevedo.

Conhecido como ministro das Relações Exteriores das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) na época do conflito, Granda chegou ao aeroporto internacional de Bogotá. Ele afirmou que "voltou voluntariamente" e denunciou uma suposta manobra do governo colombiano para torpedear o processo de paz com a sua captura.

"Estamos dando a cara. Aqui estou", acrescentou o ex-guerrilheiro, hoje com 72 anos, ao desembarcar na capital colombiana.

Em 2008, um juiz paraguaio havia solicitado sua captura por suposta ligação com o sequestro e posterior assassinato da filha do ex-presidente Raúl Cubas em 2005.

Segundo a investigação, o grupo armado paraguaio que a sequestrou recebeu instruções dos então rebeldes colombianos por intermédio de Granda.

Os líderes da guerrilha colombiana desmobilizada respondem em liberdade na Justiça Especial de Paz (JEP) por crimes como sequestro e recrutamento de menores. Ninguém foi condenado até o momento.

"Entendo que este acordo (de paz) é uma espécie de indulto dentro da Colômbia, mas nós temos uma ordem de captura (no Paraguai) e somos obrigados a cumpri-la. Vamos a fazer o maior esforço para que seja extraditado e julgado", ressaltou Acevedo.

Granda viajou com permissão da JEP e ao retornar, pediu que o processo seja incluído no expediente aberto neste tribunal: "Todos os meus processos devem ser acumulados, inclusive o do Paraguai", afirmou.

Os ex-guerrilheiros poderão escapar da prisão se confessarem seus crimes e indenizarem as vítimas. Caso contrário, enfrentarão penas de até 20 anos de reclusão.

- "Retorno voluntário" -

Nesta quarta, Granda insistiu em que deixou a Colômbia com autorização do JEP para participar, no México, de um evento organizado por um partido de esquerda.

Ao chegar ao aeroporto daquele país, porém, foi notificado de que um "mandado de prisão adormecido da Interpol" havia sido acionado.

Granda disse ter sido uma manobra de "funcionários de alto escalão do governo colombiano" que não concordam com o processo de paz.

Ontem, o ministro da Defesa da Colômbia, Diego Molano, comentou que a detenção do ex-negociador se deu a pedido do Paraguai à Interpol.

Fontes do governo federal mexicano confirmaram a prisão de Granda à AFP na terça-feira, sem oferecer mais detalhes.

Rodrigo Londoño, presidente do Comuns que viajou com o ex-guerrilheiro, garantiu nesta quarta que seu colega esteve "isolado" e foi mantido incomunicável por "em torno de sete ou oito horas" antes de decidir por seu "retorno voluntário" à Colômbia.

Granda, que em 2005 foi preso na Venezuela em uma operação secreta e posteriormente transferido para a Colômbia quando atuava como contato internacional para as Farc, foi um dos negociadores de paz em Havana.

Foi, então, solto, a pedido do governo francês por facilitar a libertação da colombiano-francesa Ingrid Betancourt. Ela ficou sob cárcere das Farc por seis anos, até ser resgatada pelos militares colombianos em 2008.

O episódio gerou tensões entre a Venezuela, então governada pelo esquerdista Hugo Chávez, e a Colômbia, cujo presidente era o direitista Álvaro Uribe.

- Lembrança de Santrich -

Granda é o segundo líder da guerrilha desmobilizada a ser capturado após a assinatura da paz.

Seuxis Hernández Solarte, conhecido como "Jesús Santrich", foi preso em 2018 para extradição para os Estados Unidos sob acusações de tráfico de drogas - sempre negadas por ele.

Em 2019, foi libertado por ordem da Suprema Corte e, posteriormente, voltou às armas, junto com o ex-número dois das Farc Iván Márquez.

Segundo versões não confirmadas pelo governo colombiano, Santrich morreu em maio passado, em um confronto armado na Venezuela.

A detenção de Granda ocorre faltando pouco mais de um mês para o quinto aniversário do histórico pacto assinado com o presidente Juan Manuel Santos, que lhe rendeu o prêmio o Nobel da Paz em 2016.

Durante sua prolongada e frustrada luta pelo poder, as Farc recorreram ao sequestro de 21.396 pessoas com fins econômicos e políticos. Seus altos comandos foram denunciados em janeiro de crimes contra a humanidade ocorridos entre 1990 e 2016.

"Nosso compromisso frente à paz e o acordado em Havana, Cuba, continua sendo inquebrantável. Não passarão aqueles que pretendem fazer em pedaços o Acordo de Paz", manifestou-se o Comuns em um boletim.


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