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Estado de Minas ITZEHOE

Ex-secretária de campo de concentração nazista mantém silêncio no julgamento


19/10/2021 12:23 - atualizado 19/10/2021 12:25

A ex-secretária de um campo de concentração nazista, de 96 anos, permaneceu em silêncio no primeiro dia de seu julgamento na Alemanha, que finalmente começou nesta terça-feira (19), depois de ter sido adiado por três semanas por uma tentativa de fuga.

Irmgard Furchner enfrenta no tribunal de Itzehoe (norte da Alemanha) as acusações de cumplicidade em assassinatos e tentativas de assassinatos em mais de 11.000 casos no campo de concentração de Stutthof, na atual Polônia, entre 1943 e 1945.

Nesta terça, a idosa compareceu à audiência: ela entrou no tribunal de cadeira de rodas. Para esconder o rosto dos fotógrafos e cinegrafistas, Irmgard cobriu a cabeça com um lenço e usava óculos escuros.

"Não fará nenhuma declaração no momento. Também não responderá às perguntas", declarou seu advogado Wolf Molkentin.

Irmgard Furchner, a primeira mulher envolvida com o nazismo a ser julgada em décadas na Alemanha, anunciou sua identidade e permaneceu em silêncio durante a leitura da acusação.

O processo começou em 30 de setembro, de maneira confusa: a acusada, que mora em uma casa de repouso perto de Hamburgo, fugiu por algumas horas e não foi ao tribunal.

Agora ela comparece em liberdade, mas as autoridades adotaram medidas de vigilância para garantir sua presença nas audiências.

O Ministério Público acusa a ré de ter "ajudado e incitado o assassinato pérfido e cruel" de milhares de prisioneiros, entre junho de 1943 e abril de 1945, no campo em que trabalhava como datilógrafa e secretária do comandante do local, Paul Werner Hoppe.

No campo de concentração de Stutthof, próximo à cidade de Gdansk (Danzig, na época), onde morreram 65.000 pessoas, "detentos judeus, guerrilheiros poloneses e prisioneiros de guerra soviéticos" foram assassinados de forma sistemática, afirma o Ministério Público.

De acordo com suas atribuições, "ela assegurava o bom funcionamento do campo e tinha conhecimento de todos os eventos que aconteceram em Stutthof", sobretudo, os assassinatos a tiros, ou na câmara de gás, destaca o procurador Maxi Wantzen.

Em uma entrevista concedida em 2019 ao jornal NDR, a ex-secretária disse que "não sabia de nada" sobre os massacres cometidos no campo.

Em uma carta enviada antes da primeira audiência, a acusada declarou ao juiz de instrução que não desejava comparecer pessoalmente ao tribunal.

No dia da primeira audiência, ela entrou em um táxi e desapareceu por algumas horas, até ser encontrada. Colocada em prisão preventiva, a idosa foi liberada uma semana depois.

- Justiça tardia -

O comportamento provocou grande consternação. Sua ausência demonstrou "menosprezo pelos sobreviventes e pela lei", disse à AFP o vice-presidente do Comitê Internacional de Auschwitz, Christoph Heubner.

"Se tem saúde para fugir, ela tem saúde para ir para a prisão", tuitou Efraim Zuroff, um caçador de nazistas com cidadania americana e israelense, presidente do Centro Simon Wiesenthal, que ajudou a levar criminosos de guerra a julgamento.

Setenta e seis anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha continua procurando criminosos nazistas, embora, para as vítimas, esta seja uma justiça considerada muito tardia.

A Alemanha também estendeu as investigações aos executores, muitas vezes subordinados que recebiam ordens, da máquina nazista.

Outro acusado, Josef Schütz, de 100 anos, começou a ser julgado em 7 de outubro no tribunal de Brandenburg-an-Havel (nordeste). Ele alega inocência.

Trata-se da pessoa mais velha sendo processada, hoje, por crimes nazistas. Este ex-suboficial da divisão "Totenkopf" das SS é acusado de "cumplicidade nos assassinatos" de 3.518 prisioneiros, quando trabalhou no campo de concentração de Sachsenhausen entre 1942 e 1945.

"Os suspeitos de crimes nazistas que vivem atualmente eram muito jovens na época dos atos e ocupavam cargos subalternos", declarou à AFP Guillaume Mouralis, diretor do CNRS (Centro Nacional para a Pesquisa Científica da França) e membro do Centro Marc Bloch, de Berlim.

"O paradoxo é que os 'criminosos de escritório' nos escalões intermediários e superiores da hierarquia foram, em última análise, muito pouco incomodados (pela Justiça)", acrescentou.


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