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Estado de Minas BEIRUTE

Líbano registra mortes e cenas de guerra durante protesto em Beirute


14/10/2021 18:45

Pelo menos seis pessoas morreram e cerca de 30 ficaram feridas nesta quinta-feira (14) em tiroteios durante uma manifestação dos movimentos xiitas Hezbollah e Amal, em Beirute, contra o juiz encarregado de investigar a explosão no porto da capital libanesa em agosto de 2020.

Várias áreas de Beirute se tornaram uma zona de guerra. Tiros e explosões incessantes ecoaram não muito longe do Palácio de Justiça, diante do qual se reuniram centenas de manifestantes vestidos de preto, alguns deles armados, confirmaram jornalistas da AFP.

O ministro do Interior, Bassam Mawlawi, informou em entrevista coletiva o balanço de seis mortos, alguns atingidos por tiros na cabeça, sugerindo que os disparos foram obra de "franco-atiradores".

De acordo com os correspondentes da AFP, franco-atiradores posicionados nos telhados de edifícios próximos do Palácio de Justiça atiraram contra os manifestantes. Em seguida, homens armados com braceletes com insígnias do Amal e do Hezbollah responderam aos disparos.

Entre os mortos há uma mulher de 24 anos que foi baleada na cabeça dentro de casa, disse à AFP um médico do hospital Sahel, ao sul de Beirute.

Em um discurso após os atos de violência, o presidente Michel Aoun, aliado cristão do Hezbollah, considerou "inaceitável retornar à linguagem das armas, pois todos concordamos em virar esta página sombria de nossa história".

A emissária da ONU no Líbano, Joanna Wronecka, exortou "todas as partes a apoiarem a independência da Justiça", enquanto os Estados Unidos pediram a "redução das tensões".

"Nós nos opomos à intimidação e ameaças de violência contra o judiciário de qualquer país, e apoiamos a independência do judiciário no Líbano", disse aos jornalistas o porta-voz do Departamento de Estado americano, Ned Price.

O governo libanês decretou dia de luto nacional para esta sexta-feira (15).

Em um comunicado conjunto, Hezbollah e Amal denunciaram que "atiradores posicionados nos telhados de edifícios" tinham atirado contra os manifestantes.

Os movimentos xiitas acusaram "grupos do [partido cristão] das Forças Libanesas posicionados nos bairros e telhados" de disparar contra os manifestantes. As Forças Libanesas, por sua vez, desmentiram essa informação.

Segundo o Ministério da Saúde, 32 pessoas ficaram feridas, enquanto a Cruz Vermelha libanesa afirmou que foram 30, e que estas foram socorridas por ambulâncias perto do Palácio de Justiça.

As ruas se esvaziaram rapidamente e os libaneses se refugiaram em suas casas, revivendo momentos vividos em guerras passadas que pensavam ter esquecido.

Tanques do exército foram posicionados, e os militares alertaram que atirariam em qualquer um que abrisse fogo.

- Implosão do governo, crise no país -

Convocados pelo Hezbollah e Amal, os manifestantes exigiam a demissão do juiz Tareq Bitar, responsável pela investigação da explosão no porto da cidade, ocorrida em 4 de agosto de 2020 devido a quantidades de nitrato de amônio armazenadas irregularmente no local.

Pelo menos 214 pessoas morreram na tragédia, que teve mais de 6 mil feridos e muitos edifícios devastados.

Os manifestantes queimaram retratos do juiz e da embaixadora dos Estados Unidos no Líbano, Dorothy Shea. Esses confrontos sangrentos coincidem com a presença em Beirute da número três do Departamento de Estado americano, Victoria Nuland.

O primeiro-ministro Nagib Mikati pediu calma e criticou as tentativas de mergulhar o país em um ciclo de violência.

O Hezbollah e seus aliados acreditam que o juiz está politizando a investigação. Na terça-feira, o juiz Bitar emitiu um mandado de prisão para o deputado e ex-ministro das Finanças Ali Hassan Khalil, membro do Amal e aliado do Hezbollah.

Foi então obrigado a suspender a investigação porque dois ex-ministros apresentaram queixa contra ele na Justiça, que foi indeferida nesta quinta-feira, para que o magistrado possa dar continuidade ao seu trabalho.

O assunto está prestes a causar uma implosão do recém-formado governo libanês, após um ano de bloqueio político, pois os ministros do Hezbollah e do Amal pediram a substituição do juiz, o que os demais membros do governo recusaram.

"O fato de o Hezbollah ir às ruas e colocar toda sua força nesta batalha pode provocar grandes confrontos e desestabilização de todo o país", comentou à AFP o analista Karim Bitar.

As autoridades locais, acusadas de negligência criminosa, recusam-se a autorizar uma investigação internacional e são acusadas pelos familiares das vítimas e por ONGs de obstrução da justiça.


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