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Estado de Minas BAMIYAN

Os hazaras afegãos vivem terror com o regime talibã


07/10/2021 09:25

A bandeira branca e preta do Talibã tremula sobre os escombros de uma estátua de um líder da comunidade hazara em Bamiyan. As boas palavras dos novos líderes afegãos não diminuem o medo deste grupo étnico xiita perseguido.

"Todos estão apavorados", diz Najwa, jornalista local de 26 anos que não pode mais trabalhar. "É impossível acreditar neles. Para os hazaras, e especialmente para nós mulheres, não há mais esperança".

"Quando descobrimos que eles estavam chegando, todos fugimos para as montanhas. Passamos uma semana lá, mas é impossível morar lá, e voltamos para baixo", conta esta mulher desta cidade localizada no centro do Afeganistão, cerca de 130 km a oeste de Cabul.

Membro da Academia de Cinema de Bamiyan, Najwa poderia ter deixado o país para a França como muitos de seus amigos, mas, escondida nas montanhas, não recebeu a ligação de salvamento.

"E agora é tarde demais", lamenta.

"O Talibã decretou uma suposta anistia geral, mas sabemos que há sequestros, assassinatos", acrescenta.

A perseguição aos hazaras, que representam 10-20% dos 40 milhões de afegãos, data de muito tempo.

Segundo algumas estimativas, metade da comunidade foi exterminada no final do século XIX, quando seus territórios tradicionais foram conquistados pelos pashtuns sunitas.

- 'Estamos aqui para protegê-los' -

O primeiro mandato dos talibãs (1996-2001), radicais sunitas, deixou outros capítulos obscuros ainda vivos em suas memórias, como os massacres de Mazar-e Sharif (1998) e Yakaolang (2001), com centenas de civis mortos indiscriminadamente.

Na terça-feira, a Anistia Internacional condenou a morte de 13 hazaras pelo Talibã na província vizinha de Daykundi no final de agosto.

Em seu gabinete, o governador provincial em exercício, recentemente nomeado chefe da polícia, dá as boas-vindas aos jornalistas estrangeiros.

"É verdade que as pessoas ficaram com medo no início", disse Musa Nasrat à AFP.

"Mas não sobrou ninguém nas montanhas. Dissemos a eles: 'retomem sua vida normal. Estamos aqui para protegê-los'. Não somos inimigos dos xiitas", garante.

Para acalmá-los, o Talibã nomeou um dos poucos xiitas em suas fileiras, Mahdi Mujahid, como chefe de inteligência da província de Bamiyan.

Suas primeiras palavras: "minha comunidade não tem nada a temer".

Mas Abdul Danesh Yar precisa de mais do que palavras. Diretor de uma escola particular de 33 anos é representante local da Assembleia de Sociedades Civis do Centro do Afeganistão.

"Não podemos confiar neles", diz. "A história do nosso país está cheia de massacres e deportações de hazaras".

"A comunidade internacional e os Estados Unidos nos traíram (...) Acreditamos nos valores deles e eles nos abandonaram", lamenta.

Para ele, o Talibã "nunca mudará. Sua ideologia é inabalável", opina.

- 'Ninguém acredita' -

O medo é especialmente palpável em Bamiyan, uma das cidades que mais se beneficiou nos últimos 20 anos da presença internacional, suas iniciativas e subvenções.

As mulheres praticavam esportes, havia mais meninas do que meninos na universidade, shows de rock eram organizados.

Entre 2005 e 2013, a província teve a primeira governadora do país, Habiba Sarabi, agora exilada na Turquia.

Abdulhaq Shafad, um poeta e escritor local de 41 anos, é membro da "comissão do povo" de 22 membros criada após a mudança no poder para "resolver problemas".

"Por enquanto, eles não cometeram atos negativos", diz.

"Mas o futuro é imprevisível. Se a comunidade internacional reconhecer seu regime e não houver mais pressão do exterior, as coisas podem piorar", afirma.

Nos arredores da cidade, não muito longe da plantação de maçãs de Rajabali Sahebzadah, os destroços da estátua de Abdul Ali Mazari, um líder hazara que se tornou mártir quando morreu em 1995 como prisioneiro do Talibã, estão espalhados.

Três dias após sua vitória, o monumento foi detonado. Agora são apenas pedras brancas no centro de uma rotatória.

"Temos medo, mas não temos escolha. Temos que comer", diz o jovem agricultor. "Eles negam ter destruído a estátua. Ninguém acredita neles".


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