Jornal Estado de Minas

AFEGANISTÃO

No Afeganistão, talibãs caçam inimigos de porta em porta

Estudante da Universidade de Cabul, Fereba Nour, 22 anos, teme pela vida do cunhado, que tentava, nesta quinta-feira (19/8), entrar no caótico Aeroporto Internacional Hamid Karzai. "As ameaças contra a nossa família começaram antes mesmo de o Talibã capturar Cabul. Alguns dos amigos dele até foram assassinados", afirmou ao Correio.





"Eles (talibãs) não queriam que o marido da minha irmã seguisse trabalhando para as forças dos Estados Unidos. Também o forçaram a abandonar o emprego no Ministério da Defesa afegão", acrescentou. O drama enfrentado pelo cunhado de Aisha, que colaborou com os EUA por 15 anos, não é exceção. Um relatório confidencial elaborado pelo Centro Norueguês de Análises Globais - conhecido como Rhipto ("difícil de ver", em grego) - revelou que o Talibã ameaçou matar ou prender familiares de pessoas que colaboraram com as forças estrangeiras no país. O Rhipto fornece dados de inteligência à ONU.

Novos protestos em várias partes do Afeganistão, em celebração ao Dia da Independência, mostram que uma parcela dos afegãos não se intimida com a milícia fundamentalista islâmica, que tornou a retaliar as manifestações, matando ao menos duas pessoas em Asadabad, capital da província de Kunar, no leste do país. Na província de Panjshir (nordeste), Ahmad Massoud, filho de Ahmad Shah Massoud e comandante da Aliança do Norte, conclamou a resistência e pediu armas aos Estados Unidos.

Em entrevista ao Correio, Christian Nellemann, diretor-executivo da Unidade de Resposta Rápida do Rhipto, explicou que o Talibã realizou um rastreamento avançado de afegãos antes mesmo da tomada das grandes cidades.





"Existe uma lista de prioridades de pessoas a serem detidas, incluindo membros dos serviços de inteligência, da polícia e das Forças Armadas do Afeganistão. O Talibã intensificou a coleta de informações nas cidades conquistadas, a fim de identificar potenciais alvos em Jalalabad (leste) e na capital, Cabul. A milícia, inclusive, assassinou desafetos nos últimos meses", afirmou.

De acordo com Nellemann, "há vários relatos de que o Talibã tem ampliado listas com os nomes e números de telefones de indivíduos que se acredita terem colaborado com as tropas dos Estados Unidos e com países aliados". Ele revela que a milícia montou uma rede de informantes e mantém contato com mesquitas, a fim de compilar mais nomes.

"Eles têm ameaçado matar ou prender familiares de indivíduos-alvo, a menos que se rendam. Também montaram postos de controle no caminho para o aeroporto, nas principais vias de Cabul e no entorno de cidades maiores. Os talibãs conduzem visitas de porta em porta direcionadas a indivíduos que constam na lista, disse o diretor do Rhipto.





Nellemann enviou à reportagem o teor do documento afixado por esquadrões do Talibã nas portas das casas de supostos colabores dos Estados Unidos e de aliados durante a ocupação do Afeganistão.

"A Comissão Militar e de Inteligência do Emirado Islâmico do Afeganistão o considera uma pessoa importante. (...) Você deve comparecer à sede da Comissão Militar e de Inteligência do Emirado Islâmico do Afeganistão, localizada em Shish Darak, Cabul, e fornecer informação sobre a natureza de seu trabalho e de seu relacionamento com britânicos e americanos. Se você não se reportar à Comissão, seus familiares serão presos, e você será o responsável por isso. Você e seus familiares serão tratados com base na Sharia (lei islâmica)", afirma o aviso, que levava o selo da Organização de Impressão e Publicações do Emirado Islâmico do Afeganistão.

Fereba Nour, a estudante de Cabul, contou que tem recebido mensagens do Talibã, por meio do Twitter. "Pare de ter medo. Louve sua origem. Não se rebele contra o seu país. O Afeganistão precisa de pessoas educadas como você. (...) Fique no Afeganistão. (...) Não mantenha a boca aberta", afirma a mensagem, que, segundo ela, é uma das muitas enviadas com frequência.




(foto: AREF KARIMI / AFP)

Rebeldia

Focos de rebeldia contra o Talibã tornaram a aparecer, a despeito das ameaças da milícia. Em Cabul e em Asadabad, afegãos saíram às ruas com a bandeira tricolor do Afeganistão, em celebração ao Dia da Independência, apesar das patrulhas feitas pelas camionetas com o estandarte do Talibã. Próximo ao aeroporto, a situação continua tensa. O G7 - grupo dos países mais industrializados do mundo - exortou os talibãs a garantirem passagem livre aos estrangeiros e afegãos que desejarem partir.

Rodrigo Reis, diretor-executivo do Instituto Global Attitude (em São Paulo) e especialista em relações internacionais, vê uma discrepância enorme entre a percepção passada pelo porta-voz do Talibã, na entrevista coletiva de terça-feira e o comportamento efetivo da milícia em solo afegão.

"O Talibã tenta se modernizar e expor ao mundo uma narrativa que não é a implementada no solo, em relação a inúmeras questões. A interpretação radical do islã, as violações dos direitos das mulheres e relatos recebidos pela ONU mostram um abismo gigante em relação à retórica talibã", disse à reportagem.





» Quatro perguntas para...
Christian Nellemann, diretor-executivo da Unidade de Resposta Rápida do Centro Norueguês de Análises Globais (Rhipto)

Como vocês coletaram as denúncias e as informações para a compilação do documento entregue à ONU?
Não podemos fornecer as fontes, mas acessamos documentos impressos emitidos pelo Talibã em Cabul. Também falamos com indivíduos.

O que o senhor destaca como mais chocante e importante?
O Talibã visa diretamente os familiares, caso os indivíduos procurados não se rendam. Isso é feito por meio de ordens expressas por escrito.

O Talibã prometeu respeito aos direitos humanos. O que acha da promessa feita pelo porta-voz Zabihullah Mujahedin na última terça-feira?
Eles se tornaram uma organização mais bem organizada e mais poderosa, com sistemas financeiros, departamento de inteligência e redes de informantes. Também não mostraram indicações, nos últimos 20 anos, de que tenham se tornado mais brandos ou amigáveis.





Que conselhos o senhor daria a afegãos que colaboraram com os EUA e o Reino Unido?
Ele estão em grande risco, pois representam uma ameaça ao Talibã, e serão caçados, como temos visto em várias cidades. Se forem capturados, poderão revelar, mediante tortura deles próprios ou de familiares, informações valiosas aos países "amigáveis" dos EUA. Tais informações podem ameaçar os serviços de inteligência do Ocidente. O Talibã está em um processo de recrutamento em massa de informantes.

» Susto em Washington

O homem que ameaçou detonar explosivos, ontem, perto do Capitólio em Washington, sede do Congresso dos Estados Unidos, rendeu-se à tarde "sem incidentes", disse a polícia norte-americana, após horas de negociações.

"Ele saiu do veículo e se entregou. As unidades táticas que estavam perto o detiveram sem incidentes", disse o chefe de polícia do Capitólio, Thomas Manger. Ao meio-dia, viaturas policiais e ambulâncias estavam em volta do Capitólio, em grande parte isolado, enquanto agentes do FBI verificavam a área.





O chefe de polícia da sede do Legislativo, Thomas Manger, disse que, por volta das 9h15 (10h15, em Brasília), um homem dirigiu uma caminhonete preta até o meio-fio ao lado da Biblioteca do Congresso e afirmou que tinha explosivos. "O motorista contou ao policial que estava no local que tinha uma bomba e o que parecia ser, segundo o policial, um detonador na mão", disse Manger.

No Facebook Live, um homem que parecia ser o suspeito transmitiu uma série de ameaças inconsistentes e pediu para falar com o presidente Joe Biden. O suspeito, que se identificou como Ray Roseberry, era branco, calvo, com cavanhaque grisalho e vestia uma camiseta branca.

"Estou tentando falar com Joe Biden pelo telefone. Estou estacionado aqui na calçada ao lado de todas essas coisas bonitas", disse ele. "Não vou machucar ninguém, Joe. Não vou puxar o gatilho dessa coisa. Não posso", ressaltou, mas avisou: "Estou te avisando, se os atiradores (...) começarem a atirar por essa janela, essa bomba explode".

O site especializado SITE, que monitora organizações de supremacia branca e jihadistas, informou que Roseberry provavelmente integra o movimento Maga, um acrônimo para "Make America Great Again", o slogan do ex-presidente republicano Donald Trump.




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