Jornal Estado de Minas

CABUL

Talibã toma controle de Cabul após fuga de presidente afegão

O Talibã entrou neste domingo (15) em Cabul e clamou "vitória" no palácio do governo, horas depois que o presidente Ashraf Ghani fugiu para o exterior no dramático epílogo de 20 anos de intervenção militar estrangeira e uma ofensiva relâmpago de insurgentes.



"Os talibãs venceram", declarou Ghani no Facebook, garantindo que deixou o país para evitar um "banho de sangue", já que "incontáveis patriotas teriam sido martirizados e Cabul destruída" se ele tivesse ficado.

Ashraf Ghani não informou onde se encontra, embora a emissora afegã Tolo News garanta que o mandatário fugiu para o Tajiquistão.

"Unidades militares do Emirado Islâmico do Afeganistão entraram na cidade de Cabul para garantir a segurança", tuitou o porta-voz dos insurgentes, Zabihullah Mujahid. "Seu avanço continua normalmente", acrescentou.

À noite, a televisão afegã transmitiu imagens de combatentes afegãos dentro do palácio do governo gritando "vitória".

"Nosso país foi libertado e os mujahidin são vitoriosos no Afeganistão", declarou um militante ao canal de notícias Al Jazeera direto do palácio presidencial.

Em 10 dias, o movimento islâmico radical, que havia iniciado uma ofensiva em maio aproveitando o início da retirada das tropas americanas e estrangeiras, assumiu o controle de quase todo o país.



Agora, os insurgentes estão às portas do poder, 20 anos depois de serem expulsos por uma coalizão liderada por Washington, após sua recusa em entregar Osama bin Laden, líder da Al Qaeda, e os ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos.

A derrota é total tanto para o governo quanto para as forças de segurança afegãs, que os Estados Unidos financiam há 20 anos com bilhões de dólares.

A destituição de Ghani era um dos pedidos dos talibãs durante as conversas de paz com o governo afegão, embora o mandatário tenha optado por se manter no cargo até agora.

Um porta-voz dos insurgentes, Suhail Shaheen, declarou à BBC que o Talibã esperava pela transferência pacífica do poder "nos próximos dias".

- "Não é Saigon" -

Enquanto isso, os Estados Unidos deram início à evacuação dos diplomatas americanos e de cidadãos afegãos que colaboraram com Washington. A operação envolve cerca de 30.000.

Um alto funcionário de Defesa americano explicou que centenas de funcionários da embaixada já deixaram o Afeganistão e que o aeroporto seguia aberto para voos comerciais.



O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou que enviará 1.000 militares a mais para ajudar na evacuação, elevando o contingente americano em Cabul para 6.000 soldados.

A embaixada dos Estados Unidos indicou que tinha "informações sobre tiros no aeroporto", embora não pudessem ser confirmados.

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, afirmou que a aliança está ajudando a garantir a segurança e a operação do aeroporto, para onde os ocidentais e afegãos fluem para fugir do país.

Biden defendeu sua decisão de por um fim a 20 anos de guerra, a mais longa da história dos Estados Unidos.

"Eu sou o quarto presidente a governar com uma presença militar americana no Afeganistão. Eu não quero e não vou repassar esta guerra para um quinto presidente", declarou Biden neste domingo.

"Isso aqui não é Saigon", declarou o secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, à CNN, aludindo à queda da capital vietnamita em 1975, uma memória ainda dolorosa para os Estados Unidos.



Diante dessa situação, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, exortou os ocidentais a adotarem "uma posição comum" contra o Talibã "para evitar que o Afeganistão se torne um terreno fértil para o terrorismo.

Tanto o Reino Unido como outro países europeus também iniciaram a retirada de seus funcionários diplomáticos no Afeganistão.

- "Valores islâmicos" -

Conforme o passar do dia, o pânico tomou conta de Cabul. Lojas fecharam, engarrafamentos se formaram, policiais foram vistos trocando seus uniformes por roupas civis.

Os bancos estava lotados de pessoas querendo sacar seu dinheiro. As ruas também ficaram lotadas de veículos tentando sair da cidade ou se refugiar em uma área considerada mais segura.

No bairro de Taimani, no centro da capital, o medo, a incerteza e a incompreensão podiam ser lidos nos rostos das pessoas.

"Apreciamos o retorno do Talibã ao Afeganistão, mas esperamos que sua chegada traga paz e não um banho de sangue. Ainda me lembro, de quando era criança, muito jovem, das atrocidades cometidas pelos talibãs", disse à AFP Tariq Nezami, um comerciante de 30 anos.



E já há sinais de que as pessoas estão se resignando a mudar de vida.

Assim, o outdoor de propaganda de um salão de beleza mostrando uma noiva glamorosa foi pintado por um funcionário neste domingo em um bairro de Cabul.

Muitos afegãos, especialmente na capital, e as mulheres em particular, acostumados com a liberdade de que desfrutaram nos últimos 20 anos, temem um retorno ao poder do Talibã.

Quando governaram o país, entre 1996 e 2001, os talibãs impuseram sua versão ultrarrigorosa da lei islâmica. As mulheres eram proibidas de sair sem um acompanhante masculino e de trabalhar, e as meninas de ir à escola. Mulheres acusadas de crimes como adultério eram açoitadas e apedrejadas.

Ladrões tinham as mãos cortadas, assassinos eram executados em público e homossexuais mortos.

O Talibã, que tenta transmitir uma imagem mais moderada hoje, tem prometido repetidamente que, se voltar ao poder, respeitará os direitos humanos, especialmente os das mulheres, de acordo com os "valores islâmicos".

Mas nas áreas recém-conquistadas, já foram acusados de muitas atrocidades: assassinato de civis, decapitações, sequestro de adolescentes para casá-las à força.

audima