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Estado de Minas WASHINGTON

Em meio ao caos no Haiti, há esperança de uma renovação política?


09/07/2021 15:43

A última vez que um presidente haitiano foi assassinado, em 1915, os Estados Unidos ocuparam a nação caribenha por 19 anos. Um século e várias intervenções depois, alguns observadores do Haiti afirmam que é hora de novas ideias.

O Haiti - o país mais pobre das Américas - já estava mergulhado em uma crise política, socioeconômica e de segurança, com áreas da capital, Porto Príncipe, controladas por gangues, quando o presidente Jovenel Moise foi assassinado por um comando armado em sua residência oficial na manhã de quarta-feira.

O assassinato acontece menos de quatro anos após o fim de uma missão das Nações Unidas com o objetivo de estabilizar o Haiti, e depois que o país recebeu bilhões de dólares para reconstrução após o devastador terremoto de 2010.

"Há muitas coisas que podem ser feitas para ajudar, mas devemos ser modestos sobre a rapidez com que podem ser implementadas e ter muito cuidado para aprender com os erros do passado", explica Brian Concannon, que trabalhou no Haiti e é diretor executivo do Projeto Blueprint, que promove os direitos humanos na política externa dos Estados Unidos.

"A última vez que houve um pedido de intervenção militar ela teve duração de 13 anos, US$ 7 bilhões foram gastos e, quando terminou, o Haiti tinha mais armas e menos democracia do que alguns meses antes da chegada das forças de paz, e além disso tinha raiva e exploração sexual por parte das tropas da ONU", ressaltou.

Os Estados Unidos, potência estrangeira dominante neste país localizado a 1.300 quilômetros da Flórida, ficaram ao lado de Moise, que afirmou ser ainda presidente quando, para muitos, seu mandato havia terminado.

Após o assassinato, o governo do presidente Joe Biden reiterou que o Haiti deveria realizar as eleições de setembro conforme planejado para dar legitimidade a um novo presidente.

François Pierre-Louis, ex-membro do gabinete de Jean-Bertrand Aristide - o primeiro presidente haitiano a ser eleito democraticamente, mas derrubado por dois golpes de Estado - considerou o aparente apoio dos EUA a Moise um "erro terrível".

Segundo ele, o interesse dos Estados Unidos no Haiti havia diminuído acentuadamente com Donald Trump, que foi citado fazendo comentários sobre a nação predominantemente negra como sendo um "país de merda" ao debater imigração, mas Biden deveria ter percebido a urgência da situação mais rapidamente.

"Eu sei que Biden já tem muito o que lidar, mas ao mesmo tempo não houve uma ruptura com o governo Trump", afirma Pierre-Louis. "Se Biden tivesse intervindo antes, Jovenel Moise não teria sido morto", finalizou.

- "Um grande erro" -

Embora Pierre-Louis tenha concordado que uma intervenção militar no Haiti não funcionaria, ele afirmou que um embargo internacional poderia ser posto em prática para impedir o fluxo de armas pequenas para as gangues, cuja violência está dominando o país.

Os poderes internacionais devem convencer a polícia a desarmar esses grupos, pressionar por maior transparência no uso do auxílio econômico e integrar a oposição pela busca de uma solução, acrescentou.

Para Robert Fatton Jr., especialista em Haiti na Universidade da Virgínia, uma nova eleição seria "um grande erro" e seria melhor pressionar por um governo que inclua a oposição e a sociedade civil.

"Se a comunidade internacional quisesse usar seu poder com sabedoria, poderia forçar o governo a aceitar um governo de unidade nacional", afirmou.

A divisão do poder tem poucos precedentes no Haiti, admitiu, mas o fato de (Moise) estar morto "poderia ser, estranhamente, uma oportunidade para forçar a questão".

Deputados americanos, liderados pelo democrata Gregory Meeks, diretor do Comitê de Assuntos Exteriores da Câmara dos Deputados nos EUA, pediram no início deste ano para se pensar a respeito do Haiti, considerando preferível que uma gama maior de vozes fosse escutada no país e que as eleições não fossem apressadas.

Para Monique Clesca, uma especialista em desenvolvimento aposentada, atualmente estabelecida no Haiti, os haitianos deveriam primeiro tratar de questões cotidianas, como saúde, emprego e educação.

"Todos estamos todos sofrendo porque os investimentos sociais necessários não estão sendo feitos e eles ficam nos dizendo a mesma coisa, que realizemos as eleições", disse.

"O problema haitiano é mais profundo e está realmente enraizado na desigualdade", observa.

A ocupação americana, após 1915, ocorreu em parte diante dos temores sobre uma invasão alemã.

Mas o Haiti, um pequeno exportador, raramente faz parte do jogo das grandes potências mundiais, o que gera questionamentos sobre a explicação oficial de que Moise foi morto por mercenários estrangeiros.


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