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Estado de Minas SURFSIDE

'Um terremoto', uma fuga apressada e muitas dúvidas sobre desabamento na Flórida


29/06/2021 16:59

Foi "como um terremoto". Assim Janette Agüero sentiu o estrondo ensurdecedor que a acordou na quinta-feira, 24 de junho, por volta da 01H20 da madrugada.

Não era para menos: 55 apartamentos de frente para o mar do complexo Champlain Towers South, um bloco residencial em Surfside, perto de Miami, acabava de desabar em um dos piores desastres urbanos da história dos Estados Unidos.

"Foi como um terremoto. Estávamos meu marido e eu dormindo e o edifício que tremia, muito violentamente, nos acordou", contou à AFP Agüero, de 46 anos. Da janela, ela via apenas uma nuvem de poeira.

Com o marido, Alberto, e os dois filhos, ela passava uma semana de férias no apartamento dos sogros no 11º andar do complexo, no bloco de apartamentos com vista para a rua.

Localizada ao norte de Miami Beach, Surfside, de 6.000 habitantes, é conhecida pelas praias de areia branca que a tornaram um destino para turistas e aposentados endinheirados. A cidade, a 20 km do centro de Miami, também abriga uma grande comunidade judaica.

Localizado quase à beira-mar, o complexo Champlain Towers South, de 12 andares, e construído em 1981, se destacava pela silhueta bege em meio a modernos blocos residenciais com fachadas de vidro.

O prédio tinha 136 apartamentos, ocupados por seus proprietários ou alugados. Foram as unidades com vista para o mar as que desabaram por alguma razão ainda não determinada.

Em dez minutos, os bombeiros chegaram ao local. Da sua varanda, Alberto Agüero lhes perguntou o que fazer. "Se puderem ir embora, vão", responderam.

Ao sair do apartamento, "metade do corredor à nossa esquerda não existia mais, podíamos ver o mar", lembrou seu filho, Justin.

As escadas continuavam lá, "mas meio destruídas, faltavam alguns degraus". A descida lhes pareceu interminável. "Não pensava em olhar para fora, me concentrava nos meus pés", contou o jovem de 22 anos.

Em "modo sobrevivência", a família chegou ao andar da garagem, avançou sobre "uma grande pilha de escombros", encontrou uma brecha e correu para a praia, onde finalmente se sentiu segura. Foi então que Janette "desabou" e caiu em prantos.

"Emoções demais", disse.

- "Esperança" -

Os vizinhos que se refugiaram em suas varandas foram evacuados com escadas. E tiveram início as operações de busca dos sobreviventes entre os escombros à mão na superfície e nos subsolos.

Quando ainda não tinha amanhecido, um adolescente foi tirado com vida das ruínas. Um primeiro boletim registrou um morto, que era a mãe do menino, e 99 desaparecidos.

Desde as primeiras horas da quinta-feira, o centro comunitário do local, algumas ruas ao norte dali, se transformou em um centro de reunião para as famílias dos desaparecidos. Os evacuados, como os Agüero, também iam ali buscar alojamento temporário.

Durante o dia, voluntários distribuíam bebida, comida, cobertores e artigos de primeira necessidade, enquanto os familiares dos moradores davam dados de quem se pensava que devia estar em casa quando o desastre aconteceu.

Bettina Obias, sem notícias do tio e da tia, doou uma amostra de DNA. As autoridades "precisam dela para verificar que corpo pertence a qual família", explicou à AFP.

Tempestades elétricas e um incêndio no sótão do complexo, que foi controlado no sábado, atrasaram os trabalhos de resgate. Na sexta-feira, o balanço chegava a quatro mortos e 159 desaparecidos.

A prefeita do condado de Miami-Dade, Daniella Levine Cava, assegurou então que "ainda" se esperava encontrar gente viva apesar da magnitude dos danos.

Mas a esperança foi desaparecendo com o passar dos dias, apesar do maquinário levado para o local e dos quase 300 bombeiros, ajudados por cães, que escavam os escombros.

Na manhã desta terça, o número de mortos era de 11 e os desaparecidos passavam dos 150.

- "Investigação em profundidade" -

As primeiras perguntas sobre o estado do prédio, no qual se trabalhava para atualizá-lo de acordo com a norma vigente, apareceram no sábado.

Segundo um estudo de 2020, o edifício tinha sofrido um afundamento "muito sutil" na década de 1990. As autoridades não destacam que essa fosse a causa da catástrofe e o autor deste estudo destacou à CNN não poder saber se o afundamento era "previsível".

Um relatório de 2018 já tinha questionado a integridade do imóvel, ao destacar "danos estruturais importantes" e "rachaduras" nas colunas de cimento no subsolo.

E em uma carta datada de 9 de abril de 2021, a presidente da assembleia de coproprietários mostrou-se alarmada com a "deterioração" crescente.

À AFP, Janette Agüero disse que "a garagem sempre parecia estar em mau estado, tinha rachaduras, estava inundada todo o tempo".

As autoridades prometeram uma "investigação minuciosa e completa", enquanto há inquietação sobre o complexo "irmão" de Champlain Towers North, construído na mesma época pela mesma empresa a um quarteirão de distância.

O presidente americano, Joe Biden, anunciou que visitará Surfside na quinta-feira.


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