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Estado de Minas TEERÃ

A solidão de um casal reformista em colégio eleitoral em Teerã


18/06/2021 15:02

O colégio eleitoral situado na mesquita Hoseinié Ershad em Teerã, um reduto reformista, passou para o lado ultraconservador nesta sexta-feira (18), a julgar pelos comentários dos eleitores de Ebrahim Raisi, grande favorito nas eleições presidenciais iranianas.

"Raisi é um homem que realmente ama o povo iraniano e faz o melhor pela nação. O que mais queremos?". Com lágrimas nos olhos, Yalda, que trabalha para uma seguradora, fala com uma mulher, coberta como ela com um xador preto, para convencê-la a votar no líder da autoridade judicial.

Quando os jornalistas da AFP perguntaram a essa mulher de 35 anos por que não escolheu outro candidato, dois homens rapidamente entraram na conversa.

"Os outros querem continuar o caminho [do presidente em fim de mandato Hassan] Rohani", afirma um deles.

"Eles só querem encher os bolsos", diz outro.

Uma das peculiaridades do sistema eleitoral iraniano é que você pode escolher votar em qualquer colégio eleitoral.

Por quase um quarto de século, a imensa mesquita Hoseinié Ershad, onde lecionou Ali Shariati, um teórico xiita da Revolução Islâmica de 1979, foi ponto de encontro de militantes reformistas, estudantes, intelectuais e do clero progressista durante as eleições.

Mas neste ano, as poucas pesquisas disponíveis apontam para uma vitória confortável de Raisi no primeiro turno, com um alto número de abstenções.

E neste local de culto, coroado por uma elegante cúpula turquesa e paredes muito decoradas, localizado em um dos bairros mais ricos do norte de Teerã, percebe-se outro tipo de população, oriunda das classes populares e apegada à religião.

O candidato reformista, Abdolnaser Hemmati, sentiu-se um pouco solitário quando votou pela manhã.

Mohamad Reza, um veterinário de 28 anos, explica que nunca votou, mas decidiu votar desta vez.

- "Última oportunidade" -

Raisi, afirma ele, é "a última oportunidade do sistema". "Se ele não conseguir resolver os problemas [do país], ninguém conseguirá".

O candidato moderado Hassan Rohani, reeleito de forma ampla em 2017, deixará o poder em agosto e encerrará seu segundo mandato com um altíssimo nível de impopularidade.

Sua política de abertura ao Ocidente criou muitas expectativas, mas decepcionou ainda mais depois da decisão do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, de se retirar do acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano em 2018 e impor as sanções econômicas que afundaram a economia do país.

O eleitorado reformista que apoiou Rohani o censurou por não fazer o suficiente para cumprir suas promessas de liberalizar a sociedade.

O estudante Mohamad Mehdi, morador do bairro rico de Qolhak, não parece ser o eleitor típico de Raisi.

Ele explica que até esta manhã estava discutindo com sua família, que queria convencê-lo a "pelo menos votar em branco" se ele realmente quisesse votar.

"Raisi tem insistido muito no desemprego entre jovens [...]. Sou jovem e quero ter um trabalho no futuro", ressalta Mehdi, de 18 anos.

Nas filas de espera para votar estão alguns eleitores de Hemmati, como o casal Mojtaba e Forough, que veio com o filho de cinco anos. Mas eles são poucos.

Ele diz que se recusa a ceder aos apelos da oposição no exílio para um boicote à votação.

"Eu entendo aqueles que não votam", admite Mojtaba. "Eles estão insatisfeitos porque a situação é difícil [mas] vim defender o único voto que tenho".

"Também temos grandes problemas econômicos", conta sua esposa, Forough, fazendo menção à pequena fábrica que o casal acaba de abrir perto de Teerã. Porém, para resolvê-los, ela conta com o governo de Hemmati, um ex-presidente do Banco Central.


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