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Estado de Minas BANGCOC

Poetas birmaneses enfrentam a junta militar com a palavra


06/06/2021 13:15

Antes de ser morto, os versos de Khet Thi arremetiam contra o golpe de Estado em Mianmar, assim como vários poetas celebrando os manifestantes pró-democracia e desafiando a guerra brutal dos militares contra a palavra.

Zaw Tun, cujo nome artístico era Khet Thi, implorava ao público que permanecesse firme contra o que ele via como uma ameaça existencial para o futuro do país, enquanto os soldados reprimiam violentamente os oponentes do golpe.

"Temos que lutar para vencer essa batalha", escreveu. "Se perdermos: Coreia do Norte. Se vencermos: Coreia do Sul", disse.

A polícia e soldados cercaram a casa que Khet Thi compartilhava com sua esposa e família na cidade central de Shwebo em maio.

O poeta, que fazia bolos e sorvetes para sustentar a família, foi acusado de planejar uma série de ataques explosivos.

No dia seguinte, sua esposa Chaw Su foi chamada a um hospital em Monywa, a 80 km de distância.

"Achei que poderia levar roupas para ele", disse à AFP. Mas não foi necessário, porque um policial disse a ela que seu marido estava morto.

Mianmar está em crise desde o golpe de fevereiro, que pôs fim a uma experiência democrática que aliviou a censura e permitiu mais liberdade de expressão.

Enquanto alguns manifestantes se armavam com rifles de caça e estilingues, poetas como Khet Thi aderiram à luta contra o golpe à sua maneira, ao lado de uma população que não quer perder suas liberdades democráticas.

Além da repressão nas ruas, a junta militar tem buscado reprimir a dissidência com bloqueios na internet e a prisão de celebridades e funcionários públicos que convocam a rebelião.

Um vídeo postado no Facebook nas primeiras semanas após o golpe mostrou imagens de manifestantes recitando poemas contra os militares.

- Fúria, desconfiança, tristeza -

A poesia desempenhou um papel central na luta pela independência de Mianmar contra o poder colonial britânico, bem como nas décadas de regime militar que se seguiram, quando vários escritores foram transformados em prisioneiros políticos.

O poeta Ko Ko Thett, radicado no Reino Unido, acredita que as pessoas comuns, "oprimidas pela fúria, desconfiança e dor" contra o golpe militar, se identificam com os versos.

Ele parou de escrever para se concentrar na tradução de obras de outros poetas que escreveram a partir de Mianmar desde o golpe, muitos dos quais foram assassinados, como Khet Thi.

Entre eles os professores Myint Myint Zin e K Za Win, que foram mortos na brutal repressão militar aos manifestantes em Monywa.

As imagens das forças de segurança arrastando o corpo de K Za Win se tornaram virais nas redes sociais.

A transição para a democracia "libertou" a poesia birmanesa, tornando-a "mais diversa em forma e conteúdo, e mais abertamente política", comentou Ko Ko Thett.

Muitos se mobilizaram online em sua batalha contra a junta, incluindo um coletivo clandestino de 30 poetas de todo o país que espalham seus versos no Facebook.

"Há muitos crimes contra a humanidade (em Mianmar) e os poetas nesta situação vivem com lágrimas a cada respiração", disse à AFP um escritor que pediu para não ser identificado por medo de sua segurança.

Ko Ko Thett disse que ficou "entorpecido de dor" com a morte de seus colegas poetas.

Todos eles "deveriam ter sido reconhecidos por sua poesia, mas só apareceram na imprensa internacional após serem mortos", lamentou.

Khet Thi compôs um verso duas semanas após o golpe para declarar que não queria ser um mártir ou um herói. "Não quero apoiar a violência" da junta, escreveu ele. "Se eu só tiver um minuto de vida, quero ter uma consciência tranquila, mesmo que seja apenas por esse minuto."


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