Jornal Estado de Minas

FNIDEQ

Volta a calma na fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta

Palco de um grande fluxo de migrantes, muitos deles imediatamente devolvidos, a zona fronteiriça entre Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta voltou a acalmar-se nesta quinta-feira (20), após confrontos entre jovens que pretendem atravessar e a polícia marroquina

Esta manhã, a situação era calma na zona fronteiriça. Guardada pelas forças marroquinas, a cidade de Fnideq (nome árabe para Castillejos) estava deserta,

Segundo informações recolhidas no local por um jornalista da AFP, cerca de 1.500 pessoas foram repatriadas para os seus municípios de origem no início da tarde.



Do outro lado da fronteira, o fluxo parou, não sendo possível ver os migrantes que tentavam chegar à praia em Ceuta. À tarde, porém, a polícia recolheu ali um cadáver flutuante, sem poder especificar há quanto tempo estava sem vida, naquela que seria a segunda morte nesta crise.

Desde segunda-feira, 8.000 migrantes entraram em Ceuta, graças ao relaxamento do controle do lado marroquino, em meio de uma disputa diplomática entre Rabat e Madri pela assistência médica prestada pela Espanha ao líder separatista do Saara Ocidental - território que Marrocos considera como seu.

As autoridades espanholas elevaram ainda mais o tom, denunciando uma "agressão" e uma "chantagem" por parte de Rabat, embora no terreno, as relações parecem estar se reconstruindo timidamente para acelerar o retorno dos migrantes.

Mais de 6.000 já foram devolvidos ao Marrocos e, segundo fontes policiais questionadas pela AFP, os dois países "chegaram a um acordo para formalizar o que estava acontecendo na prática e os adultos que entraram estão sendo devolvidos por grupos".



Mas esse retorno não extingue as esperanças de muitos. "Um dia tentarei a sorte novamente e terei sucesso", estimou Hassan, de 17 anos, que "sonha em morar na Europa".

- Confrontos no lado marroquino -

Descalços, ou de chinelos, com a roupa suja, ou puída, milhares de pessoas, a maioria jovens, tentaram entrar em Ceuta. Junto com Melilla, este pequeno enclave de 84.000 habitantes constitui a única fronteira terrestre entre a União Europeia e a África.

Um episódio violento ocorreu em Castillejos nesta madrugada, quando mil jovens marroquinos atiraram pedras nas forças da ordem marroquinas e as obrigaram a recuar. Na sequência, atearam fogo a uma motocicleta.

Também nesta madrugada, em Melilla, cerca de 100 migrantes tentaram, sem sucesso, pular a cerca da fronteira, informaean as autoridades locais, na terceira tentativa semelhante desde terça-feira, quando 86 pessoas de um grupo de 300 conseguiram entrar.

A Espanha, que recebeu apoio das altas autoridades europeias, aumentou a pressão sobre Rabat, um parceiro-chave no controle do fluxo migratório.

"Não é apenas uma agressão às fronteiras espanholas, mas às fronteiras da União Europeia", denunciou a ministra espanhola da Defesa, Margarita Robles, que acusou o Marrocos de "pôr a vida de menores em risco", deixando-lhes o caminho livre para nadarem até Ceuta.



- "Jogo duplo" -

Rabat, manteve dias de silêncio sobre este assunto, relacionou diratamente a crise migratória com a hospitalização na Espanha de Brahim Ghali, o líder do movimento de independência saarauí Frente Polisário, apoiado pela Argélia.

"O Marrocos não aceita a linguagem dupla e o jogo duplo de Madri", disse o chanceler marroquino, Nasser Bourita, à agência oficial MAP.

"A verdadeira origem da crise é a recepção por Madri sob uma falsa identidade do chefe separatista das milícias de Polisario", acrescentou.

A Espanha insiste em que a decisão de receber Ghali é por razões "humanitárias". Reiterou ainda que não mudou sua posição em relação ao Saara Ocidental, uma ex-colônia espanhola, e que manterá sua neutralidade e respeitará as resoluções das Nações Unidas.

Diante desta crise na fronteira, várias ONGs espanholas e marroquinas criticaram a presença de menores e sua utilização em um "jogo político", enquanto questionavam, ao mesmo tempo, sua expulsão de volta para o Marrocos.

A Anistia Internacional condenou que os migrantes estejam "sendo usados como peões" neste "jogo político" entre Madri e Rabat. Segundo esta ONG, cerca de 2.000 menores desacompanhados teriam entrado em Ceuta.

A delegação do governo espanhol em Ceuta disse quinta-feira à AFP que 800 dos 1.500 menores que entraram permanecem em Ceuta, visto que "muitos regressaram voluntariamente".



audima