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Estado de Minas LIMA

Contaminação com minerais tóxicos ameaça indígenas no Peru


18/05/2021 14:43 - atualizado 18/05/2021 14:49

Cerca de 8.000 indígenas peruanos têm altos níveis de chumbo, arsênio e mercúrio em seus corpos, provenientes das atividades de mineração perto de suas aldeias na província de Espinar, no sul, de acordo com um relatório divulgado nesta terça-feira (18) pela Anistia Internacional.

"Níveis de metais e substâncias tóxicas (chumbo, cádmio, arsênico, mercúrio e manganês) foram encontrados nos participantes do estudo, o que mostra o risco à saúde a que estão expostas as comunidades indígenas de Espinar", diz o relatório, fruto de uma investigação de três anos.

"Existem 11 comunidades indígenas na área de impacto socioambiental da mineração, atingindo cerca de 8.000 pessoas", explicou à AFP a chefe da investigação, María José Veramendi.

Com exceção do manganês, que é útil para o corpo humano, a presença desses metais no organismo "pode causar diversos tipos de doenças, náuseas, vômitos, alguns tipos de câncer e problemas hepáticos", acrescentou.

"Embora não possamos associar o sintoma com a consequência de sermos expostos, chama a atenção identificar a correlação".

A investigação incluiu a análise de metais e substâncias tóxicas numa amostra de 150 voluntários e da qualidade da água em 292 pontos da área.

- País minerador -

O Peru é um dos maiores produtores mundiais de cobre, ouro, prata, zinco e chumbo.

A mineração contribuiu com 16% do investimento privado na última década (cerca de 59 bilhões de dólares), gera 1,8 milhão de empregos diretos e indiretos e representa quase 60% das exportações.

Veramendi exortou as autoridades sanitárias a "estabelecer um programa permanente de vigilância epidemiológica em Espinar, para determinar o impacto total em toda a população exposta".

A pesquisadora explica que foram realizadas entrevistas individuais durante o estudo, nas quais os residentes relataram sintomas como dores de cabeça, problemas nos rins, próstata e dentários; doenças estomacais e até tumores cancerígenos em duas pessoas.

Espinar é uma província do departamento andino de Cusco, onde está localizada a cidade homônima - a antiga capital do Império Inca - e também a cidadela inca de Machu Picchu, principal atração turística peruana.

- Conflito prolongado -

A agitação social nas comunidades próximas às áreas de mineração ou produção de hidrocarbonetos resultou no Peru em dezenas de conflitos e em episódios de violência.

Em 2015, várias províncias do sul do Peru, incluindo Espinar, foram declaradas em estado de emergência após protestos que deixaram quatro mortos, em rejeição a certas atividades do projeto de cobre Las Bambas, o maior do Peru, sob o argumento de que seriam poluentes.

Segundo dados de março de 2021, os conflitos na mineração representam a maior parte das disputas socioambientais e 41% de todos os conflitos sociais do país.

No final de 2020, a justiça peruana determinou que o governo nacional e o governo regional de Cusco eram responsáveis pelos problemas de saúde pública em Espinar e deveriam executar um plano de emergência para resolvê-los.

"As autoridades devem assumir a liderança para resolver a grave crise de saúde em Espinar e, em particular, garantir a implementação da Estratégia de Emergência ordenada pelo Judiciário em dezembro de 2020", disse Marina Navarro, diretora executiva da Anistia no Peru.

"Não pode ser normalizado que as pessoas vivam com metais e substâncias tóxicas em seus corpos", acrescentou Navarro em um comunicado.

A Anistia Internacional lembrou em seu relatório que o Estado peruano reconhece que 10 milhões de seus habitantes, cerca de um terço da população, estão sob risco de exposição a metais pesados, mais de 20% (6,8 milhões de pessoas) a metaloides como o arsênio, e mais de 6% (dois milhões de pessoas) aos hidrocarbonetos.

A população de Espinar "vive uma dupla emergência com a contaminação e a covid-19", disse Navarro.

Veramendi, por sua vez, afirmou que "as empresas privadas têm a obrigação de não violar os direitos humanos das populações, sendo fundamental ao Estado fiscalizar a responsabilidade corporativa e zelar pelos direitos das pessoas".

Também exigiu mais transparência nas informações técnicas sobre a gestão ambiental das empresas.


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