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Estado de Minas BOGOTÁ

Milhares protestam pelo quarto dia consecutivo contra reforma tributária na Colômbia


01/05/2021 19:25 - atualizado 01/05/2021 19:25

Milhares de pessoas se manifestam neste sábado (1), pelo quarto dia consecutivo, na Colômbia para exigir a suspensão de uma reforma tributária que, afirmam, pune a classe média em meio à pandemia, enquanto as denúncias de abusos da força pública durante os protestos se multiplicam.

O anúncio feito na véspera de que o presidente Iván Duque reformulará o projeto, retirando as propostas mais polêmicas, como o aumento do IVA sobre bens e serviços, não acalmou os manifestantes convocados pelo Comitê Nacional de Desemprego.

"Não basta apenas retrair a reforma. (Foi) a cereja do bolo, mas sobretudo a gestão dada à pandemia e tudo o que aconteceu com este governo simplesmente explodiu na nossa cara (...) Somos contra todas as políticas deste governo", disse à AFP María Teresa Flores, filósofa de 27 anos, em Bogotá.

No meio da terceira onda de covid-19, sindicatos, estudantes, indígenas, oposição e outras organizações da sociedade civil mais uma vez tomaram as ruas das principais cidades do país no Dia Internacional dos Trabalhadores, ao som de panelaços.

"É incrível que nesta crise que vivemos, nesta violência que atravessa o país", um governo decide "fazer uma reforma tributária (que) acaba empobrecendo ainda mais a população", disse Julián Naranjo, administrador ambiental em Bogotá, à AFP.

Além da capital, ocorrem manifestações em Medellín (noroeste), Cali (sudoeste), assim como em Barranquilla e Cartagena (norte), e em cidades intermediárias.

A reforma, proposta como uma forma de aliviar a economia da quarta economia da América Latina, suscitou o repúdio de milhares de pessoas que foram às ruas protestar na quarta-feira, e inclusive o partido do governo lhe fez reparos.

Nos dias seguintes, os protestos foram mantidos de forma menos concorrida e neste sábado, foram retomados com maior intensidade.

- Silêncio oficial -

Junto com os protestos, fortes distúrbios foram registrados no centro e no sudoeste do país. Em resposta, o governo decidiu militarizar a cidade de Cali, capital de 2,2 milhões de habitantes do Vale do Cauca, com a chegada de cerca de 3.000 soldados e policiais.

Daquela cidade, o ministro da Defesa, Diego Molano, denunciou que os excessos foram orquestrados por "organizações criminosas", entre as quais dissidentes que não aceitaram o pacto de paz assinado com a guerrilha das Farc em 2016.

ONGs e oposição multiplicaram denúncias sobre graves violações dos direitos humanos cometidos pela força pública nos protestos e distúrbios, o que o governo nega.

Até o momento, o ministério da Defesa só admitiu uma morte e mantém silêncio sobre o número de civis feridos. O balanço oficial dá conta de 209 policiais feridos, um falecido e 203 prisões realizadas.

Mas o Ministério Público afirmou em um chat de jornalistas que está investigando seis homicídios ocorridos durante os protestos para verificar "se têm ou não relação com o conflito social que está ocorrendo na região".

E a Defensoria do Povo, autônoma, alertou sobre 179 civis feridos e duas mortes em Neiva (centro) e Bogotá.

Enquanto isso, em um pedido de "ação urgente" protocolado no Congresso, 19 parlamentares da oposição informaram que quatro das mortes poderiam ter sido causadas "pelas ações da polícia".

- Abusos -

As denúncias de atropelos reacendem uma lembrança ruim em um país onde, em setembro, a morte de um engenheiro durante um procedimento policial, gravado em vídeo, gerou revoltas contra a brutalidade policial que deixou 500 feridos e uma dezena de mortos.

"Saí para protestar por causa da reforma tributária, mas também (...) pelos abusos da polícia e da ESMAD (tropa de choque) que ocorreram nos últimos dias de marchas (...), pelos quais não podemos ficar calados", disse à AFP Sebastián Huertas, um estudante de direito de 21 anos.

O observatório independente Indepaz ecoou, por sua vez, uma denúncia de abuso sexual que teria sido cometido por um agente durante os protestos.

Com a reforma, o governo pretendia arrecadar cerca de 6,3 bilhões de dólares entre 2022 e 2031 para estabilizar as finanças de um país com desemprego urbano de 16,8% em março, cujo PIB caiu 6,8% em 2020, seu pior desempenho em meio século.

Mas especialistas e oposição asseguram que prejudicou a classe média, buscando, por exemplo, ampliar a base de contribuintes ao imposto de renda em plena pandemia ou aumentar o IVA sobre bens e serviços.

Enquanto isso, a Colômbia enfrenta a terceira onda de contágios por covid-19, que mantém hospitais à beira do colapso e o pessoal sanitário esgotado.

Com mais de 2,8 milhões de contágios e quase 74.000 falecidos registrados desde 6 de março de 2020, o país é, respectivamente, o quarto e o quinto mais afetado da América Latina e do Caribe nos dois aspectos, proporcionalmente à sua população.

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