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Estado de Minas FLORENCIO VARELA

Exaustos e com leitos no limite, médicos argentinos se preparam para a segunda onda de covid


14/04/2021 17:43

Com mais experiência, mas com falta de leitos e exaustos: é assim que os médicos esperam uma explosão de casos de covid-19 na unidade de terapia intensiva de um hospital da província de Buenos Aires.

O ritmo frenético neste setor dedicado aos pacientes críticos de covid-19 não mudou mais de um ano depois que a doença chegou à Argentina.

"O paciente teve um ataque cardíaco", explica uma enfermeira ao médico que inicia seu turno, sob o bipe incessante dos monitores e o chiado dos respiradores artificiais.

"É muito difícil", concordam médicos e enfermeiras que trabalham arduamente para salvar vidas nesta Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital público El Cruce - Dr. Néstor Carlos Kirchner, em uma das regiões mais pobres do sul de Buenos Aires.

"Não paramos desde março, neste momento estamos vendo um repique da curva e uma necessidade crescente de leitos, principalmente para os jovens e em situações muito graves", explica à AFP Nestor Pistillo, chefe da terapia intensiva.

Este hospital de alta complexidade possui 44 leitos para pacientes em estado crítico.

Eles estão "100% ocupados", 24 deles com pacientes com coronavírus. Como no ano passado, há planos de abrir centros de saúde "modulares" para tratar um excesso de casos.

"Se isso continuar aumentando, outras medidas terão que ser tomadas, com o apoio de um comitê de crise", explica Ariel Sáez de Guinoa, diretor do hospital.

- UTI lotadas -

"O principal problema que os pacientes graves têm devido à covid é o tempo prolongado de internação, já tivemos pacientes que ficaram internados por mais de 70 dias", diz Pistillo.

"Os leitos são limitados, no momento do colapso da terapia intensiva haverá um problema sério porque vai haver gente, cada vez mais jovem, em risco de vida", alerta.

Com uma curva de contágio crescente, as unidades de terapia intensiva antecipam o pior. Um novo recorde de 27.001 casos diários foi alcançado na terça-feira, para um total de 2.579.000 infecções e 58.174 mortes.

Atualmente, 71% dos leitos estão ocupados na AMBA (Área Metropolitana de Buenos Aires) e 62% na Argentina, segundo dados oficiais.

O crescimento é desenfreado, somente na cidade de Buenos Aires, os pacientes com coronavírus admitidos na rede pública aumentaram 27% entre 5 e 11 de abril.

"Suspendemos parte das cirurgias, mas isso tem um problema: estamos deixando de operar tumores cerebrais, cirurgias cardíacas, transplantes de órgãos, isso significa que se uma pessoa não morre de covid, morre de outra doença", diz Pistillo.

O médico também está preocupado com a falta de profissionais.

"Os terapeutas não podem ser trocados. Você pode ter um respirador, mas é como ter um carro de Fórmula 1, você precisa de um motorista para dirigi-lo (...) esses pacientes vão ficar muito tempo internados. A qualidade do atendimento é o que define a diferença entre a vida e a morte ", destaca.

- "Quero levar minha filha para casa"-

"Me ajuda doutora, quero levar minha filha para casa", implora uma mulher durante sua visita à terapia intensiva.

Através de um vidro, a mulher olha para a filha de 43 anos, levanta a mão e continua a enxugar os olhos.

A filha está em coma induzido. "Está muito grave", diz Pistillo.

Ao lado dela, um grupo de pessoas ora na frente de seus parentes entubados com respiradores artificiais.

Apenas um homem sai da sala aliviado. Sua mãe irá para cuidados intermediários.

"Sentimos que não tínhamos chance, mas agora, sete dias depois, ele está melhorando", comemora Rafael Porcel.

Muitos dos pacientes neste estágio avançado morrem. Dos que se recuperam, muitos ficam com sequelas graves, como danos cerebrais, problemas respiratórios ou insuficiência renal.

O hospital desenvolveu um programa de "cuidado humanizado" no qual a família é incluída no tratamento do paciente.

"A terapia intensiva é um lugar que não tem luz, que não tem noção do tempo (...) é não perder de vista que não só o paciente é cuidado, mas também a família", diz Yazmín Saad.

A voz da cinesiologista de 33 anos falha.

"Quando eu chego em casa, fecho os olhos e aqueles momentos de intimidade em que você fala para um paciente que vai conectá-lo a um ventilador mecânico (...) Isso quer dizer que talvez eu seja a última pessoa que ele verá" , conta.

"Jamais esquecerei o que esses pacientes me falam naquela hora (...) Essas pessoas são muito mais do que um paciente que precisa de assistência respiratória: é pai, é mãe, o amor da vida de alguém".


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