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Estado de Minas BEIRUTE

Como ficou a autonomia dos curdos da Síria?


09/03/2021 07:35

Durante a guerra na Síria, que começou há uma década, a minoria curda se tornou aliada do Ocidente na luta contra os jihadistas, ao mesmo tempo em que criava uma administração autônoma para controlar regiões do nordeste do país.

Nesta Síria fragmentada, o que o futuro reserva para esta comunidade, marginalizada no passado, mas decidida a defender suas conquistas?

- Guerra na Síria: a grande mudança?

Durante décadas, os curdos denunciaram discriminações do governo central de Damasco. A guerra, iniciada em 2011, obrigou o regime a se concentrar nos rebeldes armados, o que permitiu à minoria se emancipar.

Depois da retirada do exército sírio de seus territórios, os curdos instauraram em 2013 uma "administração autônoma", com uma polícia, uma força militar e escolas onde sua língua é ensinada.

"Antes de 2011, não havia nada que nos desse esperanças. Os curdos estavam totalmente oprimidos. Não tínhamos sequer documentos de identidade", lembra Aldar Jalil, um dos artífices deste projeto de autonomia.

Os curdos controlaram primeiro as regiões desta comunidade e, à medida que as forças curdas progrediam frente ao grupo Estado Islâmico (EI), se expandiram para outras regiões onde vive uma população predominantemente árabe.

Em janeiro de 2015, a milícia curda das Unidades de Proteção Popular (YPG) expulsou o EI da cidade de Kobane, na fronteira com a Turquia.

Com apoio do Ocidente, as YPG assumiram o comando das Forças Democráticas Sírias (FDS), uma coalizão que engloba combatentes árabes e que foi derrotando os jihadistas.

Atualmente, as FDS ainda controlam os principais campos de petróleo no leste.

Quase dois anos depois de terem proclamado, em março de 2019, a queda do "califado" do EI, estas forças mantêm em suas prisões milhares de combatentes da organização ultrarradical.

As famílias (mulheres e filhos) destes jihadistas também estão reclusas em acampamentos em condições miseráveis. Neles estão milhares de estrangeiros considerados indesejáveis em seus países e que os curdos querem que sejam repatriados.

- O que o futuro lhes reserva com Washington como aliado? -

Os curdos apostam há tempos em sua aliança com Washington e na presença de milhares de soldados americanos para protegê-los das ameaças da Turquia, sua vizinha, ou em sua relação com o regime.

Por isso, os anúncios contraditórios do ex-presidente americano Donald Trump sobre uma retirada foram muito impactantes em 2019. Atualmente, restam apenas 900 soldados americanos e não se sabe o que vai acontecer com eles.

Sem o aliado americano, as forças curdas ficarão "muito vulneráveis aos ataques externos", destaca Dareen Khalifa, do International Crisis Group (ICG).

E, segundo ela, o nível da presença americana tampouco os protege de "tentativas de desestabilização".

A autonomia curda irrita Ancara, que considera as YPG "terroristas" e teme que seus exércitos alimentem as aspirações separatistas em seu território.

A Turquia já lançou três ofensivas contra as YPG. Em 2018, assumiu o controle de parte de Afrin e conquistou uma faixa fronteiriça no ano seguinte.

Esta última operação não teria sido possível sem a retirada americana do setor, razão pela qual se considerou uma luz verde de Donald Trump.

"A abordagem" do governo de Joe Biden "será um pouco diferente", espera Khalil. "Mas não podemos contar com eles. Suas políticas não estão garantidas", acrescenta.

A nomeação na Casa Branca de Brett McGurk como coordenador para o Oriente Médio é um sinal positivo. Sob o mandato de Trump, este ex-emissário junto à coalizão internacional antijihadista criticou duramente a retirada da Síria.

Khalifa reconhece que o debate se centra "no destino das FDS". Em Washington, para além das divisões entre partidos, nota-se "uma sensação de cansaço em relação à Síria junto com o temor de permanecer bloqueado em 'guerras sem fim'".

- Possível reconciliação com o regime? -

Para deter a ofensiva de Ancara em 2019, os curdos alcançaram um acordo com o regime e seu aliado russo, que enviou tropas para os territórios da minoria, embora as FDS continuem controlando-os.

"Os curdos da Síria sempre preferiram o governo sírio à Turquia", afirma o analista Mutlu Civiroglu.

Mas as negociações para determinar o destino das regiões curdas nunca deram resultado. O regime acusa os curdos de terem ambições separatistas, o que eles negam. A minoria quer preservar suas conquistas e Damasco exige um retorno à situação anterior à guerra.

O diálogo continua em aberto. Mas "o regime continua sem estar convencido de que deva dar um passo adiante e aceitar alguns ajustes", lamenta Aldar Khalil.


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