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Estado de Minas OKUMA

Reverendo de Fukushima reza pelo retorno de igreja atingida pela radiação


09/03/2021 06:03

O reverendo Akira Sato sonha em ouvir hinos ecoarem mais uma vez na igreja que foi forçado a deixar para trás após o desastre nuclear de Fukushima Daiichi, uma década atrás.

Dez anos depois que um tsunami sobrecarregou os sistemas de resfriamento da usina vizinha, levando-a ao colapso, a Primeira Igreja Batista Bíblica de Fukushima é uma carcaça assombrada por memórias.

"No passado, quando eu voltava aqui e olhava ao redor, não conseguia parar de chorar", contou Sato em uma visita à igreja na cidade de Okuma, a cinco quilômetros da usina danificada.

Ela fica na área de cerca de dois por cento da prefeitura de Fukushima que ainda é uma zona proibida por causa da radiação.

Os visitantes precisam de permissão para entrar e, para isso, devem usar trajes de plástico cobrindo o corpo e bolsas sobre os sapatos e cabelo.

Na igreja, que já recebeu uma congregação de dúzias de pessoas, o tempo parou.

Um aviso de um culto dominical que nunca foi celebrado ainda está afixado em um painel no portão de aço da entrada. Acima veem-se uma cruz danificada e um sino enferrujado.

Lá dentro, um raio de sol ilumina bancos vazios.

O silêncio é quebrado apenas pelo alarme de um contador Geiger indicando focos de radiação no templo.

A igreja de telhado íngreme é cercada por vastos terrenos baldios pertencentes a vizinhos que foram forçados a destruir casas que se tornaram inabitáveis pelo terremoto ou pela radiação.

Dentro da capela, várias bíblias e hinários estão em um pódio ao lado de um órgão que não é tocado desde o desastre.

O reverendo de 63 anos estava fora de Fukushima quando o terremoto aconteceu, e coube ao pastor Masashi Sato guiar dúzias de fiéis para longe da igreja de Okuma.

"Eu saí carregando apenas algumas garrafas de água e a Bíblia", disse o pastor, que não tem relação com o reverendo.

- "Por que isso aconteceu?" -

Ao deixar a região, ele sentiu que vivia "uma tribulação enviada por Deus".

"Eu perguntava a Deus: 'Por que isso aconteceu? O que isso significa? O que vai acontecer conosco?'", recordou o homem de 44 anos.

Após o desastre, a maior parte dos fiéis decidiu permanecer unida.

O reverendo Sato se juntou a eles e eles embarcaram em um êxodo de um ano - mudando-se de Aizu, no oeste de Fukushima, para a região de Yamagata, descendo para Tóquio e, finalmente, estabelecendo-se no distrito de Izumi, na cidade de Iwaki.

Seu destino final era a apenas 50 quilômetros da igreja que haviam deixado para trás, mas eles viajaram por mais de 700 quilômetros antes de se firmarem lá.

Um paroquiano foi morto no tsunami e vários morreram após a evacuação. Outros sofreram discriminação por causa de rumores de que pessoas de Fukushima poderiam "infectar" outras com radiação.

Harumi Mottate, um membro de 83 anos da igreja, relembra a época como "um teste".

"Foi um ano turbulento", disse à AFP Mottate, que foi evacuado em um caminhão militar.

"Eu fui privado da minha vida diária em Okuma de repente. Se eu não tivesse fé, teria ficado ressentido com o que aconteceu comigo."

Estima-se que os cristãos representam apenas 1,5% dos 126 milhões de habitantes do Japão, a maioria dos quais pratica uma mistura de xintoísmo e budismo.

As comunidades estão espalhadas pelo país, e a história da igreja de Fukushima remonta a 1947, quando um missionário batista americano migrou para a região e acabou estabelecendo uma pequena congregação.

Os paroquianos deslocados realizaram sua primeira missa na nova igreja em Izumi em 2013, e sua congregação agora inclui novos membros.

Hiroshi Hiruma, de 84 anos, juntou-se à igreja depois de ser forçado a abandonar sua casa contaminada na cidade de Tomioka, perto de Okuma.

"Achei que Tomioka seria minha última cidade, mas não tenho mais para onde voltar", afirmou Hiruma. "Mesmo se eu quisesse voltar, não posso."

- "Uma terra abençoada por Deus" -

Ele agora se estabeleceu em Izumi, em parte graças à nova igreja, um prédio moderno com vitrais nas janelas.

Dezenas de cristãos ocupam os bancos durante os cultos, lendo passagens da Bíblia e cantando hinos acompanhados por um piano e um órgão. O calor e a comunidade contrastam fortemente com o vazio solitário da velha igreja.

"Eu me acostumei a este lugar", disse Hiruma após uma recente missa de domingo. "Esta é minha morada final".

O reverendo Sato também havia considerado terminar sua jornada em Izumi, mas agora sente que ainda não está totalmente em casa e quer retornar a Okuma.

"Posso construir uma cabana e passar o resto da minha vida lá", declarou o reverendo de cabelos grisalhos.

"Apreciar cada palavra da Bíblia e realizar missas reconfortantes e humildes: esses são meus sonhos para o futuro".

Ele não poderá voltar permanentemente até pelo menos o próximo ano, quando as autoridades planejam suspender as restrições após a descontaminação do bairro da antiga igreja. Mas ele está esperançoso.

"Acredito que Fukushima é uma terra abençoada por Deus. Pela dor e tristeza que passamos, acredito que teremos a bênção de Deus duas ou três vezes mais do que em qualquer outro lugar", declarou.


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