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Estado de Minas QARAQOSH

Em Qaraqosh, assolada por extremistas com bandeiras pretas, mil cores recebem o papa


07/03/2021 09:02

Sete anos atrás, Munir Jibrail deixou Qaraqosh quando os extremistas islâmicos plantaram ali sua bandeira preta. Hoje, este cristão do norte do Iraque voltou e aguarda o papa todo vestido de branco.

"É maravilhoso ver o papa! Nunca teria imaginado que ele chegaria a Qaraqosh", que foi destruída junto com sua igreja pelo grupo Estado Islâmico (EI), disse à AFP o professor de matemática de 61 anos.

"Talvez isso ajude o país a se reconstruir e, finalmente, nos traga amor e paz", declarou, enquanto todos ao seu redor se animam com a primeira visita de um papa ao Iraque.

O pontífice de 84 anos entrou em Qaraqosh em meio a uma multidão agitando palmeiras e ramos de oliveira. Um símbolo de paz necessário aos moradores, que no verão de 2014 viram chegar as caminhonetes com as bandeiras pretas do EI.

Em poucos dias, quase todos os 55.000 cristãos da cidade partiram. Como Munir Jibrail, a grande maioria foi para o leste, para o Curdistão iraquiano.

Por três anos, perderam sua cidade, onde os extremistas tentaram apagar qualquer vestígio dos cristãos que estiveram ali por séculos.

- Vestidos de cores -

Em 2016, imediatamente após a libertação, Mounir Jibrail voltou e demorou quatro anos para reconstruir sua casa.

Atualmente, cerca de 26.000 cristãos estão de volta a Qaraqosh e centenas deles estão agora no caminho do papa para a igreja Al Tahira (Imaculada Conceição), renovada e limpa de cima a baixo para a ocasião.

Dentro, entre os sortudos que conseguiram um ingresso para o Angelus deste domingo, há mulheres com trajes tradicionais coloridos, crianças com máscaras carregando rosas e homens em seus ternos dominicais.

Por causa do coronavírus, dois homens de macacão azul mediram a temperatura na entrada.

E se a alegria é tão intensa é porque as lembranças dolorosas não estão longe.

Neste mesmo lugar, os jihadistas impuseram seus castigos atrozes, seu regime brutal e medieval, com mercados de escravos e açoites públicos.

- "Não desanimem" -

"O caminho para uma recuperação total ainda pode ser longo, mas peço-lhe, por favor, que não desanimem", disse o chefe de 1,3 bilhão de católicos em todo o mundo.

"É preciso capacidade de perdoar e, ao mesmo tempo, coragem para lutar", exortou Francisco, em um país onde as tensões religiosas ainda estão latentes.

Amal Ezzo, diretora de uma escola católica em Qaraqosh, diz que os cristãos, como todas as vítimas do EI, não têm o apoio das autoridades de Bagdá, atoladas na pior crise econômica da história do país.

"Agora é a hora de reconstruir e recomeçar", disse o papa.

Mas, de acordo com Amal Ezzo, "o governo não nos ajudou a reconstruir nossas casas, foram as organizações internacionais que o fizeram".

Na assembleia, as mulheres são mais numerosas e, sobretudo, mais visíveis com suas roupas coloridas decoradas com lantejoulas de todos os tons.

O papa deu atenção especial a elas. "Gostaria de agradecer de coração a todas as mães e mulheres deste país, mulheres corajosas que continuam a dar vida, apesar dos abusos e injúrias. Que as mulheres sejam respeitadas e defendidas! Que elas recebam cuidados e oportunidades!", declarou o papa.

No Iraque, a taxa de emprego das mulheres é uma das mais baixas do mundo e em uma em cada dez famílias uma mulher lidera, em um país dilacerado por 40 anos por guerras que muitas vezes levaram um pai, um marido ou um filho.

Para o padre Ephrem Azar, um dominicano presente em Al Tahira, os iraquianos estão finalmente ouvindo "um homem que diz coisas verdadeiras e simples".

Mas todos os desafios terão que esperar. Hoje, disse o cardeal Louis Sako, que há anos trabalha nesta visita, "celebramos o retorno depois do êxodo".


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