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Estado de Minas MADRI

Do exílio, rei emérito espanhol paga dívida fiscal e desgasta sua imagem


26/02/2021 11:34 - atualizado 26/02/2021 11:39

O rei emérito Juan Carlos I, exilado em Abu Dhabi e cercado por investigações judiciais, pagou de forma voluntária ao fisco espanhol quase 4,4 milhões de euros (5,3 milhões de dólares) para regularizar sua situação - informou seu advogado nesta sexta-feira (26), referindo-se a uma operação para evitar um processo judicial, mas que desgasta ainda mais a imagem da monarquia.

"Juan Carlos me deu instruções para tornar público que procedeu à apresentação (...) de uma declaração sem requerimento prévio de qualquer tipo, da qual resultou uma dívida tributária, já paga, de 4,395 milhões de euros", afirmou o advogado em um comunicado, que confirma informações da imprensa.

O pagamento pretende liquidar os impostos que o ex-chefe de Estado (1975-2014) deveria ter pago pelos voos em jatos particulares foram financiados por uma fundação com sede em Liechtenstein pertencente a um de seus primos.

"Sinto a mesma rejeição que a maioria dos cidadãos espanhóis diante das condutas incivis que estamos conhecendo", reagiu, com palavras duras, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.

Ao mesmo tempo, o líder socialista deixou claro que o "que se questiona é o comportamento de uma pessoa", e não da Coroa como instituição, assegurando que o atual rei, Felipe VI, tem todo seu apoio.

No trono desde a abdicação de Juan Carlos em 2014, Felipe VI estabeleceu distância do pai. Em março do ano passado, renunciou a sua herança e retirou do monarca emérito sua renda anual.

Esta é a segunda vez que o rei emérito, de 83 anos, faz um pagamento para liquidar dívidas fiscais.

Em dezembro, ele pagou 680.000 euros (820.000 dólares) ao fisco, uma regularização relacionada com uma investigação anticorrupção sobre o uso, por parte do rei emérito, de cartões de créditos pagos por contas de terceiros: um empresário mexicano e um coronel da Aeronáutica espanhola.

Se não tivesse feito o pagamento, ele poderia ter cometido lavagem de dinheiro, em fatos que também teriam ocorrido após 2014, data a partir da qual perdeu a imunidade como chefe de Estado por abdicação.

Regularizando sua situação junto ao fisco, o rei emérito pretende evitar processos judiciais. A Justiça, que deve ainda determinar a origem dos fundos usados para a liquidação, ainda não se pronunciou.

No exílio desde agosto nos Emirados Árabes, em meio a crescentes suspeitas sobre a origem de sua fortuna, Juan Carlos está envolvido em três investigações judiciais.

A principal delas, aberta pela Justiça espanhola depois de uma investigação iniciada pela Justiça da Suíça, busca determinar se o então monarca recebeu uma "comissão" pela atribuição a um consórcio de empresas espanholas em 2011 de um contrato de trem de alta velocidade na Arábia Saudita.

A investigação decorre de uma informação divulgada pelo jornal suíço La Tribune de Genève sobre uma transferência de 100 milhões de dólares do rei saudita Abdullah para Juan Carlos, em 2008, em uma conta bancária em Genebra. O rei enviou posteriormente 65 milhões de euros (US$ 77 milhões) para sua ex-amante, Corinna Larsen, em um paraíso fiscal.

Em outro caso, investiga-se uma suspeita de lavagem de dinheiro, ligada, segundo a imprensa espanhola, a uma estrutura com milhões de euros em paraísos fiscais.

Para a cientista política da Universidade de Zaragoza Cristina Monge, esta nova regularização fiscal "volta a manchar a sua imagem", poucos dias depois de Juan Carlos não comparecer na terça-feira à cerimônia oficial do 40º aniversário do golpe de Estado fracassado de 23 de fevereiro de 1981. O episódio abriu o caminho democrático na Espanha.

Juan Carlos desempenhou um papel fundamental para abortar a tentativa, forjando sua imagem de "rei da democracia", muito distante dos escândalos que obscureceram a fase final de seu reinado.

Em um plano mais político, as novas notícias sobre Juan Carlos podem "complicar" a relação do Partido Socialista (PSOE) de Pedro Sánchez com seu parceiro minoritário no governo, a esquerda radical do Podemos, segundo Monge.

Preocupado com as revelações sobre o rei emérito e seu impacto na opinião pública, "o PSOE tem uma posição de partido de Estado" e é prudente nas suas posições, aponta a cientista política.

"Ele ainda é um cidadão que tem que prestar contas", mas, de qualquer modo, não é uma "boa notícia", avaliou nesta sexta a vice-presidente do governo, a socialista Carmen Calvo.

Um partido abertamente republicano, o Podemos não poupou críticas.

"É uma vergonha que o rei emérito continue a pagar milhões 'voluntariamente' ao Tesouro que ele deveria ter declarado anos atrás", disse um de seus deputados, Gerardo Pisarello, para quem a Justiça está "consentindo, grosseiramente, com sua impunidade".


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