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Estado de Minas ESTADOS UNIDOS

Biden tomará posse nos EUA com a proposta de unir e curar a nação

Empossado, hoje, como 46º presidente norte-americano, Joe Biden terá a missão de comandar país dividido por ódio e polarização


20/01/2021 04:00 - atualizado 20/01/2021 07:25

A vice-presidente Kamala Harris discursa no Memorial Lincoln, observada por Joe Biden e a mulher Jill, na chegada ontem a Washington. 'Começamos, nesta noite, o período de cura, juntos', disse ela (foto: Chip Somodevilla/Getty Images/AFP)
A vice-presidente Kamala Harris discursa no Memorial Lincoln, observada por Joe Biden e a mulher Jill, na chegada ontem a Washington. 'Começamos, nesta noite, o período de cura, juntos', disse ela (foto: Chip Somodevilla/Getty Images/AFP)

Quando depositar a mão esquerda sobre a Bíblia – relíquia da família desde 1893 – e se tornar o 46º presidente dos Estados Unidos, nas escadarias do Capitólio, Joe Biden assumirá o compromisso de trabalhar pela reunificação de um país dividido pelo ódio e pelas divergências políticas. Uma nação enlutada pela pandemia da COVID-19, que ultrapassou, ontem, 400 mil mortes. O democrata de 78 anos, 49 deles dedicado à política, não pretende perder tempo: ainda hoje, deverá assinar um pacote de decretos executivos para reverter medidas polêmicas anunciadas pelo republicano Donald Trump.
 
A posse (veja o quadro) será diferente das cerimônias que envolveram todos os antecessores. O risco de manifestações violentas ou mesmo de um atentado à vida de Biden levou à militarização de Washington. Mais de 25 mil agentes da Guarda Nacional patrulham pontos sensíveis da capital, à sombra da invasão ao complexo do Congresso, há duas semanas. No National Mall, a esplanada que se estende do Capitólio ao Lincoln Memorial, a multidão dará lugar a 200 mil pequenas bandeiras dos EUA, as quais simbolizarão o povo.
 
A previsão é de que, a partir de hoje, a Casa Branca se distancie da política “America First” (“Estados Unidos em primeiro lugar”), priorize a construção de alianças e faça acenos positivos ao Irã. Biden prometeu que, “no primeiro dia de mandato”, colocaria os EUA de volta ao Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Em um simbólico gesto de conciliação, ele convidou líderes do Congresso, republicanos e democratas, a acompanhá-lo em uma missa a ser celebrada na manhã de hoje, na Catedral de São Mateus, em Washington.
 
Logo depois de desembarcar na capital, o futuro presidente dos Estados Unidos e a vice, Kamala Harris, participaram de um tributo às vítimas da COVID-19, diante do Memorial Lincoln. “Para curar, nós devemos lembrar. E é difícil lembrar, algumas vezes. Mas, é assim que curamos. É importante fazer isso como nação. Entre o pôr do sol e o crepúsculo, vamos iluminar a escuridão para lembrar de tudo o que perdemos”, disse Biden, enquanto velas eram acesas dos dois lados do espelho d'água do National Mall. Kamala fez um discurso no mesmo tom. “Começamos, nesta noite, o período de cura, juntos”, declarou a primeira mulher negra e de ascendência indiana a ocupar o segundo posto mais importante dos EUA.
 
Ainda em Delaware, antes de seguir para Washington, Biden não conteve a emoção. Enxugou os olhos ante dezenas de convidados, durante homenagem da Guarda Nacional ao filho Beau, morto de câncer em 2015. “É profundamente pessoal que nossa jornada para Washington comece aqui. Só lamento que ele não esteja aqui. Porque deveríamos estar o apresentando como presidente”, desabafou. “Desculpe a emoção. Mas, quando eu morrer, Delaware estará escrito em meu coração.” Em vídeo publicado nas redes sociais, Trump se despediu da nação.

Desafios Robert B. Talisse, professor de filosofia da Vanderbilt University (em Nashville), aponta dois grandes desafios de Biden a partir de hoje, no processo de cura e unificação do país. “O primeiro deles é restaurar um governo competente e transparente. Por quatro anos, os EUA sofreram quatro anos sob uma liderança cujo propósito era a reeleição. A agenda política de Trump foi impulsionada pela meta de cumprir as promessas de campanha – a construção do muro na fronteira com o México, a proibição de viagens e ganhos no mercado de ações. Ele ignorou a interferência estrangeira nas eleições, o terrorismo doméstico, a COVID-19 e o decorrente colapso econômico, A nação está em desordem”, disse ao Estado de Minas o autor de Overdoing democracy e especialista em democracia e polarização política.
 
Talisse aponta que Biden terá a missão de destacar os valores democráticos, após uma gestão que dividiu o próprio povo e afastou os EUA do resto do mundo. “O novo presidente precisa reafirmar a base de princípios da democracia constitucional, dentro da ideia de igualdade política dos cidadãos. Espero que esta mensagem seja central no discurso de posse. O fardo de unir a nação não recairá estritamente a Biden. Não devemos perder de vista que as divisões parcialmente têm a ver com o fato de que ampla porção do Partido Republicano parece devotada à ideia de que a vitória de Biden é fraudulenta”, adverte.
 
Para Hunter Baker, cientista político da Union University ( em Jackson, Tennessee) e um dos diretores da Braver Angels (organização que luta contra a polarização política), Biden terá uma “chance tremenda”. “Trump estabeleceu um padrão muito baixo para a promoção da paz entre os americanos. Ele gerou muito calor e paixão. Tudo o que Biden precisa fazer é ser calmo, conciliador e evitar mostrar-se agressivo com suas políticas”, afirmou ao EM. “Nós sempre tivermos transições pacíficas de poder. Trump ameaçou isso com suas alegações de fraude maciça e seus apelos pelo protesto ao Capitólio.”

Donald Trump se despede e deixa a cena


Simone Kafruni

Mesmo derrotado nas urnas e ameaçado pelo impeachment, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que será substituído hoje pelo democrata Joe Biden, deve continuar como importante força política no país e no Partido Republicano. De acordo com especialistas, o apoio de correligionários ao julgamento político de Trump reflete o medo de enfrentá-lo nas primárias do partido, que vai decidir quem concorrerá às eleições presidenciais de 2024.
 
Ontem, nos seus últimos momentos na Casa Branca, Trump disse em uma mensagem de despedida que é o primeiro presidente em “décadas” a concluir sua gestão sem ter começado uma nova guerra. “Estou especialmente orgulhoso de ser o primeiro presidente em décadas que não se envolveu em novas guerras”, informou, segundo trechos de um discurso que a Casa Branca informou que seria difundido em breve.
Trump, pediu ainda que os Estados Unidos “rezem” pelo sucesso do governo do democrata Joe Biden, que assume o cargo hoje. “Esta semana, inaugura-se uma nova Presidência e rezemos pelo seu sucesso para que os Estados Unidos continuem sendo um lugar seguro e próspero”, disse Trump, segundo trechos do discurso que a Casa Branca divulgou aos jornalistas.
 
Ainda que tenha terminado o mandato com uma aprovação de 34%, segundo a última pesquisa Gallup — um dos menores índices apurados pelo instituto para a Presidência dos EUA —, Trump mantém um grande número de seguidores leais, sobretudo de extrema-direita. Também conta com o apoio de mais de 70% dos republicanos, que consideram a eleição de Biden ilegítima. No entanto, para analistas, Trump poderá ver a base de apoio migrar para outro líder populista de direita nos próximos quatro anos, enquanto será obrigado a responder a processos.
 
Na opinião de Juscelino Colares, professor de direito do comércio exterior e de ciência política da Case Western Reserve University (Ohio), a eleição de Biden não significa o fim do trumpismo e do populismo de direita. “Se lembrarmos que 40% dos atuais deputados republicanos foram eleitos nos anos da presidência de Donald Trump, que apenas 10 deputados republicanos (5%) apoiaram o envio de artigos de impeachment ao Senado, que Trump obteve mais de 74 milhões de votos e que dois terços de todos os republicanos ainda o apoiam, sua influência é e continuará sendo forte”, diz.


A posse de Biden

Veja os principais momentos da imposição no cargo de presidente dos Estados Unidos

» Noite na Blair House
O presidente eleito, de 78 anos, e sua mulher, Jill, passaram a noite na Blair House, a residência oficial para convidados estrangeiros do presidente dos Estados Unidos, localizada em frente à Casa Branca, próximo à Lafayette Square.

» Missa na Catedral de São Mateus
Como parte da tradição de todas as posses, Biden participará, na manhã de hoje, de uma cerimônia religiosa na Catedral de São Mateus, o padroeiro das autoridades, em Washington. O segundo presidente católico dos Estados Unidos, depois de John Kennedy, estará acompanhado da presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi; do líder democrata no Senado, Chuck Schumer; e dos líderes republicanos de ambas as casas, Kevin McCarthy e Mitch McConnell.

» Juramento
Biden chegará em caravana ao Capitólio. A cerimônia de posse terá início às 11h (13h em Brasília), em um palco montado em frente ao National Mall. A estrela do pop Lady Gaga cantará o hino nacional, e a cantora Jennifer Lopez fará uma apresentação. Às 12h (14h em Brasília), Biden e a vice, Kamala Harris, prestarão juramento. O agora presidente empossado fará o seu discurso inaugural.

» Homenagem em Arlington
No início da tarde, Biden viajará para o Cemitério Nacional de Arlington, a 12km do Capitólio, para deixar uma coroa de flores no Túmulo do Soldado Desconhecido. Estará acompanhado dos ex-presidentes Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton.

» Entrada na Casa Branca
Após a cerimônia, o comboio retornará à Casa Branca e deverá parar a algumas dezenas de metros da sede do governo e residência presidencial. Biden entrará a pé, cercado por uma escolta militar, e assinará os primeiros decretos presidenciais.

» Especial de TV
Biden e Kamala Harris falarão à nação durante um especial de televisão que será apresentado pelo ator Tom Hanks e transmitido nos principais canais dos Estados Unidos a partir das 20h30 (22h30 em Brasília). Intitulado “Celebrando a América”, o programa terá muitos convidados musicais, incluindo Jon Bon Jovi, Foo Fighters, John Legend, Demi Lovato, Bruce Springsteen e Justin Timberlake, entre outros.


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