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Estado de Minas LONDRES

Brexit em primeira pessoa: mudanças, medos e esperanças


27/12/2020 13:34 - atualizado 27/12/2020 14:43

Eles transportam mercadorias para o Reino Unido, exportam para a União Europeia (UE), procuram cientistas ou sonham com uma aposentadoria na Grécia. Seis pessoas diretamente afetadas pelo Brexit contaram suas histórias à AFP.

Dimitar Velinov, caminhoneiro

Após anos nas estradas, o caminhoneiro búlgaro Dimitar Velinov, de 74 anos, prevê longas filas na fronteira com o Reino Unido a partir de 1º de janeiro.

"Para mim, o Brexit significa um caos logístico que vai atrapalhar nosso trabalho", afirma na garagem da Eurospeed, sua empresa, que emprega mais de 300 motoristas perto da capital Sófia.

"Transporto mercadorias através da União Europeia e é importante poder fazer o meu trabalho sem ter de esperar um ou dois dias nas fronteiras", acrescenta.

O Brexit é uma dificuldade adicional para atravessar o Canal da Mancha, que já é complicada para os caminhoneiros por causa das tentativas de migrantes de entrar ilegalmente no Reino Unido escondidos em carretas.

Para evitar multas elevadas, Velinov garante que fica de olhos abertos enquanto espera o embarque no porto francês de Calais.

Sam Crowe, pescador

"90% dos pescadores querem sair" da União Europeia, resume Sam Crowe, um pescador de 26 anos de Scarborough, no norte da Inglaterra.

Segundo ele, o setor pode viver uma reativação graças às mudanças de cotas, até então impostas pela União Europeia, após décadas de declínio.

"Antes, o porto ficava cheio de gente que vinha para receber os pescadores e ajudá-los, quando voltavam do trabalho", diz. "Não é mais o caso. Ninguém está interessado em nós".

Este jovem gostou de ver como os negociadores britânicos defenderam o setor nas últimas horas de negociações, antes do anúncio de um acordo pós-Brexit com Bruxelas, que foi alcançado no minuto final devido em grande parte a divergências sobre os direitos de pesca: "Eles lutaram por nossas cotas", declara.

No fim das contas, o acordo prevê um período de transição até junho de 2026, ao fim do qual os pescadores europeus terão cedido gradualmente 25% de sua pesca, muito menos que os britânicos esperavam. Porém, eles poderão continuar exportando para a UE livres de impostos, um ponto importante para Crowe, que envia caranguejos para o mercado europeu.

Greg McDonald, empresário

"O Brexit impacta nossos negócios há três anos", lamenta Greg McDonald, diretor executivo da Goodfish, uma pequena empresa que produz peças de plástico para os setores automotivo, médico e eletrônico.

"Temos clientes que não pedem mais orçamentos e fechei uma fábrica em março porque um cliente americano encerrou suas operações no Reino Unido", conta.

Sua empresa fica em Cannock, no centro da Inglaterra, mas é altamente dependente da UE, para onde exporta grande parte da sua produção.

Londres e Bruxelas acabaram assinando um acordo de livre comércio que permite evitar tarifas e cotas, mas de qualquer forma os controles alfandegários dificultarão os procedimentos.

"Provavelmente nos custou meio milhão de libras (cerca de 663 mil dólares) e a perda de 20 postos de trabalho", de um total de 110, acrescenta.

A única vantagem: ele já comprou uma empresa no país. "E o Brexit poderia me dar a oportunidade de adquirir empresas (debilitadas) a um preço atraente", explica.

Mas, para ele, "o Brexit nunca foi uma boa notícia para a economia britânica. É um projeto político".

E embora o primeiro-ministro Boris Johnson tenha feito campanha pró-Brexit prometendo "recuperar o controle" da fronteira e das leis do Reino Unido, "vamos aprender que uma fronteira funciona nos dois sentidos", ressalta.

Pascal Aussignac, chef de cozinha

"Eu me tornei cidadão britânico, mas a empresa a que dediquei duas décadas da minha vida já não está segura aqui e tenho medo do futuro", lamenta Pascal Aussignac, chef francês que vive há 22 anos em Londres e é co-proprietário de seis restaurantes, de estabelecimentos com estrelas Michelin até outros mais simples.

"2021 poderia ser pior que 2020. Vamos sobreviver? Essa é a grande questão", adverte. Este ano, ele já sofreu o impacto da pandemia do coronavírus, que o obrigou a fechar as portas por meses.

Ainda que, por fim, não existam taxas sobre os produtos importados, ele já sente os efeitos do Brexit. Os funcionários de várias partes da Europa que ele precisa na cozinha e no salão já estão começando a faltar e "os ingleses não trabalham em restaurantes".

Além disso, "não tenho ideia dos prazos de entrega a partir de 1º de janeiro" para os produtos locais que são a essência de muitos pratos, afirma.

Temendo problemas na fronteira, principalmente se as negociações com Bruxelas fracassassem, o cozinheiro acumulou estoques de peitos de pato, queijos e outros produtos. Como plano B, ele também está estudando fornecedores "Made in Britain".

Tara Spires-Jones, acadêmica

A neurocientista Tara Spires-Jones, da Universidade de Edimburgo, se preocupa com a colaboração internacional entre laboratórios, já que a adesão à União Europeia "realmente tornou tudo mais fácil".

"Com as mudanças nas regras, será mais difícil trocar tecido cerebral", cita como exemplo a cientista que também é diretora do Instituto Britânico de Pesquisa em Demência.

A pesquisadora explica que ao final do período de transição do Brexit, em 1º de janeiro, haverá também um "grande problema" para o financiamento de pesquisas britânicas, em grande parte subsidiadas pela UE.

"Na minha universidade, entre 20% e 30% dos fundos de pesquisa vêm da UE e, atualmente, não há nada previsto para substituir este financiamento", explica.

Ainda que "ninguém vá ser demitido no primeiro dia de Brexit", alguns contratos das 10 pessoas que ela emprega podem não ser renovados.

"A longo prazo, a perda de liberdade de deslocamento também complicará o recrutamento de estudantes estrangeiros" e causará uma fuga de cérebros, lamenta Spires-Jones, que cita o caso de um doutorando europeu que ela pretendia contratar, mas que preferiu buscar trabalho em outro lugar "por causa da incerteza relacionada ao Brexit".

Wendy Williams, proprietária na Grécia

Wendy Williams, uma britânica de 62 anos, tem a impressão de que o Brexit "roubou a cidadania europeia". A partir de 1º de janeiro, Wendy e seu marido não poderão mais ir tão livremente quanto antes para sua casa na ilha grega de Kefalonia, comprada em 2018 com todas as suas economias, sonhando com uma aposentadoria ao sol.

A menos que tenham uma autorização de residência ou visto de longa duração, os britânicos agora só poderão visitar a UE por 90 dias a cada seis meses. "Teremos que contar todos os dias, inclusive os que passamos em outras partes da União Europeia", reclama.

"Tínhamos planejado passar mais tempo na Grécia, mas só podemos passar 25% do ano no máximo e de forma menos espontânea", lamenta.

Enquanto continua trabalhando para o Reino Unido, onde mora também seu pai idoso, Williams não consegue se imaginar embarcando no "caro e complexo" processo de obter vistos de dois anos para toda a família.

"Estou determinada a não vender nossa casa na Grécia", disse ela, "mas será difícil aproveitá-la como esperávamos".


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