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Estado de Minas

A vida nos acampamentos de Lesbos ainda mais dura com o inverno


24/11/2020 07:01

O inverno na ilha grega de Lesbos se aproxima e a saúde dos refugiados mais vulneráveis "piora a cada dia", alerta um médico do campo de Kara Tepe, onde mais de 7.300 migrantes enfrentam frio, vento e umidade em condições precárias.

Na semana passada, uma tenda dos serviços de asilo foi destruída pelo vento, terminando no mar.

"As barracas movem-se com as rajadas de vento. O que devemos fazer? Colocar pedras nos bolsos para que o vento não nos leve embora?", queixa-se um funcionário dos serviços de asilo.

Numa planície aluvial e com muito vento, o acampamento Kara Tepe foi erguido em apenas alguns dias, depois que a megaestrutura de Moria, o maior acampamento da Europa, foi devorado pelas chamas no início de setembro.

O inverno está chegando e as condições são terríveis.

Mais de 7.300 demandantes de asilo, incluindo crianças, deficientes e doentes, estão amontoados em tendas sem aquecimento ou água quente.

"Os moradores são obrigados a acender fogueiras para se aquecer e depois vêm nos ver com problemas respiratórios", diz um médico do acampamento, que pediu para permanecer anônimo.

Para Nasos Galis, médico da Organização Nacional de Saúde Pública de Lesbos (EODY), "as pessoas vulneráveis e os pacientes com doenças crônicas devem imediatamente deixar o campo e ir para o continente".

Arezoo, de 15 anos, já esteve em Lesbos e contou à AFP sobre as sórdidas condições de vida em Kara Tepe.

"Os banheiros só são limpos pela manhã. Depois de duas horas, não dá nem para entrar porque estão muito sujos", explica o jovem afegão, que lembra que não há banheiros suficientes.

- Chuveiros sem água -

Segundo ele, "não há água encanada nos chuveiros, então [eles são] obrigados a carregar garrafas d'água de [suas] barracas ou a se lavar no mar".

"Como as tendas ficam longe dos banheiros, alguns fazem abrigos improvisados com cobertores, trapos e lenha" perto dos banheiros, acrescenta.

O adolescente indica que os refugiados só têm eletricidade por duas horas no meio da manhã e sete horas à noite, mas que a corrente tende a pular com frequência e que não há wi-fi para se comunicar com seus parentes ou tentar agilizar seus pedidos de asilo.

Cursos improvisados são organizados nas tendas, mas isso não impede Arezoo de se entediar às vezes. "O mais difícil é não ter nada para fazer o dia todo", comenta.

"Com o inverno e as condições climáticas se deteriorando, algumas lacunas devem ser preenchidas", frisou a chefe da missão do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) em Lesbos, Astrid Castelein.

O ACNUR ofereceu sua ajuda às autoridades gregas para "acelerar as coisas", disse Castelein à AFP.

A agência da ONU sugeriu "transferir os requerentes de asilo mais vulneráveis para o centro administrado pela Câmara Municipal, onde os contêineres estão vazios", diz.

Uma solução temporária até que "as condições melhorem no campo ou até que os migrantes sejam transferidos para o continente".

O acampamento Kara Tepe, construído às pressas para os 12.000 migrantes que ficaram sem abrigo após o incêndio do acampamento Moria, é supostamente temporário.

No verão de 2021, ele deve ser substituído por outro campo melhor adaptado, de acordo com o Ministério das Migrações.

E ao frio e às chuvas se soma a pandemia do coronavírus.

Os médicos do campo, pessoal humanitário e funcionários trabalham juntos, em plena pandemia, em tendas projetadas para o verão.

"São 35 funcionários trabalhando na mesma tenda, enquanto o coronavírus se espalha. Temos medo de ir trabalhar", diz um funcionário.

Nessas condições, os migrantes não podem manter a distância segura recomendada para impedir o contágio, lavar as mãos ou ter acesso rápido a cuidados médicos.

Desde meados de março, os movimentos de migrantes na Grécia têm sido muito limitados, mesmo no início de maio, quando o país começou a recuperar a normalidade.

"Podemos deixar o acampamento apenas uma vez por semana, algumas horas, e tentamos administrar nossas necessidades nesse curto período de tempo", diz Jean-Pierre, um camaronês de 30 anos.

"Todo mundo está apavorado no campo", admite.


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