Jornal Estado de Minas

INTERNACIONAL

Com Biden, Araújo e Salles ficam sob pressão

Uma possível vitória de Joe Biden deve elevar a pressão por trocas na cúpula do governo de Jair Bolsonaro. Analistas de política externa consideram que o presidente deveria, em nome da construção de uma relação positiva com o democrata, substituir os ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Salles (Meio Ambiente). A dupla sintetiza hoje o alinhamento ao republicano Donald Trump e ao rebaixamento da agenda verde, que deve ser convertida em prioridade com Biden na Casa Branca.

Araújo é lembrado em Washington por sua devoção a Trump, a quem se referiu como "salvador" da civilização ocidental, antes mesmo de assumir a chancelaria. Ele também é conhecido por criticar o que chama de "climatismo" e desacreditar evidências do aquecimento global. Salles, por sua vez, é associado às queimadas florestais e ao enfraquecimento de normas ambientais em prol da exploração econômica.

Uma troca nos ministérios, na visão de observadores da diplomacia internacional, poderia arejar as relações de alto nível político e sinalizar a disposição de diálogo. A avaliação é compartilhada por acadêmicos, militares e diplomatas, defensores de uma política mais pragmática e menos ideológica.

Carlos Gustavo Poggio, americanista e professor de Relações Internacionais na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), afirma que caberia ao Brasil se mover e sinalizar abertura em direção a Biden, e não o contrário. Foi o governo Bolsonaro que escolheu os EUA como "aliado preferencial". A Casa Branca enxerga o Brasil como parceiro estratégico, mas nunca colocou o País como prioridade de sua política externa.

"Vejo a possibilidade de substituição do Ernesto Araújo por um ministro um pouco mais competente e experiente. Dentro do Itamaraty temos nomes bastante importantes e com capacidade para reconstruir as relações com os democratas. Vai depender de quanto o governo Bolsonaro vai deixar esse ministro trabalhar", afirma Poggio.

"Bolsonaro vai buscar moderação como fez em relação ao Congresso e ao STF. Ele é suficientemente inteligente para saber que não adianta confrontar a realidade aqui dentro e lá fora", diz o embaixador Paulo Roberto de Almeida, ex-diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI), ligado ao Ministério das Relações Exteriores.

Crítico de Ernesto Araújo, ele é cauteloso em apostar numa mudança nos rumos do Itamaraty.

Valorização da China

O general de Exército da reserva Maynard de Santa Rosa, ex-secretário de Assuntos Estratégicos de Bolsonaro, prega um "repensar" da política externa, uma acomodação que, para ele, passa pela valorização de parcerias com os asiáticos, sobretudo a China. O oficial é ideologicamente alinhado com Bolsonaro.

Santa Rosa pondera que o governo tentará abrir canais de diálogo, um padrão na diplomacia, e, se não funcionar, "posteriormente as circunstâncias podem levar a uma mudança, mas não de imediato". "O Brasil pode, por conveniência própria, fazer um jogo de interesse, aproximar-se de um ou de outro. No que for negado pelo americano, podemos nos aproximar do chinês. E, quando o chinês abusar, a gente volta para o americano, como já foi feito no passado, no governo Geisel", defende o general, ex-integrante do Alto Comando do Exército.

No seu diagnóstico, é preciso ter conhecimento e jogo de cintura. "Infelizmente, a nossa diplomacia hoje não tem. Começa de cima, nosso chanceler nunca foi nem embaixador nos grandes países, não tem experiência funcional e jogo de cintura como tivemos no passado."

Bolha

Desde o início do governo, Salles e Ernesto Araújo são identificados com os apoiadores mais conservadores e radicais de Bolsonaro. Trata-se justamente da "bolha ideológica" no Twitter. As gestões da dupla sofreram reparos de oficiais militares influentes na Esplanada dos Ministérios.

Em momentos distintos, ambos foram tutelados pelos generais, chamados a assumir as rédeas de relações diplomáticas e da Amazônia. Um dos que exercem funções diplomáticas, principalmente no relacionamento bilateral com a China, é o vice-presidente, Hamilton Mourão.

Ao menos no curto prazo, porém, uma mudança repentina é considerada pouco provável. Motivo: a troca, após o abatimento provocado por um revés de Trump, poderia soar como abandono a ícones de seu eleitorado mais radical, já insatisfeito com as articulações do presidente em direção ao centro político. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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