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Estado de Minas

Vitória de Arce devolve alegria a simpatizantes de Evo Morales na Bolívia


20/10/2020 14:01

Depois de mortes e violência política em 2019, a alegria voltou ao bairro boliviano de Senkata com a vitória de Luis Arce, o herdeiro político de seu amado Evo Morales.

"Valeu a pena todo o sofrimento", disse José Mamani à AFP.

Há quase um ano, José e seus vizinhos saíram para protestar em Senkata, na cidade de El Alto, vizinha de La Paz, contra a anulação - por alegações de fraude - das eleições nas quais Morales havia sido reeleito para um quarto mandato. Foram reprimidos pela polícia em frente a uma fábrica de combustíveis, resultando em uma dúzia de mortos e várias dezenas de feridos.

"Me sinto feliz", diz José, emocionado. Junto com ele, seus "camaradas de luta" celebram com música, danças e bandeiras azuis (símbolo de Arce) a vitória eleitoral de domingo, que devolve o poder ao Movimento ao Socialismo (MAS) de Morales.

Como este comerciante de 34 anos de cabelo cor de cobre, muitos misturam a alegria da vitória com as lembranças da repressão durante os violentos protestos de novembro de 2019 em Senkata, no distrito 8 desta cidade fiel a Morales, localizada a 4.100 metros de altura.

"Neste bairro choramos, sofremos, passamos dias sem comer, a coca e água", lembra José com o rosto ao sol do altiplano, rodeado por uma cordilheira nevada. "Foi muito doloroso o que aconteceu, [a polícia] chutando mulheres de saias, camponesas, foi assim que a presidente interina de direita Janine Áñez chegou ao poder", disse à AFP Ricardo Saavedra, um estudante de 23 anos.

Organizações de direitos humanos denunciaram o governo Áñez pelo uso excessivo da força durante os protestos, que deixaram mais de 30 mortos e 800 feridos no país, segundo a ONU.

Quase um ano depois, José agarrou sua bandeira Wiphala (símbolo dos povos indígenas), comprou fogos de artifício e saiu para as mesmas ruas onde um dia houve luto para festejar, dançar e gritar "Jallalla [viva] Distrito 8".

"Essa luta não é por dinheiro, sei que não terei um cargo no governo. Luto pelo bem dos meus filhos, porque quero dar a eles um bom futuro", diz José.

Em sua camisa azul, lê-se "voltamos e somos milhões", junto com os rostos de Arce e de seu vice-presidente David Choquehuanca, de origem aimará como Morales.

O distrito 8 de El Alto tem uma tradição de luta. Seus vizinhos se rebelaram na chamada "Guerra do Gás" de 2003, que deixou 60 mortos e levou à queda do presidente conservador Gonzalo Sánchez de Lozada.

- "Goleamos a direita" -

O ex-ministro da Economia de Morales, Arce varreu as pesquisas ao vencer no primeiro turno com uma vantagem de 20 pontos sobre o centrista Carlos Mesa.

"Vencemos a direita, vencemos no seu campo", exclama Ricardo. Ele diz que ficou surpreso com a retumbante vitória do economista de 57 anos, que chocou mais de um terço do país.

A festa também comemora a deputada eleita de MAS Sabina Condori, com saia elegante e a tradicional mantilha.

Eles acham que Arce devolverá a prosperidade dos 14 anos de governo de Morales, em um momento em que a Bolívia polarizada vive uma de suas piores crises econômicas, agravada pela pandemia do coronavírus.

Com Arce como ministro e Morales como presidente, a Bolívia quadruplicou seu PIB e reduziu a pobreza de 60% para 37%.

"Vamos ficar bem, Lucho Arce é um dos melhores economistas do mundo (...), sei que vai dar certo, vejo paz na Bolívia, todo mundo está feliz. Porque quando Evo renunciou em novembro, vi gente chorando e racismo", lamenta Ricardo.

A futura deputada Condori admite que Evo cometeu erros. "Cada um de nós está errado. E ser humano também é consertar os erros que cometemos", diz a nova deputada.

Também se celebra a possibilidade de Morales voltar ao país do exílio na Argentina, embora ele tenha um mandado de prisão na Bolívia por suposto "terrorismo".

"Evo, você vai voltar. Evito, você vai voltar", diz Eugenia Centeno, o rosto vermelho de euforia, misturado com lágrimas. Essa vendedora de roupas usa o traje completo: camiseta, boné, lenço e bandeira MAS.

Os rostos refletem o alívio do fim do governo Áñez. "Estamos respirando uma vitória porque não haverá essa discriminação" a partir de agora, diz Condori, em uma Bolívia com 41% da população indígena.

Com o espírito combativo do passado e do presente, a deputada fecha seu discurso com o slogan da guerra do gás em 2003. "El Alto em pé, nunca de joelhos".


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