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Estado de Minas

Líbano e Israel iniciam negociações inéditas sobre fronteira marítima


14/10/2020 08:25

Líbano e Israel, dois países vizinhos oficialmente em guerra, participaram nesta quarta-feira (14) de uma breve sessão de negociações inéditas, com mediação da ONU e dos Estados Unidos, para delimitar sua fronteira marítima.

O objetivo é suprimir os obstáculos para a exploração de petróleo.

A primeira rodada de conversas terminou, segundo a agência de notícias estatal libanesa ANI, uma hora após o início da reunião, às 10h30 (4h30 de Brasília), na sede da ONU em Naqura, localidade de fronteira no sul do Líbano.

Após anos de esforços diplomáticos americanos, Líbano e Israel anunciaram no início de outubro as negociações, consideradas "históricas" por Washington.

Pouco depois dos acordos de normalização das relações com Israel assinados pelos Emirados Árabes Unidos e pelo Bahrein na Casa Branca, e a poucas semanas da eleição presidencial nos Estados Unidos, analistas questionam o significado dos avanços diplomáticos para o presidente Donald Trump.

As negociações também acontecem em um contexto regional de grandes tensões no Mediterrâneo oriental, sobre os hidrocarbonetos e o limite das fronteiras marítimas, com Turquia, Grécia e Chipre no centro das disputas.

- Caráter "técnico" -

"Nosso encontro de hoje marca o início das negociações técnicas indiretas", afirmou o chefe da delegação libanesa, general Bassam Yassine, em seu discurso inaugural divulgado pelo Exército.

"Esperamos que as negociações aconteçam em um ritmo que nos permita concluir este processo em um prazo razoável", acrescentou.

A mediação nesta quarta-feira ficou a cargo do subsecretário de Estado americano para o Oriente Médio, David Schenker.

A segunda rodada de negociações acontecerá em 28 de outubro, informou à AFP uma fonte militar libanesa que pediu anonimato.

No primeiro encontro, dois militares e dois civis - um diretor da Autoridade de Petróleo e um especialista em direito marítimo - representaram o Líbano.

A delegação israelense contou com seis membros, incluindo o diretor geral do Ministério da Energia, um assessor diplomático do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o comandante de Assuntos Estratégicos do Exército.

O Líbano insiste no caráter "técnico" - e não político - das conversas.

Os dois partidos xiitas libaneses, Hezbollah e Amal, criticaram a presença de civis na delegação libanesa e afirmaram que apenas os militares deveriam estar presentes.

As negociações são cruciais para o Líbano, que enfrenta uma grave crise econômica e confia na exploração marítima de petróleo.

Em 2018, o país assinou o primeiro contrato de exploração com um consórcio internacional. Os problemas surgiram quando uma parte de um dos dois blocos, o número 9, alcançou uma zona de 860 km² em disputa pelos dois países.

Uma fonte do Ministério israelense da Energia acredita que a delimitação marítima pode ser resolvida em poucos meses, caso o processo aconteça sem problemas do lado libanês.

"Não temos nenhuma ilusão. Nosso objetivo não é criar nenhuma normalização ao processo de paz", completou a fonte.

O último confronto entre Hezbollah e Israel aconteceu em 2006. Uma guerra devastadora que deixou mais de 1.200 mortos no lado libanês, sobretudo civis, e 160 no lado israelense, em sua maioria militares.

De acordo com a ONU, as negociações sobre a fronteira terrestre acontecerão de forma separada, em encontros a três supervisionados pela Finul, a Força das Nações Unidas que vigia a fronteira entre ambos os países.

"Em caso de acordo na fronteira terrestre, surgirá então a questão das armas do Hezbollah", afirmou Hilal Khashan, cientista político da Universidade Americana de Beirute.

O movimento xiita Hezbollah é a única facção que não abandonou seu arsenal após a guerra civil (1975-1990), alegando que tem um papel de "resistência" ante Israel.


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