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Estado de Minas

Nagorno-Karabakh: desolação na catedral histórica, atingida por bombardeios


08/10/2020 12:55

Livro de Êxodo 29-30. Jogada ao longe pela violência do choque, a Bíblia em alfabeto armênio, coberta de poeira, está aberta no chão, ao lado de candelabros virados.

Um buraco aberto na abóbada de pedra deixa passar um raio de sol que ilumina o desastre na nave.

A Catedral de Khazanchetsots (de Cristo Salvador) em Shushi, uma cidade histórica simbólica, muitas vezes referida como a "Jerusalém de Nagorno-Karabakh", foi duramente atingida nesta quinta-feira por um ataque no 12° dia de conflito entre separatistas armênios e forças azerbaijanas.

O Azerbaijão, cujas forças bombardeiam a cidade há dias, negou ter atingido o local de culto.

Por volta das 15h30 (8h30 de Brasília), três foguetes atingiram esta cidade, localizada em uma cordilheira com vista para a capital separatista Stepanakert, a cerca de 14 km de distância, observou um jornalista da AFP.

Um deles pousou no telhado da catedral, uma das igrejas mais famosas do mundo armênio, datada do século XIX, em seu transepto sul. Causou severos danos ao edifício.

"Eu estava chegando na igreja quando vi três foguetes no céu. Dois passaram, mas o terceiro atingiu o telhado", disse Zanyac Tigran, o jardineiro do local, de jaqueta de couro e calça militar.

"Meus joelhos ainda estão tremendo. É um milagre eu estar ileso", declarou o homem, visivelmente abalado, passando a mão pela barba de três dias.

No jardim plano que serve de átrio do monumento, pedaços da estrutura de madeira e do telhado de chumbo estão espalhados por toda a parte.

No interior, o cenário é de desolação. As pedras que caíram do teto estão amontoadas no chão coberto de poeira. Cerca de 15 metros acima das cabeças, um grande buraco - de dois a três metros de diâmetro - rasgou o teto entre as ogivas.

- "Nada de estratégico" -

Os bancos nesta parte da nave foram esmagados, ou empurrados para trás, em direção ao centro do edifício.

O chão está coberto de cacos de vidro, lascas de madeira e tapetes sujos de entulho.

No coro, todos os objetos litúrgicos foram jogados do altar.

Uma espessa camada de cinzas cobre tudo, que toma o nariz e se mistura com um cheiro característico de explosivo.

Um homem acende uma vela, outro pega a Bíblia no chão para espaná-la e substituí-la no altar.

"Não há soldados aqui, nada estratégico. Como podem mirar uma igreja?", indigna-se, Simeon, outro visitante. "É uma catedral muito importante para nós, armênios", lembra ele.

Um punhado de fiéis estava presente no momento do ataque. Quase por milagre, acreditam, nenhum deles ficou gravemente ferido.

Chocados, um padre os levou para o porão de um prédio próximo que serve de abrigo antiaéreo.

Como Stepanakert, Shushi tem sido alvo regular de bombardeios das forças do Azerbaijão há dez dias.

Para o arcebispo da região, Parguev Martirossian, este novo ataque faz parte dos métodos do "Estado Islâmico, eles (os azerbaijanos) atacam nossos valores espirituais", disse à AFP.

No final da tarde, um segundo ataque atingiu o prédio religioso, ferindo jornalistas russos e armênios no local.

Há muito dividida entre duas culturas - cristã, para a Armênia, e muçulmana, para o Azerbaijão -, Shushi foi palco de uma batalha decisiva durante a Guerra de Karabakh (1988-92), que viu os armênios retomarem o controle.

Isso fez da catedral um símbolo. Em desuso durante a era soviética, ela foi usada como garagem e, depois, como depósito de armas para os azerbaijanos, antes de ser reconstruída e reformada.

"Vamos reconstruir nossa catedral, como sempre fizemos ao longo de nossa história", promete Simeon. Quanto aos responsáveis por este bombardeio, "Deus julgará!", completa.


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