Jornal Estado de Minas

Bolsonaro lamenta a 'desastrosa e gratuita' crítica de Biden ao Brasil

O presidente Jair Bolsonaro lamentou nesta quarta-feira (30) a crítica "desastrosa e gratuita" do candidato democrata à Casa Branca, Joe Biden, ao Brasil para que interrompa o desmatamento na Amazônia, e alertou que a declaração, feita ontem, coloca em risco a "convivência cordial" entre as duas maiores economias do hemisfério.





"Custo entender, como chefe de Estado que reabriu plenamente a sua diplomacia com os Estados Unidos, depois de décadas de governos hostis, tão desastrosa e gratuita declaração", escreveu no Twitter o presidente brasileiro, aliado do republicano Donald Trump.

"Lamentável, Sr. Joe Biden, sob todos os aspectos, lamentável", acrescentou.

Em seu primeiro debate com Trump, Biden afirmou na última terça-feira que, se for eleito, reunirá um pacote de 20 bilhões de dólares de vários países para impedir o desmatamento no Brasil.

"'Aqui estão US$ 20 bilhões. Parem de desmatar'. Do contrário, isso terá consequências econômicas significativas", ressaltou o democrata.

"A cobiça de alguns países sobre a Amazônia é uma realidade", escreveu Bolsonaro, que atribui as campanhas contra o desmatamento a interesses estrangeiros sobre as riquezas naturais da região.





"A externação por alguém que disputa o comando de seu país sinaliza claramente abrir mão de uma convivência cordial e profícua", acrescentou.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi irônico com a declaração do candidato democrata.

"Só uma pergunta: a ajuda dos USD 20 bi do Biden, é por ano?", escreveu no Twitter.

- Muitas tensões -

Para Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas no Rio, essas declarações cruzadas pressagiam uma relação bilateral com "muitas tensões", em caso de uma vitória de Biden, embora o candidato democrata "queira se aproximar de Bolsonaro para não perdê-lo como aliado no combate contra a ascensão da China".

"Biden não tem interesse em ver uma piora na relação com o Brasil, mas como ele também quer um presidente ambientalista, que se importa com a mudança climática, vai ser muito difícil manter uma relação estável", explicou à AFP.

Bolsonaro participou virtualmente durante a tarde da Cúpula da Biodiversidade da ONU.





Em seu discurso, a exemplo do que fez na semana passada antes da Assembleia Geral da entidade, garantiu que seu país está adotando medidas eficazes de proteção ao meio ambiente e denunciou uma campanha de desinformação contra o Brasil.

O presidente afirmou que informações falsas e irresponsáveis não podem servir de pretexto para a imposição de regras internacionais injustas que desconsideram o que chamou de "conquistas ambientais" alcançadas "em benefício do Brasil e do mundo".

Ele também acusou "algumas ONGs" de estarem associadas a "organizações que comandam crimes ambientais no Brasil e no exterior" e indicou que o setor agrícola brasileiro tem conseguido expandir sua produção para alimentar o mundo e para reduzir seu impacto no meio ambiente.

- Voltar ao Acordo de Paris -

No ano passado, Bolsonaro já levantou as bandeiras do nacionalismo e da soberania para se defender da onda de críticas internacionais ao alarmante aumento dos incêndios na Amazônia, liderada pelo presidente francês Emmanuel Macron.





O avanço do desmatamento, uma das principais causas dos incêndios na maior floresta tropical do planeta, levou vários países europeus, inclusive a França, a se oporem à ratificação do acordo comercial assinado no ano passado entre a União Europeia e o Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai).

"Se a União Europeia não assinou o acordo comercial com o Mercosul é porque pode aumentar o desmatamento importado contra o qual estamos determinados a agir", declarou Macron nesta quarta-feira em seu discurso na cúpula da ONU.

Em 2019, o desmatamento na Amazônia teve um aumento anual de 85,3%, atingindo um total de 10.123 km2, área equivalente ao território do Líbano.

Em agosto, o desmatamento registrou queda de 21% em relação a agosto do ano passado, embora entre janeiro e agosto a redução tenha sido de apenas 5% em relação ao mesmo período de 2019.

Como Trump, o presidente brasileiro é cético em relação às mudanças climáticas.

No debate, Biden, que lidera as pesquisas, insistiu que, se vencer as eleições, reintegrará os Estados Unidos ao Acordo Climático de Paris, do qual Trump retirou o país.

"Vou aderir ao Acordo de Paris porque estando fora dele olha o que está acontecendo. Está tudo ruindo (...). As florestas brasileiras estão sendo devastadas. Nessa floresta se absorve mais carbono do que o emitido pelos Estados Unidos", disse.