Milhares de migrantes na ilha grega de Lesbos ficaram sem abrigo nesta quarta-feira (9), depois que um enorme incêndio destruiu Moria, o maior e mais decadente acampamento de refugiados da Grécia, onde se amontoavam.
Segundo o ministro das Migrações, Notis Mitarachi, os solicitantes de asilo que protestam contra a quarentena imposta no campo após a detecção de casos de covid-19 são os responsáveis pelo incidente, que não causou vítimas.
O serviço grego de Proteção Civil declarou "estado de emergência" em Lesbos, ilha no Mar Egeu, com uma população de cerca de 85.000 habitantes e principal ponto de entrada de migrantes na Grécia devido a sua proximidade com a Turquia.
"Pelo menos 3.500 migrantes estão desabrigados (...) e estamos tomando medidas urgentes por essas pessoas: os mais vulneráveis, cerca de mil, serão acomodados em uma balsa que chegará ao porto de Mitilene na tarde de quarta-feira", disse Mitarachi.
Dois outros barcos da marinha grega chegarão à cidade de Mitilene na quinta-feira para abrigar os migrantes, enquanto tendas serão montadas para atender às suas necessidades.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, expressou nesta quarta-feira sua "profunda tristeza" e a "disposição da União Europeia de ajudar".
O ministro grego Mitarachi saudou "a rápida intervenção de bombeiros e policiais", que evitou "ferimentos graves". "Por enquanto, não há vítimas ou feridos e não foi reportada nenhuma pessoa desaparecida", informou.
- "O que vamos fazer agora?" -
O primeiro caso de coronavírus foi detectado em Moria na semana passada e o campo foi imediatamente colocado em isolamento por quinze dias.
Segundo Mitarachi, os requerentes de asilo começaram o incêndio. "Vários focos de incêndio foram relatados na noite de quarta-feira (...) Os incidentes em Moria foram iniciados por requerentes de asilo devido à quarentena imposta", frisou.
Pouco antes, o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, expressou sua "tristeza pelos incidentes" e sugeriu que o desastre pode ter ocorrido devido às "reações violentas contra os controles de saúde.
"Reconheço as condições difíceis, mas nada pode servir de desculpa para reações violentas contra as medidas de controle sanitário", declarou.
Milhares de homens, mulheres e crianças saíram das barracas de campanha e dos contêineres na madrugada desta quarta-feira. Alguns se refugiaram nos campos de oliveiras ao redor.
A principal parte do centro de registro de identificação foi completamente destruída, de acordo com Mitarachi.
Além desta parte, que abrigava cerca de 4.000 pessoas além das instalações administrativas e de abrigo, o campo de Moria se estende por olivais vizinhos, onde cerca de 8.000 pessoas viviam em barracas de campanha que também foram danificadas.
Na tarde desta quarta, a maioria dos refugiados e migrantes estava sentada na estrada que liga o acampamento ao porto de Mitilene, formando longas filas de até três quilômetros, segundo um repórter da AFP.
"O que vamos fazer agora? Para onde podemos ir?", lamentou Mahmout, natural do Afeganistão.
Junto com ele, sua compatriota Aisha. procurava pelos filhos. "Dois estão ali, mas não sei onde estão os outros", suspira.
- "Situação catastrófica" -
O acampamento abrigava cerca de 12.700 solicitantes de refúgio, quatro vezes sua capacidade.
Mais tarde na noite de quarta-feira, outro incêndio surgiu em uma parte do acampamento que não foi seriamente danificado, provocando cenas parecidas: famílias de migrantes fugindo apavoradas do fogo. Os migrantes em fuga gritavam "Moria acabou".
Este "incêndio é menor que o de terça-feira à noite", afirmou um membro dos bombeiros.
A Alemanha, que está na presidência rotativa da UE, pediu na quarta-feira aos países do bloco que recebam esses migrantes. A Comissão Europeia anunciou que pediu a transferência imediata para a Grécia continental de 400 crianças e adolescentes.
Milhares de pessoas foram às ruas de maneira espontânea em várias cidades alemãs para exigir que as autoridades acolham os migrantes.
"Direito de residência, em todas as partes, ninguém é ilegal", ou "temos lugar", gritavam os manifestantes em Berlim, Hamburgo, Hannover ou Munster.
A França, por sua vez, também indicou sua disposição de "mostrar solidariedade" diante da situação, disse o porta-voz do governo, Gabriel Attal.
Nos últimos anos, as ONGs criticaram o acampamento de Moria por sua higiene precária e superlotação, pedindo às autoridades gregas que realocassem os requerentes de asilo mais vulneráveis.
A comissária do Conselho da Europa, Dunja Mijatovic, criticou nesta quarta-feira "a falta de solidariedade dos países membros da Europa que também são responsáveis pela catastrófica situação" na ilha mencionada pelas ONG.
