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Estado de Minas

A difícil equação de tornar a natureza mais selvagem na Europa


14/08/2020 11:25

O canto das cigarras envolve a floresta de pinheiros silvestres que exala aromas de lavanda e tomilho. Há pouco ou nenhum sinal do homem. A reserva de Grand Barry, no sudeste da França, busca restaurar o caráter selvagem da natureza, seguindo uma tendência crescente na Europa.

Esta reserva privada de 100 hectares, localizada em Drome, pertence à Associação para a Proteção de Animais Selvagens (ASPAS), uma ONG francesa que adquire espaços naturais, florestas, lagos, charnecas, para transformá-los em "reserva de vida selvagem". Uma abordagem que faz parte do conceito de "rewilding" ou "reselvagização", "retorno à natureza selvagem", que se originou nos Estados Unidos.

"Não existe quase nenhum território sobre a Terra que não tenha sido afetado pelo homem", afirma Zoltan Kun, da Frankfurt Zoological Society.

Segundo os especialistas em biodiversidade da ONU (IPBES), 75% do meio ambiente terrestre e 66% do marítimo estão atualmente degradados. Consequentemente, um milhão de espécies animais e vegetais correm o risco de desaparecer, muitas delas nas próximas décadas.

Diante deste fato alarmante, cientistas e ONGs querem promover a reselvagização para combater a perda da biodiversidade.

Essa abordagem "consiste em restaurar os ecossistemas que funcionam sem a intervenção do homem", resume Kun, com as cadeias alimentares completas, do inseto até os pequenos mamíferos, passando pelos grandes herbívoros selvagens, carnívoros e aves de rapina.

Para permitir seu retorno, "é possível fazer reintroduções, mas muitas vezes é suficiente apenas deixar essas espécies se propagarem naturalmente", assim como "promover a relação entre os ecossistemas", explica Henrique Miguel Pereira, biólogo no Centro Alemão de Pesquisa Integrativa da Biodiversidade (iDiv), em Leipzig.

Implica também aceitar, de forma mensurada, riscos naturais como incêndios e inundações.

- Ativo contra as mudanças climáticas -

Na prática, a reselvagização ocorre de diferentes formas, com uma redução mais ou menos forte da pegada humana dependendo dos projetos e territórios.

A reserva arborizada de Grand Barry, dominada por uma crista rochosa, é guiada pelo princípio da evolução livre. Abriga camurças, cervos, texugos, arminhos, répteis e orquídeas. No céu, uma águia dourada divide, como um avião de combate, os ares que compartilha com o falcão-peregrino ou o falcão europeu.

"É um lugar de natureza comum com algumas diferenças", resume Clément Roche, coordenador de reservas da ASPAS. Todas elas são administradas através de uma carta que proíbe a caça, a extração de madeira, pesca, agricultura e criação, coleta e veículos motorizados.

"Autorizamos a caminhada nas trilhas demarcadas", diz Roche, enquanto aponta para as discretas sinalizações em cima das árvores. "O homem passa sem deixar vestígios", acrescenta.

Esse nível de proteção está entre os mais altos definidos pela União Internacional de Conservação da Natureza (UICN) para parques nacionais.

"Quando uma árvore cai, nós a deixamos", a menos que haja algum perigo, destaca Roche, mostrando um tronco caído no caminho.

O "rewilding" também é um aliado no combate às mudanças climáticas, indica Gilles Rayé, professor de ciências naturais. "Convém deixar a evolução livre e ver quais espécies resistem melhor. Ao selecioná-las, se faz uma espécie de jogo de pôquer".

- A resistência dos criadores -

Apesar de os projetos estarem se multiplicando na Europa, a reselvagização encontra resistências. "Muitas pessoas pensam que a natureza precisa ser guiada", explica Pereira, o que considera "sem sentido", já que ela existe muito antes dos seres humanos e vai sobreviver a eles.

A França é um exemplo, com uma forte oposição de certos criadores, agricultores e autoridades locais à presença de animais como lobos e ursos, considerados incompatíveis com a reprodução, além de abutres e outras raposas até mesmo em áreas naturais protegidas.

"Isso vai atrapalhar as atividades econômicas tradicionais e de entretenimento" como a caça, diz preocupado Rémi Gandy, presidente da Federação da Caça de Drome, acrescentando que "é preciso levar em consideração os atores rurais".

Em uma de suas reservas, que inclui dois lagos no Ródano, a ASPAS encontra dificuldades para fazer cumprir a proibição da caça.

- Uma economia baseada na natureza -

Na França, os parques nacionais foram criados para proteger os espaços naturais excepcionais "dos quais o homem é uma parte importante" e para permitir "o acesso e o espanto das pessoas", explica Pierre Commenville, diretor do parque nacional de Ecrins.

Para ele, a reselvagização "deveria ser uma questão aberta ao debate público".

Para Frans Schepers, diretor do Rewilding Europe, é preciso "evitar os conflitos entre as pessoas e a vida silvestre" para que isso funcione da melhor forma possível.

Para envolver melhor as populações locais, é preciso "desenvolver uma economia baseada na natureza, nas fontes de renda", acrescenta.

"Identificamos os empresários locais que estão interessados e podemos ajudá-los com o marketing e as vendas", especialmente através de empréstimos, explica.

As regiões afetadas sofrem frequentemente a desertificação rural. Para seus apoiadores, a reconstrução permite administrar esses espaços a um custo menor. Podemos "criar uma nova identidade e um novo orgulho para essas regiões", afirma Schepers.


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