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Estado de Minas

O coronavírus no Paquistão, entre o estigma e as conspirações


01/08/2020 14:19

Por vinte dias, Mansoor entrincheirou-se em casa, recusando fazer o teste do coronavírus, apesar de ter dificuldades para respirar, por medo de que o tratassem mal. No Paquistão, a estigmatização e as teorias da conspiração dificultam o combate à pandemia.

"Me isolei em um canto da minha casa. Dizia que estava preparando uma prova", conta o professor de 32 anos, cujos sintomas já desapareceram. "Se eles me examinarem, minha família e eu permaneceramos isolados" na cidade da província de Jaiber Pastunjuá (noroeste) onde vivem, explicou ele no início de julho. "Não quero um estigma assim".

Muitos nos Paquistão se negam a fazer o teste, de acordo com cinco médicos entrevistados pela AFP. No vale do Swat, o doutor Amjad Khan explica que viu "centenas" de pacientes que podem ser portadores do vírus.

"Mas 90% dos que têm sintomas não fazem o teste de diagnóstico" por medo da rejeição da sociedade. As pessoas "temem estar em contato com uma pessoa positiva à COVID-19", uma doença que, para eles, é "sinônimo de morte" garantida, afirmou Khan, porta-voz da Associação de Médicos Jovens de Jaiber Pastunjuá.

"Além de tratar o vírus, devemos responder às preocupações dos pacientes, tratar sua estigmatização", um problema agravado pelo "analfabetismo" e pela "superstição", destaca o professor Javed Akram, vice-reitor da faculdade de Medicina de Lahore.

- Funerais incompletos -

E mais ainda com a quantidade de teorias da conspiração que surgiram após a pandemia no Paquistão, um dos três países do mundo que não venceu a poliomielite, em parte por causa dos boatos de que as vacinas contêm carne de porco, proibida pelo Islã.

Nos últimos meses, os médicos foram acusados nas redes sociais de "matar" pacientes nos hospitais, pagos pelos países ocidentais.

E sem um sistema de diagnóstico eficaz, os casos continuam aumentando no país, onde há oficialmente 280.000 casos de COVID-19, embora os especialistas consultados pela AFP apontem que este número pode ser pelo menos 10 vezes maior.

No início da crise, as autoridades proibiram os funerais dos primeiros mortos da pandemia, apesar de as orações funerárias serem elementos importantes da cultura do Paquistão, já que supostamente facilitam a entrada do morto no paraíso.

Desde então, muitas famílias decidiram esconder o contágio de seus familiares e, desse modo, evitar funerais incompletos.

A estigmatização e as conspirações também levam à subestimação do número de mortos: oficialmente, foram registrados cerca de 6.000 nos hospitais do país, uma letalidade muito baixa em um país de 220 milhões de habitantes no qual o vírus está bem espalhado.


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