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Estado de Minas

Muçulmanos bósnios lembram vítimas do massacre de Srebrenica, há 25 anos


postado em 11/07/2020 19:19

Os muçulmanos da Bósnia recordaram neste sábado o genocídio de Srebrenica, que completa 25 anos, o maior massacre em território europeu desde a Segunda Guerra Mundial, em uma cerimônia reduzida devido à pandemia de coronavírus.

"Tenho uma filha de dois anos, como eu tinha na época. É difícil quando você vê alguém chamando o pai e você não tem o seu", afirmou, chorando, Sehad Hasanovic, 27 anos, a quem as medidas para combater a disseminação da COVID-19 não dissuadiram de participar, juntamente com 3.000 familiares de vítimas.

Seu pai, Semso, "fugiu para a floresta e nunca retornou. Só encontramos alguns ossos", conta.

Assim como o irmão Sefik e sei pai Sevko, Semso foi assassinado quando as tropas sérvias da Bósnia, comandadas por Ratko Mladic, entraram no território de Srebrenica e executaram sistematicamente os homens e adolescentes muçulmanos.

"Os maridos das minhas quatro irmãs foram assassinados. Meu irmão também foi morto, assim como seu filho. Minha sogra também perdeu outro filho e o marido", recorda Ifeta Hasanovic, 48 anos, cujo marido Hasib foi uma das nove vítimas cujos restos mortais foram identificados em julho do ano passado.

Neste sábado, os nove foram enterrados no cemitério do Monumento do Genocídio, em Potocari, cidade próxima de Srebrenica onde ficava durante a guerra étnica da Bósnia (1992-95) a base da Força de Proteção da ONU (UNPROFOR, na sigla em inglês).

Em 11 de julho de 1995, cinco meses antes do fim da guerra, as forças sérvias da Bósnia assumiram o controle de Srebrenica, uma "zona segura" declarada pelas Nações Unidas, protegida por 400 capacetes azuis holandeses, e em poucos dias massacraram mais de 8.000 homens e adolescentes bósnios (muçulmanos).

Na época, o líder político sérvio-bósnio era Radovan Karadzic (falecido em 2006) e o comandante militar Ratko Mladic. A justiça internacional condenou ambos à prisão perpétua, sobretudo pelo massacre de Srebrenica e o cerco a Sarajevo.

Até hoje foram encontradas e identificadas quase 6.900 vítimas do massacre em mais de 80 valas comuns. Muitos foram enterrados no cemitério do Monumento do Genocídio.

- A luta contra a "negação"-

O massacre de Srebrenica é o único episódio da guerra bósnia (100.000 mortos) classificado como genocídio pela justiça internacional. Mas os líderes políticos sérvio-bósnios minimizam o evento.

O membro sérvio da presidência colegiada da Bósnia, Milorad Dodik, rejeita o termo "genocídio" e fala de "mito".

"Insistiremos sem descanso na verdade, justiça e necessidade de julgar todos aqueles que cometeram este crime", afirmou na véspera o integrante bósnio (muçulmano) da presidência, Sefik Dzaferovic.

"Lutaremos contra aqueles que negam o genocídio e glorificam seus autores", completou.

O prefeito sérvio de Srebrenica, Mladen Grijicic, afirmou que "todos os dias há novas provas que negam a apresentação atual de tudo o que aconteceu".

"A comunidade internacional não defendeu Srebrenica há 25 anos, mas tem a possibilidade de defender a verdade", declarou Bakir Izetbegovic, líder do principal partido bósnio (muçulmano), o SDA, e filho do líder dos bósnios no momento do conflito, Alija Izetbegovic.

"Apesar de tudo que aconteceu, a vida renasce em Srebrenica (...) O passado difícil pode ser a oportunidade para nos conhecermos melhor melhor e construir um futuro melhor, se aceitarmos a verdade como linha diretiva", disse o grande mufti bósnio, Husein Kavazovic.

Diante da impossibilidade de um evento com muitas pessoas em apenas um dia, os organizadores convidaram a população a visitar o centro memorial ao longo de julho.

Várias exposições foram organizadas, incluindo os quadros do artista bósnio Safet Zec dedicados ao massacre.

Outra obra, com o nome "Por quê não estão aqui?", da artista americana de origem bósnia Aida Sehovic, consiste em mais de 8.000 xícaras de café (uma para cada vítima do massacre) colocadas no gramado do centro memorial.

À noite, o presidente francês, Emmanuel Macron, transmitiu uma mensagem de solidariedade à Bósnia e disse que o genocídio de Srebrenica obriga à "verdade" e à "justiça" porque é "o doloroso símbolo do fracasso da comunidade internacional em proteger a população civil".


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