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Estado de Minas

Após escravocratas, outras figuras históricas americanas tremem em seus pedestais


postado em 23/06/2020 15:55

Os ventos da mudança que sopram contra os monumentos a figuras escravocratas nos Estados Unidos também ameaçam personagens históricos da nação antes considerados intocáveis.

O movimento de protesto gerado pela morte do americano George Floyd por um policial, no fim de maio, reabriu o debate sobre monumentos vinculados historicamente à escravidão, muitos dos quais foram derrubados ou vandalizados.

"É uma batalha sobre a narração da história americana através das estátuas", diz a professora da American University em Washington Carolyn Gallaher. "No sul, onde se optou por venerar os confederados, os manifestantes dizem 'Acabou!'", afirma.

Na Virgínia, onde os primeiros colonos ingleses se estabeleceram antes de converter a região no coração escravocata dos Estados Unidos, manifestantes exigem que seja desmontada a estátua do comandante do Exército do Sul, general Robert Lee. Em Washington, uma estátua em homenagem ao general sulista Albert Pike foi derrubada na noite da última sexta-feira.

Os personagens mais emblemáticos da história americana já não estão imunes. Na praça em frente à Casa Branca, manifestantes tentaram na noite passada derrubar com cordas a estátua do polêmico presidente Andrew Jackson, mas foram impedidos pela polícia.

- 'Forma de veneração' -

O terceiro presidente americano, Thomas Jefferson, tornou-se alvo de grupos de manifestantes, que vandalizaram vários monumentos que o representam. Apesar de ter sido um dos autores da Declaração de Independência, ele também foi senhor de mais de 600 escravos e considerava os homens negros inferiores aos brancos, lembra o site de sua antiga plantação, convertida em museu, em Monticello, Virgínia.

"Muitas de suas estátuas deveriam ser derrubadas", manifestou na semana passada o apresentador de TV Shannon LaNier à "Newsweek". Ele é descedente de Sally Hemings, escrava com quem Jefferson teve vários filhos. "Ver estátuas do amo de seus ancestrais escravos, de um assassino ou de um supremacista branco representa uma dor além do imaginável para muitos negros", explicou.

Nem mesmo o pai da nação e seu primeiro presidente, George Washington, é intocável, pois o mesmo possuía mais de 100 escravos em sua plantação de Mount Vernon, ao sul da capital federal.

"Instalar uma estátua em um espaço público é uma forma de adoração e muitos se perguntam por que adoramos pessoas que possuíam escravos", comenta Carolyn Gallaher. Embora existissem diferenças conhecidas entre o general Lee e os dois pais fundadores, "todos eles tinham escravos, que é o que mais incomoda as pessoas", diz, assinalando que vários heróis da independência já haviam questionado "a moralidade da escravidão".

- Nos livros e museus -

A cidade de Nova York irá remover uma estátua do 26° presidente do país, Theodore Roosevelt, instalada na entrada do Museu de História Natural, devido a suas opiniões, consideradas colonialistas e racistas, uma decisão fortemente criticada por Donald Trump. O museu explicou no domingo que "a representação dos personagens africanos e ameríndios e sua posição neste monumento são racistas".

O site do museu destaca que Roosevelt era considerado um ambientalista progressista no começo do século XX, mas também defendeu opiniões racistas. "Onde está a linha: de Gandhi a George Washington?", questionou ontem a porta-voz da Casa Branca, Kayleigh McEnany.

Trump, um firme defensor dos monumentos confederados, manifestou no passado que sua remoção equivaleria a "despedaçar" a história e cultura americanas. "Autorizei as autoridades federais a deter os que vandalizam monumentos, estátuas ou qualquer propriedade do Estado americano", tuitou hoje o presidente americano, reforçando que a pena pode chegar a 10 anos de prisão. As condenações dos manifestantes podem ser retroativas e não haverá "nenhuma exceção", afirmou.

"Mas remover estátuas não significa eliminar o passado, deveria ser considerado parte da História", diz o professor de história da Universidade Rice, em Houston, Daniel Domingues, assinalando que a memória do país "é conservada nos livros e museus".

Carolyn Gallaher, que cresceu na Virgínia, acrescenta: "As pessoas não aprendem história com estátuas, irão aprender sobre a vida de George Washington mesmo sem haver uma estátua dele."


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