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Estado de Minas

Filhos do jornalista Khashoggi 'perdoam' seus assassinos sauditas


postado em 22/05/2020 11:07

Os filhos do jornalista saudita Jamal Khashoggi disseram nesta sexta-feira (22) que "perdoavam" os assassinos de seu pai, um anúncio que deve permitir que os réus evitem a pena de morte.

Jamal Khashoggi, um crítico do regime saudita, foi assassinado e seu corpo desmembrado em 2 de outubro de 2018 no consulado da Arábia Saudita em Istambul (Turquia), onde havia ido buscar um documento.

"Nós, filhos do mártir Jamal Khashoggi, anunciamos que perdoamos aqueles que mataram nosso pai", escreveu Salah Khashoggi, filho mais velho do ex-colaborador do jornal americano "The Washington Post", no Twitter.

As autoridades sauditas não reagiram publicamente a este anúncio de Salah Khashoggi, que continua morando na Arábia Saudita e sempre negou qualquer acordo financeiro com o regime.

"Isso significa principalmente que os assassinos evitarão a pena de morte, porque é um direito da família [de acordo com a Sharia, lei islâmica] através do perdão", segundo Ali Shihabi, autor e analista saudita próximo ao governo.

"De acordo com a Sharia aplicada na Arábia Saudita, os assassinos não serão executados", comentou, por sua vez, o analista Nabeel Nowairah no Twitter.

Salah Khashoggi, um dos quatro filhos do jornalista, disse várias vezes ter "total confiança" no sistema judicial saudita e criticou aqueles que, segundo ele, querem tirar proveito do caso.

Em abril de 2019, o "Washington Post" afirmou que os filhos do jornalista assassinado, incluindo Salah, haviam recebido casas avaliadas em vários milhões de dólares e pagamentos de milhares de dólares por mês das autoridades. A família negou.

Após o julgamento na Arábia Saudita, cinco sauditas foram condenados à morte, e outros três, a penas de prisão pelo assassinato. No total, 11 pessoas foram acusadas.

O veredicto proferido em dezembro, descrito como uma "paródia de Justiça" por organizações internacionais de direitos humanos, ocorreu quando o país se esforçava no nível diplomático para encerrar a crise e melhorar sua imagem, antes de uma cúpula do G20 agendada para Riade este ano.

Segundo a Turquia, Khashoggi foi estrangulado, e seu corpo foi posteriormente desmembrado durante uma missão operada por uma equipe de 15 pessoas. Os restos mortais do jornalista de 59 anos nunca foram encontrados.

Depois de negarem o assassinato e de apresentarem várias versões contraditórias, as autoridades de Riade finalmente disseram que o crime foi cometido por agentes sauditas que agiram sozinhos e sem as ordens das autoridades do reino.

O príncipe herdeiro Mohamed bin Salman foi apontado pelas autoridades turcas e americanas como o mentor do crime.

Mais tarde, ele disse que assumia a responsabilidade pelo assassinato como líder, mas negou ter tido conhecimento do mesmo.

Na Turquia, Hatice Cengiz, noiva de Khashoggi, considerou que "ninguém tem o direito de perdoar os assassinos".

"A armadilha que armaram para ele e seu odioso assassinato não têm prazo de prescrição, e ninguém tem o direito de perdoar os assassinos. Não vamos parar até que a justiça seja feita por Jamal", tuitou.

Em março, a Justiça turca decidiu iniciar um processo contra 22 pessoas, duas delas próximas a Mohamed bin Salman: o ex-conselheiro Saud al-Qahtani e o ex-número dois da Inteligência, general Ahmed al-Assiri.

O primeiro está sendo investigado, mas não foi indiciado "por falta de provas", e o segundo, acusado, foi exonerado pelos mesmos motivos, conforme a Promotoria saudita.

Os dois homens foram oficialmente expulsos do círculo político do príncipe herdeiro.

Desde que o príncipe chegou ao poder, a Arábia Saudita aumentou a repressão contra vozes críticas, especialmente as dos defensores dos direitos humanos.

No Twitter, Alia al-Hathlul, irmã do ativista Lujain Al Hathlul, detida por ter contatos com a mídia, com diplomatas e com ONGs, reagiu ao anúncio do filho de Khashoggi.

"Perdoar não significa isentar o autor" do crime, assegurou.

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