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Estado de Minas

Em Madri, jovens médicas dividem apartamento e medos em meio à pandemia


postado em 05/05/2020 08:19

A dois passos do hospital de Madri, onde enfrentam o coronavírus, quatro jovens médicas dividem o apartamento e, juntas, buscam diminuir a angústia causada pela pandemia de coronavírus, durante a qual esperam "amadurecer" como profissionais e como pessoas.

Foi em sua pequena sala de estar, com prateleiras decoradas com cactos artificiais e um vinil de Bob Dylan, que María Luisa Prados anunciou para suas colegas, no final de março: "Morreu uma menina de 28 anos que também era médica de família em um centro de saúde, como nós".

"No começo, fiquei muito ansiosa. Minhas mãos chegaram a ficar machucadas de tanto que lavava", conta uma outra jovem, Lourdes Ramos.

Após semanas de epidemia, ela ainda se impressiona com a rápida evolução da doença, com "pacientes que parecem estar progredindo bem e ficam muito doentes da noite para o dia".

María Luisa e Lourdes têm 29 anos, Ana e Cristina, 28.

Seus vizinhos, que todos os dias aplaudem os profissionais da saúde, não sabem que as quatro meninas que ficam na mesma janela são médicas prestes a terminar sua especialidade, capazes de trabalhar a partir das 8h em um centro de atenção primária e depois emendar um plantão na emergência de um hospital até as 8h do dia seguinte.

Todas têm raízes fortes em suas regiões de origem, Andaluzia e Ilhas Canárias. Três delas terminarão, em breve, sua especialização e planejavam celebrar essa realização em abril, no Vietnã.

Mas, em 3 de março, foi anunciada a primeira vítima fatal por coronavírus na Espanha. Agora são mais de 25.000 mortos.

- "Não somos imortais" -

Como outros hospitais de Madri, o Gregorio Marañón transbordou.

"Não esquecerei o dia 24 de março", diz Ana Rubio, o rosto quase escondido atrás dos óculos e da máscara cirúrgica.

"Você vestia o equipamento de proteção e ia para a área de coronavírus, que, no final, era todo o hospital. Todos os corredores estavam cheios de pacientes, pacientes, pacientes, muitos esperando há 48 horas por leitos, dormindo em cadeiras", conta.

Falando, Ana revive a impotência que sentiu naquele momento.

"Não havia pessoal suficiente para controlar quem estava bem e quem estava mal. Você tinha medo de 'alguém pode morrer aqui, agora mesmo, e eu não vou saber'", recorda.

Depois, "ao longo das semanas, os plantões foram melhorando, e começamos a aprender um pouco sobre como o vírus funcionava".

O pico naquele hospital foi atingido em 1º de abril, com mais de mil pacientes, 112 em terapia intensiva, relata ela. As quatro, três delas filhas de médicos, estavam descobrindo as falhas do sistema de saúde e sua própria fragilidade.

"Essa experiência vai nos ajudar a crescer como médicas e como pessoas, a valorizar a vida de maneira diferente", diz Ana.

"Nós não somos todos imortais", ela repete duas vezes.

- "Terapia entre amigas" -

No final do longo corredor do apartamento, María Luisa mostra a banheira de um banheiro em desuso, onde estão se acumulam as batas usadas no centro de saúde. Elas devem ser lavadas a 90 graus celsius.

Elas são discretas sobre as situações difíceis por que passaram. Mas María Luisa ainda é marcada pelo sofrimento de outros colegas que, quando não havia respiradores suficientes, tiveram de recusar a entrada de certos pacientes na UTI.

Às vezes, elas não conseguiam conter as lágrimas, quando, por exemplo, tinham de transmitir más notícias para os membros da família.

Para Cristina Rios, o mais difícil foi explicar a várias pessoas "que elas não podiam se despedir de um membro da família, porque não podiam se expor na área do coronavírus", um protocolo que depois mudaria.

Três delas foram enviadas para trabalhar no hospital de campanha instalado no centro de exposições Ifema, em Madri. Concebido para tratar casos menos graves, esse espaço deu a elas um espírito de "camaradagem" e "a alegria" de finalmente ver centenas de pacientes curados e agradecidos.

Agora, elas temem um surto da epidemia, o qual poderá a levar à reabertura do hospital de campanha fechado na última sexta-feira, 1º de maio.

Suas famílias estão longe, e seus namorados, inacessíveis em confinamento, mas elas têm um pacto não escrito: não deixar o vírus invadir toda sua vida.

María Luisa pratica dança contemporânea, Lourdes desenha em seus cadernos, Ana se exercita com pesos, e Cristina segue cursos de violão on-line. Na sala de estar, elas se encontram para conversar, jogar cartas, dançar, ou compartilhar os pratos feitos por Ana.

"É como uma terapia entre amigas", conclui Ana. "Terapia com música, terapia com risos, terapia com dança", completa a jovem médica.


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