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Estado de Minas

Visualização mental vira arma para atletas confinados


postado em 18/04/2020 15:13

A mente em plena forma: sem poder saltar de uma plataforma de 10 metros, disputar uma partida de badminton ou agarrar o kimono de um adversário, se concentrar em imaginar gestos técnicos cotidianos se tornou um recurso precioso para os atletas de alto rendimento confinados.

Como, apesar do confinamento que se alonga semanas após semanas e impossibilita a prática do esporte, os atletas podem fazer com que seus gestos técnicos não fiquem enferrujados?

Praticando "o esporte dentro da cabeça", ou seja, reproduzindo os gestos "com o pensamento", resume Claire Calmels, pesquisadora em neurociência cognitiva no INSEP, o Instituto do Esporte francês.

Já foi provado que imaginar um movimento (como observá-lo ou verbalizá-lo) e executar este movimento ativam um certo número de zonas comuns do cérebro", explica.

"Trata-se de visualizar na cabeça os pontos-chave de um salto, ou um salto inteiro. Você se dá conta que, no momento em que imagina o salto, consegue perceber as sensações que se tem no ar", explica à AFP o francês Benjamin Auffret, campeão europeu de 2017 na categoria 10 m de saltos ornamentais. "Músculos podem até se contrair", reforça Calmels.

- 'Manter as sensações' -

"A ideia é lembrar ao corpo as sensações que ele conhece. Tentamos mantê-las flutuando, evitar que caiam nas profundezas, para que no dia que possamos saltar de verdade lembrarmos como se sente. Assim, conseguimos recuperar o ritmo muito mais rapidamente", continua Auffret, que não pratica saltos ornamentais desde 25 de fevereiro.

Esta prática, usada principalmente por atletas lesionados, se tornou uma aliada para atletas de alto rendimento neste período de confinamento.

Para Auffret, de 25 anos, recorrer à simulação motriz é "primordial". "Eu nunca vi um saltador passar tanto tempo longe das piscinas", garante o francês, quarto colocado nos jogos Olímpicos do Rio-2016.

Auffret revela que costuma praticar mentalmente à noite, com os olhos fechados, antes de dormir.

"Para que a visualização se transfira para uma situação esportiva, é absolutamente necessário se aproximar o máximo possível das condições reais da prática", explica Claire Calmels.

"Para o badminton, em pé com a raquete na mão, para os judocas, descalço sobre um tatame...", exemplifica.

- 'Magia científica' -

É isso que faz Anne Tran, de 23 anos, membro da equipe da França de badminton, que já fez duas sessões de visualização no confinamento.

Cada sessão dura cerca de 20 minutos, porque "isso pede muita concentração, muita energia", revela à AFP.

Tran também pratica sessões de vídeo, outra técnica de simulação motriz.

"Me ajuda a ter algumas sensações que tenho normalmente na quadra, em competição. Também ajuda a não perder o contato com a maneira que trabalhava. E espero que me ajude a melhorar ainda mais minha técnica, já que não posso melhorar dentro da quadra", explica.

É o poder da imaginação. "Sinto na minha mão a raquete com meus dedos, e todo meu braço, meu cotovelo também quando se estende e dobra. E no saque, porque gosto muito de me firmar no chão nesse momento, sinto realmente meus pés", continua.

Embora, como todo atleta confinado, Anne Tran vive uma imersão no desconhecido -até então sua maior pausa na temporada tinha sido de uma semana e meio-, a experiência de atletas lesionados que recorreram a essa técnica dá esperança de uma volta com sucesso às quadras ao fim do confinamento, garante Claire Calmels.

A pesquisadora ajuda atletas com esta técnica há duas décadas, tendo trabalhando especialmente com a campeã olímpicas de 2004 nas barras assimétricas, a ginasta Emilie Le Pennec.

Embora tudo seja muito personalizado, Calmels revela que, na primeira sessão, costuma dar aos atletas "exercícios bastante alucinantes para mostrar os benefícios. Eles abrem os olhos e me dizem: 'É magia!". Eu corrijo eles: "É magia científica!".


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