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Estado de Minas

Com balanço alarmante pelo coronavírus, modelo adotado pela Suécia é questionado


postado em 16/04/2020 08:13

A Suécia se diferenciou na Europa por ter adotado uma abordagem flexível ante a epidemia de coronavírus, mas os especialistas questionam agora se o modelo é adequado, já que o balanço de vítimas no país é muito mais alarmante do que o dos vizinhos nórdicos.

Na terça-feira, o país superou a barreira de 1.000 mortes provocadas pela COVID-19, com 11.445 casos registrados oficialmente, o que significa uma taxa de mortalidade muito elevada na comparação com Finlândia, Dinamarca, ou Noruega.

O primeiro-ministro Stefan Löfven admitiu no sábado que "a preparação (do país) não foi boa o suficiente".

Mas como a Suécia chegou neste ponto?

Para Bo Lundbäck, professor de Epidemiologia na Universidade de Gotemburgo, "as autoridades e o governo acreditaram tolamente que a epidemia não chegaria à Suécia".

Ao contrário dos demais países escandinavos, que adotaram uma estratégia de semiconfinamento, Estocolmo descartou a ideia de colocar a população em isolamento, por considerar que as medidas drásticas não eram suficientemente eficazes para justificar seu impacto na sociedade.

As autoridades proibiram as concentrações de mais de 50 pessoas e as visitas às casas de repouso. A respeito das demais atividades, o governo apelou ao civismo, pedindo que cada um "assuma suas responsabilidades" e siga as recomendações da área de saúde.

Embora a estratégia tenha provocado certa perplexidade dentro e fora do país, o governo continua seguindo as recomendações da Agência de Saúde Pública.

"A Suécia estava mal ou inclusive nada preparada", criticou Bo Lundbäck em conversa com a AFP.

Ao lado de 21 pesquisadores, o epidemiologista assinou um artigo na terça-feira no jornal "Dagens Nyheter" para exigir "medidas rápidas e radicais", como o fechamento das escolas e restaurantes.

As autoridades de saúde continuam dando prioridade à estratégia a longo prazo e se recusam a adotar medidas drásticas como o confinamento, que, afirmam, apenas seria útil em períodos breves.

Na quarta-feira, a Suécia registrou 119 mortes vinculadas à COVID-19 por cada milhão de habitantes, segundo o site de estatísticas Worldometer. Na Dinamarca, o dado era de 53; na Noruega, 26; e na Finlândia, 12.

- Idosos e migrantes -

A Agência Pública de Saúde anunciou na semana passada que pelo menos 40% das mortes registradas na região de Estocolmo, epicentro da epidemia na Suécia, aconteceram em estabelecimentos para idosos.

Apesar das medidas adotadas pelo governo, a epidemia atingiu boa parte das casas de repouso: apenas na capital do país metade dos estabelecimentos foi afetada pelo vírus.

A rádio pública também revelou no início do mês que um terço dos municípios do país detectou casos suspeitos, ou confirmados, da doença em lares para idosos.

Uma situação que a ministra da Saúde, Lena Hallengren, não consegue explicar. "Ou não cumpriram a proibição de visitas, ou os funcionários com sintomas continuaram trabalhando", afirmou no início de abril.

O diretor do Centro para Pessoas Idosas e de Saúde da Universidade de Gotemburgo, Ingmar Skoog, acredita que a propagação do vírus pode ter sido provocada pelo fato de a Suécia não ser um país tão centralizado como os vizinhos.

Nas casas de repouso, algumas delas privadas ou dependentes dos municípios, "os funcionários recebem por hora trabalhada, com um salário menor, geralmente eles têm menos formação e são mais jovens", apontou Skoog.

E, ao contrário da Finlândia, onde os trabalhadores são amparados por acordos coletivos, na Suécia, "os que ganham por hora não recebem nada se ficam em casa por terem sintomas leves", como determinam as normas do Ministério da Saúde.

Em outro aspecto, enquanto a vizinha Noruega afirma que o vírus não afetou mais as "pessoas nascidas no exterior", nos bairros carentes de Estocolmo, onde vivem sobretudo migrantes ou pessoas descendentes de migrantes, a incidência da epidemia é três vezes maior do que no restante da capital, segundo um estudo publicado na semana passada.

Um panorama que pode ser consequência, de acordo com Gina Gustavsson, pesquisadora de Ciência Política da Universidade de Uppsala, de uma "falta preocupante de conhecimento, ou de interesse", por parte das autoridades a respeito destas populações, que às vezes têm costumes e hábitos sociais distintos.


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